Tomate rachado e podridão apical: o que a falta de água faz aos frutos no fim do verão

Uns racham de um dia para o outro, outros ganham uma mancha escura na ponta. São dois problemas diferentes, mas a origem é a mesma e nenhum deles se resolve com adubo.

Podridão apical num tomate, com a mancha escura na extremidade oposta ao pé do fruto.
Podridão apical num tomate, com a mancha escura na extremidade oposta ao pé do fruto.

Chega esta altura do ano e a horta prega duas partidas seguidas. Primeiro aparecem os tomates com uma mancha escura e “encovada” na parte de baixo. Depois, à conta de uma rega mais generosa ou de uma trovoada, os que estavam bonitos amanhecem rachados.

Muita gente conclui que é falta de adubo e vai buscar mais um saco à loja. A causa é outra e está na forma como a água chega às plantas em agosto.

Duas coisas diferentes, uma origem comum

A podridão apical, aquela mancha escura na ponta do fruto, e o rachamento parecem problemas distintos, e são. Mas ambos nascem do mesmo: variações bruscas na quantidade de água disponível no solo.

Podridão apical- Mancha castanha ou preta, seca e “encovada”, que aparece na extremidade oposta ao pé do fruto. Não é uma doença nem se pega de planta para planta. É uma falha na chegada de cálcio ao fruto durante o seu crescimento, causada quase sempre por rega irregular.

Repare num pormenor revelador: a mancha aparece na ponta e não junto ao pé. Isso acontece porque essa é a zona do fruto que fica mais longe da entrada de água e nutrientes, e por isso é a primeira a sofrer quando o abastecimento falha.

Porque é que o adubo com cálcio raramente resolve

Esta é a parte que poupa dinheiro a muita gente. Na esmagadora maioria dos solos portugueses, o cálcio existe e está lá em quantidade suficiente. O problema não é a falta dele na terra, é a dificuldade em fazê-lo chegar ao fruto.

O cálcio viaja com a água e não se redistribui dentro da planta depois de instalado. Numa tarde de 35 ºC em Santarém ou em Beja, a maior parte da água que a planta absorve vai para as folhas, que transpiram muito, e não para os frutos, que transpiram pouco. O fruto fica sem abastecimento, mesmo com a raiz a trabalhar.

Na maioria dos casos, o cálcio existe no solo. O que falta é água constante para o transportar até ao fruto.

Isto explica também porque é que aparecem tomates com mancha ao lado de tomates perfeitos na mesma planta. Os que estavam a crescer durante o período crítico ficaram marcados, os outros não.

O rachamento é o efeito inverso

Aqui o problema é o excesso repentino, e não a falta. Uma planta que passou dias com pouca água tem a pele do fruto endurecida e pouco elástica. Se de repente recebe muita água, a polpa incha depressa e a pele não acompanha. Racha. Na tabela abaixo, encontra os principais sinais que podem aparecer nos frutos, principais motivos e o que fazer para solucionar.

Sinal no fruto

O que aconteceu

O que fazer

Mancha escura na ponta

Falta de água constante durante o crescimento

Regar com regularidade e cobrir o solo

Fendas em círculo à volta do pé

Variação brusca de humidade no solo

Colher mais cedo e nunca deixar secar por completo

Fendas verticais dos ombros para baixo

Rega forte depois de vários dias secos

Regar menos de cada vez, mais vezes

Ombros amarelos ou esverdeados

Calor excessivo a travar a formação da cor

Dar alguma sombra nas horas de maior calor

Fruto pequeno e duro

Stress prolongado durante todo o ciclo

Rever a rega e a profundidade do solo

Principais problemas que aparecem nos tomates, o motivo e como resolver. Fonte: elaboração própria.

O que fazer, e é quase tudo a mesma coisa

A boa notícia é que a solução dos dois problemas é a mesma: acabar com os altos e baixos.

Regue com regularidade e sempre à mesma hora, de preferência de manhã cedo. Vale mais regar menos de cada vez e mais vezes do que encharcar o canteiro de três em três dias.

Fendas na pele do tomate, resultado de uma rega abundante depois de vários dias de solo seco.
Fendas na pele do tomate, resultado de uma rega abundante depois de vários dias de solo seco.

Cubra o solo à volta das plantas com palha, aparas de relva seca ou folhas. Uma camada de cinco centímetros reduz muito a evaporação e, sobretudo, mantém a humidade estável ao longo do dia, que é precisamente aquilo de que a planta precisa.

Não exagere no azoto. Um tomateiro com azoto a mais faz folha em excesso, e essa folhagem toda compete com os frutos pela água disponível, agravando o problema.

E não corte folhas em plena onda de calor. Nesta altura elas fazem sombra aos frutos e protegem-nos da queimadura do sol.

Os frutos marcados ainda servem

Um tomate com podridão apical não está estragado nem faz mal. Corte a parte afetada e aproveite o resto, que está perfeitamente bom. Um tomate rachado também se come, mas tem de ser depressa, porque a fenda é porta aberta a fungos e apodrece em poucos dias.

Antes de decidir a rega da semana, espreite a previsão. Se vierem dias de calor forte com vento, a planta vai gastar muito mais água e convém antecipar. E se anunciarem chuva forte depois de um período seco, colha os frutos que já estejam quase maduros. Vale mais um tomate colhido um dia mais cedo do que um tomate rachado no dia seguinte.