O que pensa que são flores não o são: o engano colorido da buganvília para sobreviver

A buganvília é uma das plantas mais comuns nos jardins e nas cidades, mas as suas cores enganam: não são flores, mas uma estratégia botânica que a torna mais resistente.

A buganvília pode viver mais de cinquenta anos se estiver bem implantada no solo e se for objeto de uma poda adequada.
A buganvília pode viver mais de cinquenta anos se estiver bem implantada no solo e se for objeto de uma poda adequada.

A natureza tem uma capacidade especial para nos confundir sem nos mentir completamente. Muitas vezes pensamos que entendemos o que vemos, mas as plantas jogam com a forma, a cor e a função de maneiras muito mais inteligentes do que normalmente imaginamos, e o que parece óbvio quase nunca o é quando o examinamos com uma lupa botânica.

Nos jardins urbanos, fachadas, muros e ruas de climas quentes, há uma planta que rouba todas as atenções; cheia de cores intensas, resistente ao abandono, que floresce quando outras mal sobrevivem e, como se isso não bastasse, parece feita para se exibir, a buganvília.

E é precisamente na sua beleza que reside o seu maior segredo, essa explosão de cor que acreditamos que as flores não cumprem exatamente a função que pensamos. A buganvília é um exemplo claro de como uma planta pode reorganizar a sua anatomia para se adaptar, se proteger e garantir a sua reprodução sem depender de estruturas delicadas.

Durante séculos, os jardineiros, os amantes das plantas e os meros curiosos chamaram “flores” ao que não são flores. Não por ignorância, mas porque o desenho das plantas tem como objetivo enganar o olho humano, e especialmente o dos polinizadores.

As verdadeiras flores de buganvília produzem néctar em quantidades muito pequenas, apenas o suficiente para atrair polinizadores específicos.
As verdadeiras flores de buganvília produzem néctar em quantidades muito pequenas, apenas o suficiente para atrair polinizadores específicos.

A compreensão deste pormenor muda a forma como vemos as buganvílias e ajuda-nos a compreender como as plantas otimizam os recursos, como sobrevivem em ambientes hostis e porque é que algumas espécies são tão bem sucedidas em climas extremos.

Buganvília: uma mestre da adaptação

A buganvília pertence ao género Bougainvillea, originário das regiões tropicais e subtropicais da América do Sul, especialmente do Brasil. Espalhou-se pelo mundo graças à sua rusticidade, resistência e valor ornamental. Prefere solos bem drenados, tolera a seca, resiste a temperaturas elevadas e desenvolve-se melhor quando não é objeto de cuidados excessivos.

A buganvília não desperdiça energia; adapta as suas estruturas para cumprir mais do que uma função ao mesmo tempo.

Este comportamento explica o facto de muitas buganvílias com folhas totalmente verdes produzirem pouca cor. O excesso de água e de fertilizantes favorece o crescimento vegetativo, mas reduz o sinal reprodutivo, fazendo com que a planta dê prioridade à sobrevivência em detrimento da reprodução.

A grande deceção está na cor; essas estruturas fúcsia, roxas, alaranjadas, brancas ou amarelas não são flores, apesar de lhes chamarmos isso. Tecnicamente, são brácteas ou, em termos simples, folhas modificadas que mudaram de forma, textura e pigmentação para cumprir outra função.

Se olharmos com atenção, no centro de cada aglomerado de cores encontramos uma pequena flor tubular, quase impercetível. Esta é a verdadeira flor, onde a reprodução tem lugar; tudo o resto é apenas para espetáculo. A buganvília utiliza as folhas como estratégia de reprodução, e não flores grandes e caras.

Porquê usar folhas em vez de flores vistosas?

Para uma planta, produzir flores grandes requer muita energia. Tecidos delicados, grande consumo de água, açúcares e nutrientes; em ambientes secos ou variáveis, isto pode ser arriscado, mas a buganvília resolveu este problema de forma brilhante.

As brácteas criam um sinal visual amplo e claro que guia os insetos para uma flor que, de outra forma, passaria despercebida.
As brácteas criam um sinal visual amplo e claro que guia os insetos para uma flor que, de outra forma, passaria despercebida.

Além disso, as brácteas têm uma função térmica, criando um pequeno microambiente à volta da flor verdadeira, ajudando a regular a temperatura e a humidade, o que aumenta as hipóteses de sucesso reprodutivo; em termos simples: menos gastos, mais eficiência.

A cor intensa das brácteas é devida principalmente a um pigmento chamado betalaína, um pigmento distinto das antocianinas que dominam em muitas flores. Este pigmento é estável em condições de calor e de radiação solar elevada, precisamente o ambiente onde a buganvília prospera.

Ele transformou as folhas, que já sabia produzir bem, em estruturas coloridas que atraem polinizadores e protegem a flor propriamente dita do sol, da desidratação e do vento.

Muitas pessoas acreditam que quando as flores “caem”, a planta está doente, mas na realidade, as brácteas têm um ciclo natural. Cumprem a sua função e desprendem-se quando a flor verdadeira termina o seu trabalho. Este processo não indica fracasso; indica sucesso reprodutivo.

Para além do seu valor ornamental, a buganvília é um exemplo perfeito de evolução funcional, mostrando-nos que a beleza das plantas nem sempre está onde esperamos e que muitas estruturas servem propósitos ocultos. A buganvília não nos engana por maldade; fá-lo para sobreviver.