Este seminário português passou de símbolo local a edifício em ruínas

Construído em 1928, foi seminário, centro cultural e referência em Felgueiras, até um incêndio em 2020 transformar o edifício histórico num conjunto de ruínas. Saiba tudo.

Conheça toda a história. Foto ilustrativa: Unsplash
Conheça toda a história. Foto ilustrativa: Unsplash

Durante décadas, o Seminário de Santa Teresinha foi um daqueles lugares que quase toda a gente em Felgueiras conhecia, mesmo quem nunca lá tinha entrado. Erguido numa quinta em Pombeiro, o edifício impunha respeito logo à primeira vista.

Grande, simétrico, com linhas inspiradas na arquitetura religiosa do início do século XX, parecia ter sido desenhado para durar para sempre.

Mas a história, como tantas vezes acontece com o património português, acabou por ser bem mais atribulada.

Muito mais do que um seminário

A construção começou em 1928, numa altura em que a Congregação da Missão (os Vicentinos) procurava reconstruir-se depois das perdas sofridas com a implantação da República. Santa Teresinha nasceu dessa persistência: tratava-se de um projeto ambicioso, pensado para formar futuros sacerdotes em Filosofia e Teologia, numa região onde a tradição vicentina tinha raízes profundas.

Entre 1928 e 1967, o edifício funcionou como seminário maior. Por ali passaram dezenas de jovens que mais tarde se tornariam padres, bispos e missionários, em Portugal e fora dele.

Ao todo, formaram-se ali cerca de 95 a 96 sacerdotes, entre os quais nomes marcantes da Igreja portuguesa e lusófona, como D. Augusto César ou D. Germano Grachane, primeiro bispo de Nacala, em Moçambique.

Mas reduzir Santa Teresinha a um espaço religioso seria injusto. Para a população local, o seminário era também um centro cultural e social. Foi ali que muitos habitantes tiveram, pela primeira vez, contacto com o telefone, a rádio, a televisão ou até sessões de cinema. Havia teatro, iniciativas pastorais, catequese e trabalho agrícola na quinta.

Aliás, durante anos, o seminário deu emprego, dinamizou a economia local e funcionou como um verdadeiro pólo de inovação numa zona rural.

Com a criação da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, em 1967, contudo, o seminário perdeu a sua função original. Ainda assumiu, durante algum tempo, o papel de Escola Apostólica, mas essa fase terminou no início da década de 80. O edifício foi então adaptado a lar de idosos, aproveitando os muitos quartos e os longos corredores . Mas esta não deixou de ser uma solução que embora fosse prática, era temporária.

Um lugar impressionante. Foto tirada por Padre Horácio Gomes e publicada no site 'Ruin'arte', em 2013.
Um lugar impressionante. Foto tirada por Padre Horácio Gomes e publicada no site 'Ruin'arte', em 2013.

Em 1988, Santa Teresinha foi vendida e passou para mãos privadas. A partir daí, entrou num ciclo que se tornaria tristemente familiar: projetos anunciados, intenções de transformação em hotel ou turismo rural, processos de licenciamento demorados e, no fim, nada concretizado. O edifício acabou mesmo por fechar, ficar devoluto e começar lentamente a degradar-se.

“Havia planos para modernizá-lo e transformá-lo num hotel, mas a obra ficou atolada na burocracia e nunca se concretizou”, nota o site ‘Atlas Obscura’

“Em 2009, foi aprovado um projeto para este espaço, mas os investidores acabaram por recuar”, acrescenta o site ‘Abadonados’.

Ainda assim, até 2020, quem conseguia visitar o interior encontrava um espaço surpreendente. Apesar da degradação causada pela infiltração de água e pelo abandono, havia salas quase intactas, escadarias de madeira, corredores intermináveis e uma capela que roubava todas as atenções.

“Nesta altura, o interior do seminário estava degrado, mas quase intocado — havia bancos históricos e uma capela conservada”, escreve a revista ‘NiT’, que relata a visita de um jovem ao seminário. “Durante o percurso, para surpresa, encontrou várias salas, muitas delas perfeitamente conservadas.”

A capela que parecia saída de um filme

A capela neomanuelina era, sem dúvida, a joia do conjunto. À primeira vista, parecia construída em pedra maciça, mas muitos dos elementos eram, na verdade, em gesso trabalhado e pintado para imitar granito, um recurso comum na época, mas de grande efeito visual.

Os arcos, o coro alto, os vitrais e os altares em pau-brasil criavam um ambiente solene e inesperadamente cinematográfico.

Não é por acaso que muitos visitantes a comparavam a cenários de filmes de fantasia.

Até esse ano, a capela estava relativamente bem conservada, com bancos, altares laterais e detalhes decorativos ainda no lugar. Este era o espaço mais fotografado e aquele que melhor resistia ao passar do tempo.

O incêndio que mudou tudo

Na noite de 25 para 26 de julho de 2020, no entanto, um incêndio devastou o antigo Seminário de Santa Teresinha e mudou tudo. O fogo alastrou rapidamente num edifício sem uso, sem vigilância e com já estruturalmente fragilizado.

O resultado foi devastador: o interior e a cobertura do corpo principal ficaram completamente destruídos. Não houve vítimas, mas perdeu-se quase tudo o que ainda restava.

O impacto foi imediato, não só para a comunidade local e antigos alunos, mas também para quem via o seminário como um símbolo patrimonial. Muitos falaram numa perda afetiva difícil de explicar.

“Foi uma notícia dramática e super triste para toda a comunidade do urbex em Portugal e não só, porque muitos estrangeiros também vinham cá de propósito para ir ao seminário, que era quase um clássico”, afirma Daniel Pererira, citado pela ‘NiT’.

O padre José Alves, que estudou no Seminário de Santa Teresinha entre 1964 e 1967, considerou que “houve uma perda afetiva muito grande”, sobretudo para antigos alunos, não só “sacerdotes, mas muita gente que hoje está espalhada pelo país”.

“Este seminário forneceu muitos outros elementos não só à Igreja mas também à sociedade: professores universitários, mas sobretudo muita gente para a administração pública, para os correios, professores, advogados”, acrescentou o sacerdote, citado pelo site ‘Ecclesia’.

O que resta hoje

Depois do incêndio, Santa Teresinha transformou-se num conjunto de ruínas. Do exterior, já não se reconhece a imponência de outros tempos. O acesso tornou-se mais fácil, mas também muito mais perigoso, com escombros, estruturas instáveis e zonas totalmente colapsadas.

A capela, embora danificada, foi a parte que melhor resistiu. Parte do telhado ruiu, abriu-se um buraco visível no interior e muitos vitrais perderam-se, mas ainda é possível identificar os arcos, o coro e alguns elementos do altar. A chuva e o tempo continuam, no entanto, a acelerar a degradação.

“Parece que o teto está a cair em câmara lenta por causa das pedras e dos ferros pendurados”, explica quem lá entra. “É triste, mas ficou um ambiente muito diferente. Parece uma coisa quase do ‘Harry Potter’.”

Em 2020, a quinta e o que restava do conjunto chegaram a ser colocados à venda por 1,85 milhões de euros. Até hoje, porém, o futuro do espaço permanece indefinido.

A verdade é que, mesmo em ruínas, o antigo Seminário de Santa Teresinha continua a impressionar quem o visita, não pela grandiosidade intacta, mas pelo peso da história que ali permanece.

A pergunta que fica é simples e desconfortável: como foi possível deixar chegar a este ponto um espaço que durante décadas serviu a Igreja, a sociedade e a comunidade local? A resposta pode ser complexa.