Será que a Antártida, neste século, irá ganhar mais gelo do que aquele que irá perder?

A subida do nível do mar é um dos sinais mais visíveis das alterações climáticas e a Antártida contém gelo suficiente para elevar o nível global do mar em cerca de 58 metros.

Atendendo às alterações climáticas, a Antártida está a aquecer, tendo sido registado o seu recorde oficial de temperatura máxima, 18,3 oC, em fevereiro de 2020.
Atendendo às alterações climáticas, a Antártida está a aquecer, tendo sido registado o seu recorde oficial de temperatura máxima, 18,3 oC, em fevereiro de 2020.

No entanto os cientistas divergem sobre uma questão fundamental: será que a Antártida ganhará mais gelo do que aquele que perderá neste século, ou perderá mais gelo do que aquele que ganhará?

Antártida e a subida do nível do mar

Ao falar-se de subida do nível do mar há que ter em conta, particularmente, a Antártida, atendendo que a perda de gelo deste continente gelado irá influenciar, e muito, o nível do mar.

A Antártida detém a maior reserva de água doce congelada do mundo. A sua enorme camada de gelo repousa sobre a terra e, quando este gelo se desloca para o oceano, adiciona água e eleva o nível do mar. As plataformas flutuantes de gelo ao longo das margens do continente ajudam a conter os glaciares atrás delas, funcionando como uma espécie de travão.

No entanto, estes travões podem enfraquecer com o aquecimento do clima. A água mais quente do oceano derrete as plataformas de gelo por baixo, tornando-as mais finas. À medida que as plataformas enfraquecem ou se fragmentam, os glaciares podem fluir mais rapidamente para o mar. A facilidade com que o gelo desliza sobre o solo que se encontra por baixo dele também influencia o ritmo desta perda.

Atualmente, cerca de 1 bilião de pessoas vive em zonas costeiras e aproximadamente 100 milhões vivem a menos de 1 metro do nível do mar, estando altamente expostas a inundações costeiras.

Com a subida do nível do mar, milhões de pessoas serão afetadas
Com a subida do nível do mar, milhões de pessoas serão afetadas

Num novo estudo desenvolvido por uma equipa internacional de cientista, publicado na revista científica Nature Geoscience, foram analisados centenas de milhares de futuros possíveis e o impacto de cada um na camada de gelo da Antártida.

O estudo detalha a drástica redução contínua da camada de gelo da Antártida, a subida esperada do nível do mar e as medidas que a humanidade pode tomar para abrandar o progresso de ambos.

A equipa de investigação utilizou simulações detalhadas baseadas em aprendizagem automática, um subconjunto da inteligência artificial, para estimar os resultados de diferentes medidas de prevenção de emissões em comparação com os níveis atuais.

Uma das grandes inovações deste estudo foi a utilização da ferramenta de aprendizagem automática, que aprende as relações entre as suposições nestas simulações e os seus resultados. Ela pôde, então, estimar os resultados muito mais rapidamente do que os modelos originais, permitindo aos investigadores explorar possibilidades que, de outra forma, seriam demasiado dispendiosas para testar em detalhe e exigiria enormes recursos computacionais.

O modelo de aprendizagem automática, utilizado neste estudo realiza numa fração de segundo o que os modelos originais demoravam dias, prevendo a alteração do nível do mar com precisão semelhante.

De acordo com o estudo, a Antártida deverá continuar a perder grandes porções das camadas de gelo até ao ano 2100, mesmo que sejam implementados planos ambiciosos de redução de emissões.

Considera-se como um plano ambicioso, a redução de emissões de forma a que o aquecimento global fique limitado a 1,5 oC acima dos níveis pré-industriais, que é a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris sobre o clima, assinado em 2015.

Caso as atuais taxas de emissão de gases de efeito de estufa se mantenham o estudo prevê uma subida do nível do mar entre os 15 e os 25 centímetros devido apenas ao gelo da Antártida, excluindo a água do degelo da Gronelândia e dos glaciares de montanha, bem como a expansão da água do mar à medida que aquece.

No entanto, a equipa descobriu, com uma probabilidade de pelo menos 89%, que a meta de baixas emissões mais ambiciosa, resultaria em menos perda de gelo na Antártida até ao final do século do que um cenário com emissões mais elevadas.

Se se quer proteger as populações que vivem em regiões costeiras, é urgente reduzir as emissões de CO2.
Se se quer proteger as populações que vivem em regiões costeiras, é urgente reduzir as emissões de CO2.

O estudo mostra que, no futuro, se as emissões forem mais elevadas podem desencadear uma série de mudanças que aceleram o movimento do gelo antártico em direção ao oceano.

Cada tonelada de gás com efeito de estufa que se adiciona à atmosfera piora a situação, e o efeito dura centenas de anos.

Os investigadores descobriram que é muito improvável que a queda de neve adicional num clima mais quente substitua todo o gelo que a Antártida perde. A sua resposta às alterações climáticas desenrola-se lentamente, o que significa que as consequências das emissões atuais podem persistir muito tempo depois de entrarem na atmosfera.

Os autores do estudo alertam que alguns processos estão ausentes das simulações atuais, pelo que o modelo de aprendizagem automática, utilizado no estudo, não consegue aprender sobre eles. Por exemplo, como o gelo racha e se quebra, e como os rios e lagos sob a camada de gelo mudam ao longo do tempo. Qualquer um destes fatores poderá alterar a compreensão da rapidez com que o gelo da Antártida chega ao mar e se as comunidades costeiras têm tempo suficiente para se adaptarem.

Referência da notícia

Lin, Y., Zhang, X. et al.. (2026). Committed Antarctic Ice Sheet mass loss by the end of the twenty-first century.