Armadilhas travam pragas que ameaçam os pinhais portugueses após a tempestade Kristin

Troncos partidos e árvores debilitadas favorecem a multiplicação de insetos capazes de destruir madeira e comprometer a recuperação dos ecossistemas florestais.

A tempestade Kristin atingiu Portugal na madrugada de 28 de janeiro, destruindo uma parte significativa da floresta na região Centro. Foto: Município de Ourém
A tempestade Kristin atingiu Portugal na madrugada de 28 de janeiro, destruindo uma parte significativa da floresta na região Centro. Foto: Município de Ourém

A tempestade Kristin derrubou árvores, partiu troncos e deixou extensas áreas florestais com madeira espalhada pelo terreno. Quase nove meses depois, a recuperação destes espaços enfrenta outro risco. Os pinheiros danificados podem atrair insetos que se reproduzem na madeira e ameaçam os povoamentos ainda de pé.

Para antecipar esse problema, os municípios de Proença-a-Nova e da Marinha Grande instalaram redes de armadilhas destinadas a capturar e monitorizar estas espécies.

A iniciativa procura detetar a presença dos insetos e acompanhar a evolução das suas populações antes que se multipliquem em excesso. Em Proença-a-Nova foram instaladas 100 armadilhas. Na Marinha Grande, a rede conta com 152 dispositivos, distribuídos por zonas consideradas prioritárias da Mata Nacional de Leiria.

A preocupação vai além das árvores derrubadas. Sem uma gestão adequada da madeira caída, os danos provocados pelo temporal podem prolongar-se, afetando a saúde dos pinhais, a qualidade da madeira e a recuperação das áreas atingidas.

O cheiro da madeira atrai os insetos

As armadilhas recorrem a feromonas e a outros iscos químicos para atrair os insetos. Depois de se aproximarem, estes ficam retidos num recipiente ou num sistema de captura, permitindo aos técnicos identificar as espécies e acompanhar a sua abundância.

Entre os principais alvos estão os escolitídeos, pequenos escaravelhos, conhecidos como bichos do mato ou gorgulhos da casca, que atacam sobretudo árvores debilitadas ou recentemente danificadas.

Também podem ser monitorizados insetos como o longicórnio do pinheiro (Monochamus galloprovincialis), associado à transmissão do nemátodo-da-madeira-do-pinheiro, um organismo microscópico capaz de provocar a morte das árvores infetadas.

Os escolitídeos perfuram a casca e escavam galerias no tecido que transporta nutrientes pela árvore. Foto: Canva
Os escolitídeos perfuram a casca e escavam galerias no tecido que transporta nutrientes pela árvore. Foto: Canva

A razão pela qual estas espécies podem aumentar após uma tempestade está relacionada com as defesas naturais das árvores. Um pinheiro saudável produz resina que ajuda a impedir a entrada de insetos. Quando o tronco se quebra ou as raízes são arrancadas, essa proteção pode ficar comprometida.

A madeira danificada liberta ainda compostos químicos que atraem os insetos. Os troncos caídos e as árvores moribundas oferecem condições favoráveis para a reprodução, permitindo que as populações aumentem se houver alimento disponível em quantidade suficiente.

Da casca perfurada à perda de valor da madeira

Os escolitídeos escavam galerias sob a casca dos pinheiros, onde se alimentam e depositam os ovos. A atividade destes insetos pode danificar os tecidos responsáveis pelo transporte de nutrientes e comprometer a vitalidade das árvores. Em ataques intensos, os pinheiros podem acabar por morrer.

Os prejuízos não se limitam à floresta como ecossistema. As perfurações e as manchas provocadas pelos insetos reduzem a qualidade comercial dos troncos, diminuindo o seu valor para a indústria da madeira.

O risco é particularmente relevante em áreas onde a tempestade deixou grandes quantidades de material lenhoso. A remoção atempada dos troncos danificados e a monitorização das populações de insetos são, por isso, medidas complementares. As armadilhas ajudam a entender onde há maior pressão, mas não substituem a gestão dos resíduos florestais.

Na Marinha Grande, a intervenção integra as ações de prevenção previstas na Operação Integrada de Gestão da Paisagem, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência. Os dispositivos são monitorizados e identificados com avisos sobre a presença de atrativos químicos. O município prevê duas rondas de acompanhamento antes da remoção das armadilhas, até 15 de novembro.

Uma floresta já muito castigada

A Mata Nacional de Leiria é um dos espaços mais emblemáticos entre os afetados. Depois dos incêndios de 2017 e dos danos provocados pela tempestade Leslie, a Kristin voltou a atingir duramente este pinhal. Mais de 90% dos povoamentos foram destruídos numa área de aproximadamente 1200 hectares.

Também Proença-a-Nova sofreu danos significativos, com rajadas que ultrapassaram os 150 quilómetros por hora em alguns locais. A queda de árvores dificultou o acesso a terrenos e caminhos florestais, enquanto a madeira dispersa aumentou a necessidade de operações de limpeza.

A dimensão dos estragos conduziu a uma mobilização em larga escala para retirar o material lenhoso e recuperar as áreas afetadas. Em vários municípios da região Centro, incluindo Leiria, Ourém, Pombal e Tomar, a prioridade passou a ser limpar os terrenos, remover os troncos e organizar locais de armazenamento temporário.

Estas medidas procuram reduzir a quantidade de madeira disponível para a reprodução dos insetos e facilitar o acompanhamento fitossanitário. A recuperação exige, assim, mais do que retirar árvores caídas. É necessário evitar que os danos iniciais desencadeiem novos problemas.

Monitorização cada vez mais tecnológica

A vigilância das pragas florestais poderá beneficiar ainda de uma rede nacional de monitorização baseada em tecnologia digital. Portugal está a desenvolver, em articulação com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, uma Rede Nacional Inteligente de Monitorização de Pragas e Vetores.

O projeto integra armadilhas com câmaras e sensores para capturar imagens dos insetos. Recorrendo à inteligência artificial e à visão computacional, o sistema identifica e contabiliza as espécies, enviando os dados a uma plataforma central que apoia a emissão de alertas.

A rede visa acelerar a deteção de aumentos populacionais e impulsionar respostas mais eficazes das autoridades. O desenvolvimento da infraestrutura decorre em várias fases, com a conclusão e a maturidade plena da plataforma previstas para o final de 2026.

Armadilha com atrativo químico usada para monitorizar e capturar insetos que ameaçam os povoamentos florestais. Foto: Município de Proença-a-Nova
Armadilha com atrativo químico usada para monitorizar e capturar insetos que ameaçam os povoamentos florestais. Foto: Município de Proença-a-Nova

Enquanto essa cobertura não estiver concluída, iniciativas como as de Proença-a-Nova e de Marinha Grande mantêm um papel importante. A colaboração dos habitantes também conta. Os municípios pedem que ninguém retire, desloque ou danifique os dispositivos instalados na floresta, para não comprometer a recolha de dados.

A tempestade deixou um rasto de árvores tombadas. Impedir que os insetos agravem as perdas é uma parte essencial da recuperação. A monitorização acompanha o risco, mas os resultados dependem também da rapidez na gestão dos terrenos e da continuidade dos esforços de prevenção.

Referências da notícia

Município de Proença-a-Nova. Município instala 100 armadilhas na floresta para proteger os povoamentos florestais.
Município da Marinha Grande. Município da Marinha Grande instala 152 armadilhas para prevenir a proliferação de escolitídeos na floresta.
ICNF. Instalação de armadilhas para redução do risco de dispersão do nemátode-da-madeira-do-pinheiro e do seu vetor.