Armadilhas travam pragas que ameaçam os pinhais portugueses após a tempestade Kristin
Troncos partidos e árvores debilitadas favorecem a multiplicação de insetos capazes de destruir madeira e comprometer a recuperação dos ecossistemas florestais.

A tempestade Kristin derrubou árvores, partiu troncos e deixou extensas áreas florestais com madeira espalhada pelo terreno. Quase nove meses depois, a recuperação destes espaços enfrenta outro risco. Os pinheiros danificados podem atrair insetos que se reproduzem na madeira e ameaçam os povoamentos ainda de pé.
A iniciativa procura detetar a presença dos insetos e acompanhar a evolução das suas populações antes que se multipliquem em excesso. Em Proença-a-Nova foram instaladas 100 armadilhas. Na Marinha Grande, a rede conta com 152 dispositivos, distribuídos por zonas consideradas prioritárias da Mata Nacional de Leiria.
A preocupação vai além das árvores derrubadas. Sem uma gestão adequada da madeira caída, os danos provocados pelo temporal podem prolongar-se, afetando a saúde dos pinhais, a qualidade da madeira e a recuperação das áreas atingidas.
O cheiro da madeira atrai os insetos
As armadilhas recorrem a feromonas e a outros iscos químicos para atrair os insetos. Depois de se aproximarem, estes ficam retidos num recipiente ou num sistema de captura, permitindo aos técnicos identificar as espécies e acompanhar a sua abundância.
Também podem ser monitorizados insetos como o longicórnio do pinheiro (Monochamus galloprovincialis), associado à transmissão do nemátodo-da-madeira-do-pinheiro, um organismo microscópico capaz de provocar a morte das árvores infetadas.

A razão pela qual estas espécies podem aumentar após uma tempestade está relacionada com as defesas naturais das árvores. Um pinheiro saudável produz resina que ajuda a impedir a entrada de insetos. Quando o tronco se quebra ou as raízes são arrancadas, essa proteção pode ficar comprometida.
A madeira danificada liberta ainda compostos químicos que atraem os insetos. Os troncos caídos e as árvores moribundas oferecem condições favoráveis para a reprodução, permitindo que as populações aumentem se houver alimento disponível em quantidade suficiente.
Da casca perfurada à perda de valor da madeira
Os escolitídeos escavam galerias sob a casca dos pinheiros, onde se alimentam e depositam os ovos. A atividade destes insetos pode danificar os tecidos responsáveis pelo transporte de nutrientes e comprometer a vitalidade das árvores. Em ataques intensos, os pinheiros podem acabar por morrer.
O risco é particularmente relevante em áreas onde a tempestade deixou grandes quantidades de material lenhoso. A remoção atempada dos troncos danificados e a monitorização das populações de insetos são, por isso, medidas complementares. As armadilhas ajudam a entender onde há maior pressão, mas não substituem a gestão dos resíduos florestais.
Na Marinha Grande, a intervenção integra as ações de prevenção previstas na Operação Integrada de Gestão da Paisagem, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência. Os dispositivos são monitorizados e identificados com avisos sobre a presença de atrativos químicos. O município prevê duas rondas de acompanhamento antes da remoção das armadilhas, até 15 de novembro.
Uma floresta já muito castigada
A Mata Nacional de Leiria é um dos espaços mais emblemáticos entre os afetados. Depois dos incêndios de 2017 e dos danos provocados pela tempestade Leslie, a Kristin voltou a atingir duramente este pinhal. Mais de 90% dos povoamentos foram destruídos numa área de aproximadamente 1200 hectares.
A dimensão dos estragos conduziu a uma mobilização em larga escala para retirar o material lenhoso e recuperar as áreas afetadas. Em vários municípios da região Centro, incluindo Leiria, Ourém, Pombal e Tomar, a prioridade passou a ser limpar os terrenos, remover os troncos e organizar locais de armazenamento temporário.
Estas medidas procuram reduzir a quantidade de madeira disponível para a reprodução dos insetos e facilitar o acompanhamento fitossanitário. A recuperação exige, assim, mais do que retirar árvores caídas. É necessário evitar que os danos iniciais desencadeiem novos problemas.
Monitorização cada vez mais tecnológica
A vigilância das pragas florestais poderá beneficiar ainda de uma rede nacional de monitorização baseada em tecnologia digital. Portugal está a desenvolver, em articulação com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, uma Rede Nacional Inteligente de Monitorização de Pragas e Vetores.
A rede visa acelerar a deteção de aumentos populacionais e impulsionar respostas mais eficazes das autoridades. O desenvolvimento da infraestrutura decorre em várias fases, com a conclusão e a maturidade plena da plataforma previstas para o final de 2026.

Enquanto essa cobertura não estiver concluída, iniciativas como as de Proença-a-Nova e de Marinha Grande mantêm um papel importante. A colaboração dos habitantes também conta. Os municípios pedem que ninguém retire, desloque ou danifique os dispositivos instalados na floresta, para não comprometer a recolha de dados.
A tempestade deixou um rasto de árvores tombadas. Impedir que os insetos agravem as perdas é uma parte essencial da recuperação. A monitorização acompanha o risco, mas os resultados dependem também da rapidez na gestão dos terrenos e da continuidade dos esforços de prevenção.
Referências da notícia
Município de Proença-a-Nova. Município instala 100 armadilhas na floresta para proteger os povoamentos florestais.
Município da Marinha Grande. Município da Marinha Grande instala 152 armadilhas para prevenir a proliferação de escolitídeos na floresta.
ICNF. Instalação de armadilhas para redução do risco de dispersão do nemátode-da-madeira-do-pinheiro e do seu vetor.