Mesmo em frente a Lisboa, uma planta que só cresce em Almada foi descoberta nas arribas do Tejo

A linaria almadensis, exclusiva dos paredões e terraços arenosos próximos do Cristo-Rei, só agora foi revelada ao mundo, mas já está a um passo da extinção.

João Farminhão descobriu a linária alamdensis no Gargalo do Tejo, em Almada, uma planta única à face da Terra. Foto: João Farminhão/Flora-On
João Farminhão descobriu a linária alamdensis no Gargalo do Tejo, em Almada, uma planta única à face da Terra. Foto: João Farminhão/Flora-On

Quando ouvimos que uma nova espécie de planta foi descoberta numa floresta tropical, quase nem estranhamos. É sobretudo nestes hotspots de biodiversidade que a maioria das descobertas são feitas.

Estas raridades, no entanto, podem surgir mesmo debaixo do nosso nariz. Foi o caso da linaria almadensis, espécie endémica de Almada, que o cientista e botânico português João Farminhão encontrou nas arribas do Gargalo do Tejo, o troço mais estreito do rio.

Próximo da estátua do Cristo Rei, frente à cidade de Lisboa, o investigador da Universidade de Coimbra encontrou uma espécie que só existe nesta parte do município e em mais nenhum lugar do planeta. Batizou-a de linaria almadensis, em homenagem ao concelho de Almada, num artigo científico publicado na Botany Letters.

Embora exemplares da linaria almadensis tivessem sido recolhidos no século XIX, só agora se confirmou a sua existência. Foto: João Farminhão/Flora-On
Embora exemplares da linaria almadensis tivessem sido recolhidos no século XIX, só agora se confirmou a sua existência. Foto: João Farminhão/Flora-On

A descoberta é resultado de um exaustivo trabalho de investigação, mas também de algumas felizes coincidências. Se não fossem conversas e encontros casuais entre amigos, dificilmente teria conseguido juntar as pistas que o ajudaram a desvendar o mistério. Mas deixemos suspense de lado e iniciemos esta história pelo princípio, que é assim que deve ser.

Juntando as pistas do puzzle

Tudo começou há cerca de dois anos quando, encafuado no Herbário da Universidade de Coimbra - a maior coleção botânica do país -, João Farminhão se deparou com uma linária diferente de tudo o que tinha visto até então em publicações científicas.

João Farminhão batizou a nova espécie de linaria almadensis em homenagem à cidade de Almada. Fotos: reprodução do Facebook e Flora-On
João Farminhão batizou a nova espécie de linaria almadensis em homenagem à cidade de Almada. Fotos: reprodução do Facebook e Flora-On

Nos documentos mais recentes, a planta estava catalogada como linaria supina, colhida em 2019, em Porto Brandão, freguesia ribeirinha de Almada. Algo não batia certo, mas a sua curiosidade ficou em banho-maria. Alguns meses mais tarde, cruzou-se com um colega durante um encontro da Sociedade Portuguesa de Botânica.

Conversa puxa conversa, o investigador ficou a saber que uma amiga em comum encontrara algumas linárias ao pé do Cristo Rei. As plantas tinham uma aparência distinta, mas, na ausência de registos documentais, foram identificadas como Linaria supina.

Seria a mesma que vira no herbário? – perguntou a si próprio. Só com uma ida ao lugar dos factos a dúvida se dissiparia. Partiu, por isso, em direção a Almada e foi próximo do pedestal do Cristo-Rei, que avistou um grupo de linárias. Foi preciso ainda voltar ao local no dia seguinte para, com a ajuda do avô, subir as arribas e recolher finalmente um espécime.

O habitat da linaria almadensis, com poucas dezenas de espécimes identificadas, encontra-se ameaçado pela construção de infraestruturas portuárias e plantas invasoras. Foto: João Farminhão/Flora-On
O habitat da linaria almadensis, com poucas dezenas de espécimes identificadas, encontra-se ameaçado pela construção de infraestruturas portuárias e plantas invasoras. Foto: João Farminhão/Flora-On

Chegara agora o momento de consultar as publicações disponíveis sobre linárias do mesmo grupo existentes não só em Portugal, como em Espanha e no Norte de África. Um trabalho de formiguinha para conseguir comparar cerca de meia centena de espécies e subespécies agrupadas na secção Supinae, uma entre várias famílias taxonómicas do género Linaria. Nenhuma delas igual às que encontrou no Gargalo do Tejo.

Cruzando informações recolhidas em exemplares mal catalogados da nova espécie em herbários, imagens de satélite e mapas geológicos, João Farminhão identificou outros locais, como Porto Brandão, a Boca do Vento, Palença ou Arrábida, onde procurou sem sucesso por mais exemplares da espécie.

Concluiu, portanto, que o habitat da espécie recém-descoberta está circunscrito aos paredões e terraços arenosos das arribas da margem sul do Tejo. Poderão existir ainda mais alguns núcleos entre Cacilhas e a Trafaria, mas, por estarem em arribas inacessíveis, não serão detetáveis a olho nu.

Foi próximo do pedestal do Cristo-Rei, que João Farminhão recolheu o primeiro exemplar da linaria almadensis. Foto: Cristo-Rei Foto: Mylo Keye via Pexels
Foi próximo do pedestal do Cristo-Rei, que João Farminhão recolheu o primeiro exemplar da linaria almadensis. Foto: Cristo-Rei Foto: Mylo Keye via Pexels

Os prados rupícolas calcários são o seu local natural pelo que se deveria criar áreas protegidas para preservar o seu habitat, defende o investigador, relembrando que arribas junto ao Tejo conservam também um valiosíssimo património geológico e paleontológico, onde foram identificados fósseis de crocodilos do Miocénico, elefantes do Plistocénico ou invertebrados marinhos.

Uma raridade em perigo

Proteger a nova planta é um passo fundamental - embora só agora tenha sido revelada ao mundo, a Linaria almadense entrou diretamente para a categoria das espécies Criticamente em Perigo, estando a um passo da extinção.

É urgente, como tal, preservar uma área já de si ameaçada pela densa urbanização, principalmente pela cimentação das arribas que permitiu instalar vários tipos de infraestruturas portuárias.

Não menos importantes são as plantas invasoras, como as capuchinhas (Tropaeolum majus), as canas (Arundo donax) ou as azedas (Oxalis pes-caprae) que competem por solo e nutrientes com a Linaria almadense, espécie que agora entrou para o grupo de pouco mais de 90 espécies de plantas endémicas de Portugal.

Embora localizado às portas de Lisboa, o Gargalo do Tejo não foi ainda alvo de qualquer levantamento sobre a sua flora. Foto: WWF Portugal
Embora localizado às portas de Lisboa, o Gargalo do Tejo não foi ainda alvo de qualquer levantamento sobre a sua flora. Foto: WWF Portugal

Pode ser até que existam outras espécies igualmente raras junto à foz do rio. Por incrível que pareça não há nenhuma investigação botânica ou levantamentos publicados sobre a flora do Gargalo do Tejo.

Tão perto de Lisboa e à vista de todos, as arribas ribeirinhas de Almada são ainda um território desconhecido. A investigação de João Farminhão é um lembrete sobre o tanto que ainda há para descobrir sobre a biodiversidade portuguesa.

Referências do artigo

João Farminhão. Linaria almadensis (Plantaginaceae, Antirrhineae): a highly threatened new toadflax endemic to the Tagus mouth cliffs, opposite Lisbon (Portugal). Botany Letters

Sara Machado. Descoberta nova espécie de planta endémica das arribas do Gargalo do Tejo. Universidade de Coimbra.