O fóssil vivo da Amazónia: descoberta planta que sobreviveu à era dos dinossauros

Descubra a Zamia urarinorum, o tesouro botânico pré-histórico da Amazónia que resiste às cheias e protege o nosso futuro climático. Saiba mais aqui!

Zamia urarinorum: o fóssil vivo da Amazónia que conviveu com os dinossauros e hoje desafia o tempo em solos inundados.
Zamia urarinorum: o fóssil vivo da Amazónia que conviveu com os dinossauros e hoje desafia o tempo em solos inundados.

A descoberta da planta Zamia urarinorum na Amazónia peruana representa um marco significativo para a botânica e para a compreensão da resiliência da flora que remonta à era dos dinossauros.

Esta nova espécie pertence à ordem Cycadales, um grupo de vegetais frequentemente descritos como "fósseis vivos", uma vez que mantêm características morfológicas muito semelhantes às dos seus antepassados que coexistiram com os grandes répteis há milhões de anos.

Esta descoberta foi anunciada pelo Instituto de Investigações da Amazónia Peruana (IIAP) e contou com a colaboração de cientistas de renome internacional, incluindo especialistas do Centro Botânico Montgomery (EUA), do Instituto Federal de Educação do Brasil e da Pontifícia Universidade Católica do Peru. O estudo, detalhado na revista científica Phytotaxa, localizou os exemplares na região de Loreto, especificamente entre as bacias dos rios Tigrillo e Urituyacu.

Características únicas e adaptação

O que torna a Zamia urarinorum particularmente fascinante é a sua excecional capacidade de adaptação. Ao contrário de outras espécies do género Zamia, que geralmente exigem solos secos e bem drenados, esta nova espécie adaptou-se a ambientes permanentemente inundáveis. Apresenta uma tolerância fisiológica rara à hipóxia (falta de oxigénio no solo), sendo capaz de crescer em terrenos saturados de água e até mesmo com parte do seu caule submerso.

Comparação das características morfológicas de Zamia multidentata e Z. urarinorum. A. Folheto mediano de Z. multidentata, lado adaxial, B. Folheto mediano de Z. urarinorum, lado adaxial, C. Pólen strobilus de Z. multidentata, D. Pollen strobilus de Z. urarinorum, E. Sclerotesta de semente de Z. multidentata, F. Sclerotesta da semente de Z. urarinorum. Fonte: Calonje, M., Zárate-Gómez, R., Jones, M.A., Segalla, R., Brañas, M.M., Pizango, C.G.H. & Alcázar, F.R. (2026) Zamia urarinorum (Cycadales, Zamiaceae), a new cycad species from wetland forests of Loreto, Peru. Phytotaxa 741 (1): 1–17.
Comparação das características morfológicas de Zamia multidentata e Z. urarinorum. A. Folheto mediano de Z. multidentata, lado adaxial, B. Folheto mediano de Z. urarinorum, lado adaxial, C. Pólen strobilus de Z. multidentata, D. Pollen strobilus de Z. urarinorum, E. Sclerotesta de semente de Z. multidentata, F. Sclerotesta da semente de Z. urarinorum. Fonte: Calonje, M., Zárate-Gómez, R., Jones, M.A., Segalla, R., Brañas, M.M., Pizango, C.G.H. & Alcázar, F.R. (2026) Zamia urarinorum (Cycadales, Zamiaceae), a new cycad species from wetland forests of Loreto, Peru. Phytotaxa 741 (1): 1–17.

Morfologicamente, a planta possui caules delgados e folhas que podem atingir os 2,5 metros de comprimento, com folíolos estreitos e dentados. Sendo uma espécie dioica (com indivíduos de sexos separados), a Zamia urarinorum apresenta plantas macho e fêmea distintas, cujas estruturas reprodutivas (cones e sementes) variam entre tons de castanho escuro e verde-amarelado, sendo mais pequenas do que as dos seus parentes mais próximos.

Homenagem e contexto cultural

O nome científico, Zamia urarinorum, constitui uma homenagem ao povo indígena Urarina. Este grupo étnico tem desempenhado um papel fundamental na preservação dos ecossistemas onde a planta foi encontrada. O reconhecimento do papel das comunidades tradicionais é um aspeto central desta descoberta, sublinhando que a conservação da biodiversidade está intrinsecamente ligada à proteção dos territórios indígenas.

Para além do seu valor histórico e evolutivo, a espécie desempenha funções ecológicas vitais. Habita em áreas cujos ecossistemas são cruciais para a regulação hídrica da região e para o armazenamento de carbono, ajudando a mitigar os efeitos das alterações climáticas.

No entanto, apesar de ter sobrevivido durante eras geológicas, a Zamia urarinorum já "nasce" para a ciência sob ameaça. Os investigadores alertam que a expansão agrícola, os recorrentes derrames de petróleo na região e os grandes projetos de infraestruturas colocam em risco os habitats de Loreto. Por este motivo, os especialistas recomendam a sua inclusão imediata nas listas de proteção da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

Em suma, a descoberta desta "planta dos dinossauros" não só enriquece o património botânico do Peru, como serve de lembrete urgente sobre a fragilidade dos ecossistemas amazónicos e a necessidade de políticas de conservação que integrem o conhecimento científico com o respeito pelas comunidades nativas.

Referências da notícia:

https://www.clarin.com/internacional/descubren-amazonas-planta-epoca-dinosaurios_0_ObKtT1sZWN.html#google_vignette

https://phytotaxa.mapress.com/pt/article/view/phytotaxa.741.1.1

Calonje, M., Zárate-Gómez, R., Jones, M.A., Segalla, R., Brañas, M.M., Pizango, C.G.H. & Alcázar, F.R. (2026) Zamia urarinorum (Cycadales, Zamiaceae), a new cycad species from wetland forests of Loreto, Peru. Phytotaxa 741 (1): 1–17. https://doi.org/10.11646/phytotaxa.741.1.1