Formigas e pulgões: a parceria que se instala nas hortas no fim do verão

Vê formigas a subir e a descer pelos caules e assume que são elas que estão a estragar a planta. Na verdade, andam ali por causa de outra coisa, e é essa que está a fazer o estrago.

Formigas junto a uma colónia de pulgões, que protegem em troca do líquido açucarado que estes libertam.
Formigas junto a uma colónia de pulgões, que protegem em troca do líquido açucarado que estes libertam.

Há uma cena que se repete em todas as hortas por esta altura. Uma fila de formigas sobe pelo caule de uma planta, com uma disciplina que impressiona, e no topo, nos rebentos mais novos, está um aglomerado de bichinhos verdes ou pretos.

A conclusão imediata costuma ser que as formigas estão a atacar a planta. Não estão. Estão a tratar de um rebanho.

Uma parceria com séculos de rodagem

Os pulgões alimentam-se da seiva, que é muito rica em açúcar e pobre em proteína. Para obterem a proteína de que precisam, têm de ingerir grandes quantidades de seiva, e todo o açúcar que sobra é expulso na forma de um líquido doce.

Melada- Substância açucarada e pegajosa que os pulgões libertam depois de se alimentarem da seiva. É o que deixa as folhas brilhantes e coladas, atrai formigas e vespas, e serve de alimento a um fungo preto que se instala à superfície.

As formigas adoram esse açúcar. Em troca, protegem os pulgões dos predadores naturais, afastando joaninhas e crisopídeos, transportam-nos para folhas mais tenras e chegam a guardar ovos no formigueiro durante o inverno. É uma criação de gado em toda a linha.

Porque é que isto acontece agora e não em julho

O pulgão gosta de temperaturas amenas e sofre no pico do calor. Acima dos 30 ºC a reprodução abranda, e é por isso que em pleno julho o problema costuma acalmar.

No fim de agosto, com as noites a arrefecer e as máximas a suavizar, entra a janela ideal. E há um pormenor que faz a diferença: quando as condições são boas, as fêmeas dispensam machos e dão à luz crias já formadas, capazes de se reproduzir poucos dias depois.


Com temperaturas amenas, a população duplica em poucos dias. É por isso que uma colónia pequena se torna incontrolável numa semana.

Junte-se a isto o facto de a horta estar cheia de rebentos novos e tenros nas culturas de outono acabadas de plantar, e percebe-se por que é que o fim do verão é a estação da praga.

Como saber se o problema já é sério

São vários os sinais a que deve estar atento (a). Na tabela abaixo pode encontrar alguns dos principais, seu significado e o que fazer em cada caso.

O que vê

O que significa

Urgência

Formigas em fila no caule

Há colónia de pulgões acima

Verificar já os rebentos

Folhas brilhantes e pegajosas

Melada acumulada

Intervir esta semana

Camada preta sobre as folhas

Fungo instalado na melada

Lavar e tratar a origem

Rebentos enrolados e deformados

Colónia instalada há dias

Cortar e retirar

Peles brancas espalhadas

Mudas da população em crescimento

População a duplicar

Principais sinais do ataque de pulgões e formigas nas plantas. Fonte: elaboração própria.

A camada preta merece uma nota. Não é uma doença da planta e não penetra nos tecidos. Instala-se sobre a melada e o mal que faz é tapar a folha, impedindo-a de apanhar luz. Se resolver os pulgões, ela acaba por desaparecer.

Quebrar a parceria vale mais do que matar os pulgões

Aqui está o essencial. De nada serve eliminar os pulgões se as formigas continuarem a levar novos para a planta e a afastar quem os come.

Comece por impedir a subida. Uma faixa de cola entomológica à volta do tronco, ou fita adesiva de dupla face, resolve em fruteiras e em plantas de caule lenhoso. Retire também tudo o que sirva de ponte, como ramos encostados a muros, ervas altas junto ao caule ou tutores ligados a outras plantas.

Colónia de pulgões instalada num rebento novo, a parte mais tenra e mais procurada da planta.
Colónia de pulgões instalada num rebento novo, a parte mais tenra e mais procurada da planta.

Depois, um jato de água. Parece simples de mais, mas resulta. Uma pulverização forte de manhã desaloja boa parte da colónia, e os pulgões que caem raramente voltam a subir sozinhos. Repita de dois em dois dias.

Corte e retire os rebentos com colónias densas. Não os deixe no chão nem no composto aberto.

E dê espaço aos predadores. Uma joaninha adulta come dezenas de pulgões por dia e as suas larvas comem ainda mais. Se vir larvas alongadas cinzentas com manchas alaranjadas nas folhas, não as tire, são as suas melhores aliadas.

O azoto a mais é um convite

Um pormenor que muita gente ignora: plantas com excesso de adubo azotado produzem rebentos tenros e seiva mais rica em aminoácidos, exatamente o que o pulgão procura. Uma horta empanturrada de azoto atrai mais praga do que uma equilibrada.

Nas próximas semanas, repare em duas coisas na previsão da sua zona. Se as máximas descerem para a casa dos 25 ºC e as noites ficarem amenas, como acontece no fim de agosto em Braga ou em Aveiro, é altura de olhar para os rebentos novos duas vezes por semana. E depois de uma chuvada forte, verifique também, porque a água limpa as colónias mas também lava a proteção que possa ter aplicado.