Pulgas no pêlo, químicos no rio: quando proteger os nossos animais de estimação ameaça a natureza

Tratamos as pulgas para proteger os nossos animais, mas poucos imaginam que esse gesto diário pode estar a levar químicos invisíveis dos nossos lares para rios, solos e ecossistemas inteiros. Saiba mais aqui!

Substâncias químicas utilizadas no dia a dia estão a chegar aos rios e a afetar ecossistemas frágeis, assim proteger os nossos animais também passa por escolhas mais informadas e responsáveis.
Substâncias químicas utilizadas no dia a dia estão a chegar aos rios e a afetar ecossistemas frágeis, assim proteger os nossos animais também passa por escolhas mais informadas e responsáveis.

Todos nós que temos um cão ou um gato já tivemos aquela sensação de impotência ao ver um animal que tanto amamos a sentir comichão, a coçar-se, a sofrer devido às pulgas.

É um problema comum e fácil de tratar com os produtos vendidos nas clínicas veterinárias ou nas farmácias.

Mas, cada vez mais a ciência alerta que essa solução aparentemente inofensiva pode estar a deixar um rasto invisível de químicos no ambiente que ameaça muito mais do que as pulgas: pode danificar ecossistemas inteiros.

O que são estes tratamentos e porque são usados

Os tratamentos antipulgas para cães e gatos existem em várias formas.

pipetas ou sprays que se aplicam diretamente no pêlo, comprimidos orais que se administram pela boca, e até coleiras que libertam gradualmente substâncias ativas.

O objetivo é sempre o mesmo: eliminar pulgas e carraças, parasitas incómodos que também podem transmitir doenças.

Muitos desses produtos contêm substâncias químicas potentes concebidas para matar rapidamente os parasitas.

Nos tratamentos modernos incluem-se fármacos conhecidos como isoxazolinas (quando são orais) ou outros inseticidas como fipronil e imidacloprid em aplicações tópicas.

O problema invisível: os químicos no ambiente

Aqui está a chave da questão: estes químicos não “desaparecem” depois de aplicados no animal.

Parte deles é excretada nas fezes ou urina, parte permanece no pêlo e pode ir parar ao ambiente quando o animal é lavado, quando entra na água ou mesmo quando nós lavamos as mãos depois de o acariciarmos.

Os tratamentos contra pulgas não ficam apenas no pêlo dos animais, pois as substâncias químicas que usamos em casa estão a contaminar os rios e os solos, com impactos reais na vida selvagem.
Os tratamentos contra pulgas não ficam apenas no pêlo dos animais, pois as substâncias químicas que usamos em casa estão a contaminar os rios e os solos, com impactos reais na vida selvagem.

Investigações mais recentes mostraram que estas substâncias podem persistir no ambiente e contaminar solos e cursos de água.

Nos estudos, várias destas moléculas foram detetadas em amostras de água de rios e zonas húmidas, mesmo em locais protegidos, lugares onde a vida aquática depende de insetos e invertebrados sensíveis.

Será isso importante?

Os químicos utilizados para matar pulgas e carraças são, por definição, tóxicos para alguns invertebrados.

Quando chegam à água, podem afetar organismos como insetos aquáticos, moluscos e crustáceos, peças fundamentais na teia alimentar dos nossos rios e lagos.

A perda ou diminuição desses pequenos seres tem um efeito em cadeia, ou seja, menos insetos, menos alimento para peixes, anfíbios e aves, e menos polinização em plantas terrestres.

Um exemplo real de impacto

Estudos de vários países têm encontrado estas substâncias em níveis preocupantes fora do contexto veterinário.

Em alguns casos, detetaram-se inseticidas em mais de metade das amostras de água em zonas costeiras e ribeirinhas.

Cientistas também observaram que aves canoras estavam a usar pêlo de animais tratados para forrar os seus ninhos, expondo os filhotes a químicos tóxicos e associando-se a maiores taxas de mortalidade.

O que podem fazer os donos de animais de estimação?

Este não é um apelo para deixar de tratar os nossos cães e gatos, deixá-los infestados de pulgas também causa sofrimento e pode ser perigoso para a sua saúde.

Mas há formas mais cuidadosas de o fazer, de modo a reduzir o impacto ambiental.

Deve avaliar o real risco: nem todos os animais precisam de tratamentos preventivos constantes. Discuta com o veterinário se o seu animal realmente tem risco de pulgas ou se uma abordagem mais pontual é suficiente.

Opte por alternativas menos poluentes: alguns tratamentos orais libertam menos químicos no ambiente do que os que ficam no pêlo.

Reduza a entrada de químicos na água: evita banhos ou mergulhos em rios e lagos pouco depois da aplicação, e lave cuidadosamente as mãos e as roupas para impedir a passagem inadvertida de insecticidas para o esgoto.

Em casa, tenha alguns cuidados de rotina, como aspirar regularmente, lavar a cama do animal a alta temperatura e usar métodos físicos como pente fino pode reduzir a necessidade de químicos frequentes, sobretudo em situações de baixo risco.