Alfredo Graça avança a previsão para o outono 2026: “as depressões e gotas frias poderão chegar a Portugal”
Após um verão relativamente ameno em Portugal, arranca hoje o outono climatológico e o nosso modelo de referência acaba de atualizar as tendências para os próximos meses: há que estar “de olho” na chegada de depressões e gotas frias.

Esta terça-feira - 1 de setembro - marca o arranque do outono climatológico, que abrange os meses de setembro, outubro e novembro. Isto acontece após um verão relativamente ameno em Portugal que, em contraste com vários outros países da Europa Ocidental e Meridional (Espanha e França, por exemplo), só registou uma onda de calor bastante intensa e duradoura entre finais de junho e inícios de julho.
Não obstante, este outono coincidirá com o pico de um El Niño que se prevê ser muito intenso e até mesmo histórico. Importa, contudo, esclarecer que a sua correlação com Portugal é baixíssima. Os efeitos meteorológicos que mais sentimos à escala nacional provém sobretudo de fenómenos como a Oscilação do Atlântico Norte (NAO) ou a corrente de jato polar, responsáveis por canalizar depressões e anticiclones para a nossa latitude.
Ainda assim, o El Niño está a dificultar bastante a formação de ciclones tropicais no Atlântico, cuja interação com o jato polar costuma condicionar o tempo no nosso país de forma indireta.
“As duas faces da moeda”: o contraste entre quinzenas poderá ser marcante em setembro
Para a primeira quinzena de setembro, os mapas são bastante claros. O modelo ECMWF prevê temperaturas entre 1 e 3 ºC acima da média para a época do ano em grande parte de Portugal, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira, enquanto nalgumas áreas da metade ocidental da geografia do Continente, mais próximas ao litoral, os valores poderão ser de até 1 ºC acima da média.
No que diz respeito à segunda quinzena do mês, as temperaturas terão tendência a moderar-se e, em algumas zonas, poderão mesmo enquadrar-se no intervalo dos valores médios de referência. Grosso modo, poderá registar-se uma segunda metade de setembro com temperaturas geralmente pouco acima do normal ou dentro do normal.

No que concerne à chuva, tudo indica que a curto e médio prazo haverá um predomínio das altas pressões, pelo que, em geral, será escassa. No entanto, a passagem de alguns vales depressionários e sistemas frontais de fraca atividade associados a depressões podem vir a dar origem a aguaceiros e trovoadas, geralmente de carácter isolado.
Em contrapartida, para a segunda quinzena de setembro, os mapas vislumbram uma maior propensão para estados do tempo instáveis, verificando-se indícios de precipitação mais abundante do que o habitual no Alentejo e no Algarve.
Este sinal de anomalia positiva de precipitação poderá estar relacionado com um jato polar mais ondulado, possivelmente favorável à formação de bloqueios anticiclónicos nas Ilhas Britânicas ou na Europa Central que teriam o potencial de “abrir caminho” à chegada de bolsas de ar frio (gotas frias ou vales depressionários) até Portugal continental.
O mesmo sinal de chuva acima da média observa-se durante a segunda quinzena do mês para o arquipélago da Madeira, enquanto que para o dos Açores os mapas mostram uma anomalia positiva de precipitação ainda na primeira quinzena e, em concreto, na semana de 7 a 14 de setembro.
Primeiras pistas apontam para um outono chuvoso e instável em grande parte de Portugal
Ao deitarmos um olhar pelo resto do outono, a incerteza aumenta consideravelmente. É importante relembrar que aqui se estão a analisar tendências ou aproximações muito gerais, com pouca fiabilidade. Para outubro de 2026, a última tendência do modelo europeu aponta para um mês bastante instável, com chuva acima da média em quase toda a geografia da unidade territorial do Continente.
Exceção feita aos Arquipélagos, onde o sinal de anomalia positiva de precipitação é bastante ténue e muito localizado. Quanto às temperaturas, os mapas indicam valores ligeiramente acima da média no Norte, quase todo o Centro, zonas fronteiriças do Alto Alentejo e arquipélago da Madeira.

As primeiras tendências para novembro apontam para uma ligeira alteração do padrão vigente, com a precipitação mais abundante e acima do normal a poder concentrar-se tendencialmente no Minho, Douro Litoral e outras zonas do litoral Norte e Centro, sendo algo menos expressivas no interior Norte e Centro e entre Mondego e Sado.
Em sentido oposto, estarão grande parte do Alentejo, o Algarve, os Açores e a Madeira. As temperaturas poderão ficar ligeiramente acima da média em grande parte de Portugal continental e no arquipélago da Madeira (1 ºC), embora atualmente se destaque uma anomalia térmica positiva - de até 1,5 ºC acima do normal - no interior Norte e Centro.
Assim, tudo aponta para o desenrolar de um outono muito dinâmico. Isto não significa que irá chover todos os dias, mas sim que os primeiros indícios sugerem que Portugal poderá tanto estar exposto à chegada de depressões e sistemas frontais associados, como a gotas frias. No entanto, como já é habitual, haverá diferenças significativas na distribuição pluviométrica entre as diferentes regiões da nossa geografia.