É aqui que vivem os portugueses mais infelizes
Habitação cara, trânsito interminável e pouco tempo livre ajudam a explicar porque é que uma região portuguesa está no fundo da tabela da satisfação urbana.

Não temos dúvidas: Portugal tem cidades de que muitos habitantes gostam. Há, contudo, uma região onde a vida urbana parece dar mais dores de cabeça do que motivos para sorrir.
E, não, não é preciso muito para adivinhar. De facto, os residentes da Área Metropolitana de Lisboa são os mais insatisfeitos com a cidade onde vivem. A conclusão é de um novo estudo traçado pelo Barómetro das Cidades, divulgado a 29 de setembro pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS).
Este estudo ouviu 1247 pessoas e analisou a forma como os portugueses avaliam vários aspetos da vida urbana, desde o acesso à habitação e aos cuidados de saúde até à mobilidade, à segurança e às relações com os vizinhos.
O resultado é claro: embora cerca de 70% dos inquiridos estejam satisfeitos com a cidade onde vivem, Portugal fica aquém da média europeia, que ronda os 86%.
Entre regiões, aliás, há diferenças consideráveis. Enquanto, na Área Metropolitana de Lisboa, apenas 58% dos residentes dizem estar satisfeitos, na Área Metropolitana do Porto a percentagem sobe para 76%. Nas cidades pequenas do litoral não metropolitano os resultados parecem ser mais positivos.
Lisboa tem um problema com as casas (e não só)
Se há uma preocupação que atravessa o país, é a dificuldade em encontrar uma casa adequada a um preço razoável. Na Área Metropolitana de Lisboa, onde se incluem municípios como Lisboa, Sintra, Cascais, Almada e Amadora, a questão pesa especialmente na avaliação da qualidade de vida.
Segundo o barómetro, 82% dos inquiridos desta região não consideram fácil encontrar habitação a preços acessíveis. A situação é ainda mais expressiva na Área Metropolitana do Porto, onde 88% partilham essa opinião. A nível nacional, apenas uma pequena minoria considera simples encontrar uma casa que se ajuste às necessidades e ao orçamento familiar.
E o problema não termina na procura de casa. Mais de metade dos inquiridos portugueses afirma que os encargos com a habitação limitam outras despesas do agregado familiar. Ou seja, pagar a renda ou a prestação pode significar ter menos dinheiro disponível para as compras do supermercado, para as atividades de lazer ou para aquelas pequenas escapadinhas que ajudam a quebrar a rotina.
A saúde também contribui para a insatisfação. Na Área Metropolitana de Lisboa, os cuidados de saúde primários e o acesso a serviços especializados e de emergência estão entre os aspetos que merecem avaliações menos favoráveis. Não admira, por isso, que a saúde e a habitação surjam no topo das prioridades apontadas pelos portugueses para melhorar a vida nas cidades.
Entre filas de trânsito e transportes pouco fiáveis, sobra menos tempo para viver
O custo da habitação não é a única dor de cabeça de quem vive na região de Lisboa. A mobilidade também pesa na avaliação dos residentes, sobretudo devido ao congestionamento rodoviário e à fiabilidade dos transportes públicos.
O tempo livre é, aliás, outro dos pontos em que os portugueses mostram margem para melhorar. No conjunto do país, apenas 58% dos inquiridos estão satisfeitos com o tempo de que dispõem para si.

Os números relativos aos hábitos de transporte também ajudam a enquadrar o cenário nacional. De acordo com o estudo, 79% dos inquiridos utilizam o automóvel diariamente, enquanto 28% recorrem todos os dias aos transportes públicos.
Além disso, a Área Metropolitana de Lisboa regista avaliações particularmente negativas em aspetos do ambiente urbano. Apenas 35% dos residentes estão satisfeitos com os níveis de ruído, 40% com a qualidade do ar e 30% com a limpeza urbana.
Estes resultados mostram como a qualidade de vida depende de muito mais do que ter restaurantes, lojas e serviços à porta.
Viver numa cidade grande também pode significar sentir-se mais sozinho
Além disso, a insatisfação não se mede apenas pelo preço das casas ou pelo tempo passado no trânsito. O sentimento de segurança e a relação com a comunidade também fazem parte da equação. Neste campo, as cidades mais pequenas apresentam vantagens.
Na Área Metropolitana de Lisboa, apenas 39% dos inquiridos dizem sentir um forte sentimento de pertença à comunidade local. A confiança nos vizinhos também é reduzida: 42% afirmam confiar nas pessoas que vivem perto de si. Já a participação nas atividades do bairro reúne apenas 33% de avaliações positivas.
Nas cidades do interior, o cenário é diferente. Cerca de 68% dos inquiridos dizem confiar nos vizinhos, um sinal de relações de proximidade mais fortes. A perceção de segurança acompanha esta diferença: 49% dos residentes da Área Metropolitana de Lisboa sentem-se seguros a andar sozinhos no bairro durante a noite, contra 71% nas cidades do interior e 76% nas regiões autónomas.
Isto não significa que viver numa cidade pequena seja automaticamente melhor. O próprio estudo mostra que as necessidades variam consoante o território. Nas cidades do interior, por exemplo, o emprego e a economia local ganham especial importância, refletindo preocupações que podem ser menos visíveis nas grandes áreas metropolitanas.

No conjunto do país, os portugueses continuam a reconhecer aspetos positivos nas cidades onde vivem. A educação, o bairro e a própria habitação recebem avaliações globalmente favoráveis. Ainda assim, a distância face à média europeia e as diferenças entre regiões deixam uma mensagem difícil de ignorar: para melhorar a vida urbana, não basta construir mais edifícios ou atrair novos negócios. É preciso garantir casas a preços comportáveis, serviços de saúde acessíveis, deslocações mais simples e bairros onde as pessoas se sintam seguras e integradas.
Até lá, para muitos habitantes da Área Metropolitana de Lisboa, a cidade pode continuar a oferecer oportunidades e uma agenda cheia.
“Muitos dos resultados parecem confirmar alguma intuição”, reconhece Patrícia Melo, mas os dados permitem perceber quais dessas perceções se verificam de forma sistemática nos diferentes territórios. O objetivo, resume, é fazer “um retrato territorial da perceção dos cidadãos sobre as dimensões que afetam a qualidade de vida em diferentes contextos urbanos”.
Referência da notícia
Fundação Francisco Manuel dos Santos. (2026). Barómetro das Cidades.