Nem carros, nem motas: nesta ilha todos andam a cavalo

Com cerca de 600 habitantes, a Ilha Mackinac mantém, há mais de um século, a proibição de veículos motorizados. Aqui há tantos cavalos quanto os residentes.

Já ouviu falar dela? Foto ilustrativa: Unsplash
Já ouviu falar dela? Foto ilustrativa: Unsplash

Numa altura em que quase tudo se move à velocidade de um clique, há um lugar nos Estados Unidos onde o som dominante continua a ser o das ferraduras no chão. Sim, é verdade. Quem chega àquela ilha tem de pensar duas vezes em que ano está. Só o facto de poder confirmá-lo no telemóvel é que tira qualquer dúvida.

Na Ilha Mackinac, no estado do Michigan, os carros ficaram para trás no século XIX (e nunca mais voltaram).

Com cerca de 3,8 quilómetros quadrados, esta pequena ilha no Lago Huron mantém, em 2026, uma regra rara: veículos com motor de combustão interna são proibidos. E, sim, até os carros de golfe estão incluídos.

“Ali, encontra-se a única autoestrada dos Estados Unidos onde é estritamente proibido conduzir automóveis, incluindo carrinhos de golfe”, escreve a revista ‘NiT’.

A decisão foi tomada em 1898, depois de um automóvel ter assustado os cavalos locais, e acabou por definir a identidade do território até hoje.

Uma ilha onde os cavalos ainda mandam

Atualmente, vivem na ilha cerca de 600 pessoas. O mais surpreendente é que, segundo a ‘BBC’, há praticamente o mesmo número de cavalos.

Os veículos foram banidos em 1838. Foto: Wikimedia // n8huckins
Os veículos foram banidos em 1838. Foto: Wikimedia // n8huckins

Outra curiosidade é que estes animais são parte essencial do funcionamento diário. Aliás, são utilizados para transporte de residentes e visitantes, entregas de mercadorias e até na recolha de lixo, que é feita com carroças adaptadas.

“Sem os cavalos, este lugar não seria o que é. É o que nos faz sentir como se tivéssemos voltado atrás no tempo quando desembarcamos do barco e ouvimos aquele ‘clip-clop'”, disse Hunter Hoaglund, que trabalha numa empresa que opera um serviço de ferry para a ilha há 140 ano, à 'BBC'.

Para quem não quer andar a cavalo, seja habitante local ou turista, a alternativa mais comum são as bicicletas, que dominam as ruas e que substituem o papel que, noutras cidades, pertence aos carros.

O resultado é um ambiente invulgarmente silencioso e organizado, sobretudo tendo em conta o número de visitantes que ali chegam todos os anos.

Natureza preservada e história antiga

Cerca de 80% do território integra o Parque Estadual da Ilha Mackinac, uma área protegida com trilhos, florestas antigas e formações geológicas marcantes, como o Arch Rock. A ilha formou-se há cerca de 13 mil anos, no final da última era glaciar, quando o recuo dos glaciares moldou a paisagem atual.

Muito antes da chegada dos europeus, já este território era habitado pelos povos Anishinaabe, que o consideravam um local sagrado. Hoje, essa herança cultural continua a fazer parte da identidade da ilha.

Turismo em crescimento (e invernos exigentes)

A proximidade a Mackinaw City e St. Ignace, a cerca de 20 minutos de ferry, ajuda a explicar o fluxo anual de milhões de visitantes. Muitos procuram precisamente o contraste: um destino onde não há trânsito, mas há trilhos, passeios de bicicleta e viagens de charrete.

“A região é conhecida pelo doce de leite tradicional, os mais de 112 quilómetros de trilhos e, claro, pelos passeios a cavalo”, lê-se na revista ‘NiT’.

Ainda assim, viver aqui implica lidar com condições exigentes durante o inverno. As temperaturas podem descer até aos -15 °C e a neve acumulada ultrapassa frequentemente os dois metros, tornando a ilha mais isolada durante vários meses.