Madrid reabre túnel histórico fechado há mais de quatro décadas
A passagem subterrânea, construída no início do século XIX, liga o Palácio Real à Casa de Campo e volta agora a poder ser visitada.

Durante mais de quarenta anos esteve fechado, esquecido e invisível para quase todos. Agora, um dos segredos mais curiosos de Madrid voltou finalmente a ver a luz do dia.
Do que é que estamos a falar? Do túnel que liga os jardins do Campo del Moro à Casa de Campo, mesmo ao lado do Palácio Real, que foi recentemente reaberto ao público após uma profunda intervenção de reabilitação. Com isto, devolveu-se à cidade uma passagem subterrânea com mais de duzentos anos de história, que muitos desconheciam.
Sim, porque poucos madrilenos sabiam da sua existência e ainda menos imaginavam que, sob um dos passeios mais movimentados da capital espanhola, se escondia um corredor pensado para reis, fugas discretas e tempos politicamente turbulentos.
Um projeto nascido em tempos de instabilidade
A história deste túnel, conhecido como Túnel de Villanueva, começa em 1809, num período em que Madrid vivia sob ocupação francesa. Foi José Bonaparte, irmão de Napoleão e rei imposto em Espanha, quem mandou construir esta passagem subterrânea como ligação direta entre o Palácio Real e a Casa de Campo, então uma vasta área de lazer e caça reservada à realeza.
O projeto foi confiado a Juan de Villanueva, um dos grandes nomes da arquitetura espanhola e autor de edifícios emblemáticos como o atual Museu do Prado. Apesar da ambição da obra, não se sabe se José Bonaparte atravessou de alguma vez o túnel. Se alguns afirmam que o rei acabou por abandonar Madrid antes de a ver concluída, outros sugerem que Bonaparte o utilizou para “escapar da opressão e do medo que sentia enquanto confinado no palácio”.
“Alguns vão ainda mais longe, afirmando que Pepe Botella (apelido irónico dado ao monarca) usava o túnel como porta de entrada para suas escapadelas noturnas com cortesãs”, escreve o ‘Guía Repsol’. O que é facto é que não existem provas de que alguma vez tenha atravessado o túnel que idealizou como possível rota de fuga.

“Não foram os nobres franceses que a desfrutaram, mas sim os Bourbons: correm rumores entre os historiadores de que Afonso XIII passou pelas suas sólidas paredes de tijolo no exílio, e anos antes, Fernando VII, Isabel II e Afonso XII utilizaram-na regularmente”, lê-se no site ‘Madrid Secreto’.
Com o passar do tempo, a cidade cresceu, o traçado urbano mudou e o túnel foi sofrendo alterações no seu entorno, perdendo progressivamente a função original. Resistiu, porém, a guerras, mudanças de regime e grandes obras públicas, incluindo a construção da M-30, que alterou de forma significativa a zona ribeirinha do rio Manzanares.
Quarenta anos fechado e um regresso muito esperado
Na década de 1980, o túnel acabou por ser encerrado em ambas as extremidades, ficando inacessível durante mais de quatro décadas. Agora, graças a um projeto liderado pelo Património Nacional e financiado por fundos europeus, esta passagem histórica foi recuperada com o cuidado de respeitar os materiais e as proporções originais idealizadas por Villanueva.
Hoje, quem o visita encontra um corredor abobadado revestido a tijolo e cantaria, com uma passadeira elevada que permite distinguir o nível original do solo, iluminação adaptada e sinalética explicativa que contextualiza a importância histórica do espaço.
A experiência é breve, mas suficientemente envolvente para transportar o visitante para o início do século XIX, num percurso que combina arquitetura, política e um certo gosto pelo segredo.
Para já, apenas a parte do túnel sob gestão do Património Nacional pode ser visitada, mas estão previstos novos trabalhos para completar a ligação até à Casa de Campo e à zona de Madrid Río. Quando isso acontecer, provavelmente em 2027, o túnel fará finalmente sentido na sua totalidade, tal como foi pensado há mais de duzentos anos: não apenas como uma passagem subterrânea, mas como parte de um sistema urbano que ligava palácio, jardins, rio e parque real.