Após a tempestade Kristin, é tempo de dar resposta às urgências que afetam mais de 60 municípios

Os meios da Proteção Civil não chegam a todo lado. Voluntários, empresas e instituições particulares juntaram-se aos esforços das autoridades. O Exército está também no terreno para acudir às situações mais emergentes.

A Marinha Grande está entre os municípios mais afetados pela passagem da depressão Kristin. Foto: reprodução do Facebook/Município da Marinha Grande
A Marinha Grande está entre os municípios mais afetados pela passagem da depressão Kristin. Foto: reprodução do Facebook/Município da Marinha Grande

Com pelo menos 60 municípios em estado de calamidade, após a passagem da depressão Kristin, a prioridade agora é regressar a todo o custo à normalidade. Não será tão depressa, tendo em conta a devastação por todo o território, sobretudo na Região Centro.

O estado de calamidade, decretado pelo Governo, manter-se-á até às 23h59 de 1 de fevereiro, mas pode prolongar-se e estender-se ainda a mais municípios à medida que se vai conhecendo a dimensão dos estragos.

A violência da tempestade atingiu recordes impressionantes, com a velocidade do vento a alcançar, em alguns momentos, 208,8 km/hora na quinta-feira, registados na estação meteorológica do IPMA em Soure, no distrito de Coimbra.

A devastação na A17, entre os distritos de Leiria e Coimbra. Foto: reprodução do Facebook/ Coldynamics
A devastação na A17, entre os distritos de Leiria e Coimbra. Foto: reprodução do Facebook/ Coldynamics

Mas a tempestade de vento pode ter atingido dimensões ainda maiores. Na rede social X, a consultora ambiental BestWeather deu conta de que uma estação meteorológica amadora na Costa de Lavos, a sul da Figueira da Foz, registou 238 km/hora de rajada. A informação, porém, carece de confirmação oficial, mas não restam dúvidas de este temporal ficará para a História.

Muitos estragos ainda por contabilizar

No terreno, é tempo de dar resposta às situações mais urgentes e de avaliar os estragos - há cinco mortes confirmadas, milhares de pessoas sem eletricidade e dezenas de desalojados, que estão ainda a serem contabilizados pelas autarquias.

Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e falhas de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais deste temporal.

No concelho de Ourém, distrito de Santarém, a “devastação é completa”, descreveu à Lusa o presidente da câmara, Luís Albuquerque. A maioria da população estava ainda hoje sem água, eletricidade e só ao longo do dia de hoje foram conseguindo desobstruir as cerca de 80% das vias que ficaram intransitáveis.

Mais de 200 operacionais estavam ainda no terreno esta tarde, contando com a ajuda de voluntários e de empresas para avançar nos trabalhos de limpeza. A prioridade agora são as escolas, procurando-se criar as condições mínimas para que, pelo menos uma parte, possa abrir na segunda-feira.

Os efeitos da passagem da depressão Kristin em Figueiró dos Vinhos Foto: reprodução Facebook/Amigos de Figueiró dos Vinhos
Os efeitos da passagem da depressão Kristin em Figueiró dos Vinhos Foto: reprodução Facebook/Amigos de Figueiró dos Vinhos

Em Figueiró dos Vinhos, distrito de Leiria, várias localidades ficaram isoladas na sequência de falhas nas comunicações, nas redes de energia elétrica e de água. A situação é "desesperante", segundo relatou o presidente da câmara, Carlos Lopes, apelando à mobilização urgente da Proteção Civil que, até ao início da tarde, não tinha chegado ao concelho.

Mais uma “tragédia” em Pedrógão Grande

Em Pedrógão Grande, ainda distrito de Leiria, uma “nova tragédia” se abateu sobre a vila, depois dos catastróficos incêndios de 2017, lamentou o autarca João Marques. Os geradores asseguram, neste momento, o fornecimento de eletricidade aos principais serviços públicos da sede do concelho.

A preocupação imediata são algumas dezenas de habitações que ficaram sem telhado, temendo-se que a chuva, ainda persistente, venha a destruir o recheio das casas.

A população idosa foi, entretanto, encaminhada para o pavilhão gimnodesportivo, onde estão a receber apoio médico e assistência dos serviços municipais. Diante da devastação, o sentimento de impotência é o pior de tudo. Faltam meios humanos e materiais para socorrer as situações mais emergentes.

“Não temos plásticos, não temos lonas, não temos pessoal, não temos empresas em número suficiente para poder ajudar as pessoas, resolver pelo menos estas situações”
João Marques, Presidente da Câmara de Pedrógão Grande

Em Porto de Mós, também no distrito de Leiria, o diagnóstico dos prejuízos da autarquia está feito. Os danos são avultados, sobretudo com a destruição de coberturas dos edifícios públicos, como os três pavilhões gimnodesportivos, o Cineteatro e o complexo das piscinas municipais.

Parque Natural de Sintra Cascais durante as operações de desobstrução e limpeza das vias rodoviárias. Foto: reprodução do Facebook/ Coldynamics
Parque Natural de Sintra Cascais durante as operações de desobstrução e limpeza das vias rodoviárias. Foto: reprodução do Facebook/ Coldynamics

O abastecimento da água já foi reposto na maioria do concelho e os geradores da E-Redes e de empresas permitiram o acesso à eletricidade. A maioria das escolas ficaram danificadas, esperando-se que os trabalhos de limpeza possam estar concluídos a tempo de reabrirem na segunda-feira.

Operação “Limpar Leiria” mobiliza este sábado voluntários

Em Leiria, a proteção civil municipal montou um centro de apoio no pavilhão dos Pousos, onde estão a ser distribuídos bens alimentares para quem não consiga ir aos supermercados. No mesmo local, estão a ser disponibilizadas lonas e plásticos para cobrir os telhados que não possam ser reparados imediatamente.

A autarquia irá lançar este sábado, 31 de janeiro, a operação "Limpar Leiria". A iniciativa arranca a partir das 10h00, junto ao Estádio Municipal, "com o objetivo de limpar não apenas o recinto desportivo, mas também todo o percurso Polis e algumas zonas do centro da cidade.

As grandes operações de remoção de árvores e de estruturas urbanas caídas já se encontram concluídas, mas há ainda muito trabalho pela frente. A câmara municipal diz, por isso, contar não só com os residentes, mas com todos que puderem ajudar a “reerguer a cidade”, apelou o presidente Gonçalo Lopes.

Ao início desta tarde, Óbidos, na Região Oeste, continuava ainda com várias zonas alagadas e algumas centenas de habitantes sem energia. Os prejuízos na agricultura são o que mais salta à vista, com as culturas arrancadas do solo e espalhadas por dezenas de estradas do concelho.

Exército e Cruz Vermelha apoiam a Proteção Civil

Não conseguindo os bombeiros chegar a todo o lado em tempo útil, o Exército e a Cruz Vermelha Portuguesa avançaram já para o terreno, procurando socorrer as situações mais emergentes, em articulação com a Proteção Civil.

O Exército está a reforçar o apoio às populações com meios de engenharia, comunicações, energia e capacidade de alojamento, além de ações de limpeza.

Três destacamentos de engenharia – com retroescavadora/pá carregadora - foram mobilizados para auxiliar as operações de limpeza na Marinha Grande e em Ferreira do Zêzere. O Exército está a estabelecer, ainda, a capacidade de mil alojamentos, distribuídos por 10 unidades militares na Sub-região do Médio Tejo/Lisboa.

A Cruz Vermelha está no terreno, em articulação com a Proteção civil e o INEM. Foto: reprodução Facebook/Cruz Vermelha Portuguesa
A Cruz Vermelha está no terreno, em articulação com a Proteção civil e o INEM. Foto: reprodução Facebook/Cruz Vermelha Portuguesa

Também a Cruz Vermelha tem equipas de prevenção de norte a sul do país. Houve um reforço em áreas como ambulâncias e apoio à emergência pós-hospitalar em coordenação com o INEM e ainda disponibilização de geradores que estão a ser instalados em zonas de acolhimentos para a população desabrigada.

Prevenir riscos com consumo de água e alimentos

A passagem da tempestade trouxe muitas outras preocupações para lá dos danos materiais. A Direção-Geral de Saúde emitiu um conjunto de recomendações, advertindo principalmente para o risco de consumo de água e alimentos que possam ter sido afetados pelas inundações.

A autoridade de saúde aconselha evitar a água de fontes que não estão ligadas à rede pública de abastecimento, incluindo poços ou minas, por poderem estar contaminadas.

Nas regiões afetadas não se deverá beber água da torneira, lavar alimentos ou escovar os dentes, a menos que exista confirmação oficial sobre a sua segurança. Poder-se-á utilizar água engarrafada ou, em alternativa, ferver a água da torneira durante pelo menos 10 minutos ou desinfetá-la com lixívia sem corantes (cerca de 2 gotas por litro de água).

Quanto aos alimentos refrigerados, poderão ser consumidos se a falha de energia não tiver ultrapassado as 12 horas no frigorífico e as 48 horas no congelador. As exceções são hortícolas e fruta, como cenoura, tomate, couve, laranja ou limão, que podem permanecer seguros mesmo para além desse período.

O regresso à normalidade vai ainda demorar

No rescaldo da tempestade Kristin, esperam-se ainda dias muitos complicados. O restabelecimento da rede elétrica poderá demorar algumas semanas, segundo as previsões do Governo. O regresso da normalidade será gradual, podendo levar vários meses.

Inundações em Gondomar, após o caudal do rio Sousa transbordar. Foto: reprodução Facebook/Guarda Nacional Republicana
Inundações em Gondomar, após o caudal do rio Sousa transbordar. Foto: reprodução Facebook/Guarda Nacional Republicana

O executivo do primeiro-ministro, Luís Montenegro, admite recorrer ao fundo de solidariedade europeu para apoio à reconstrução. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assegurou, entretanto, na quinta-feira, que a União Europeia "está pronta para apoiar a recuperação” do país.