Após a tempestade Kristin, é tempo de dar resposta às urgências que afetam mais de 60 municípios
Os meios da Proteção Civil não chegam a todo lado. Voluntários, empresas e instituições particulares juntaram-se aos esforços das autoridades. O Exército está também no terreno para acudir às situações mais emergentes.

Com pelo menos 60 municípios em estado de calamidade, após a passagem da depressão Kristin, a prioridade agora é regressar a todo o custo à normalidade. Não será tão depressa, tendo em conta a devastação por todo o território, sobretudo na Região Centro.
A violência da tempestade atingiu recordes impressionantes, com a velocidade do vento a alcançar, em alguns momentos, 208,8 km/hora na quinta-feira, registados na estação meteorológica do IPMA em Soure, no distrito de Coimbra.

Mas a tempestade de vento pode ter atingido dimensões ainda maiores. Na rede social X, a consultora ambiental BestWeather deu conta de que uma estação meteorológica amadora na Costa de Lavos, a sul da Figueira da Foz, registou 238 km/hora de rajada. A informação, porém, carece de confirmação oficial, mas não restam dúvidas de este temporal ficará para a História.
Muitos estragos ainda por contabilizar
No terreno, é tempo de dar resposta às situações mais urgentes e de avaliar os estragos - há cinco mortes confirmadas, milhares de pessoas sem eletricidade e dezenas de desalojados, que estão ainda a serem contabilizados pelas autarquias.
No concelho de Ourém, distrito de Santarém, a “devastação é completa”, descreveu à Lusa o presidente da câmara, Luís Albuquerque. A maioria da população estava ainda hoje sem água, eletricidade e só ao longo do dia de hoje foram conseguindo desobstruir as cerca de 80% das vias que ficaram intransitáveis.
Mais de 200 operacionais estavam ainda no terreno esta tarde, contando com a ajuda de voluntários e de empresas para avançar nos trabalhos de limpeza. A prioridade agora são as escolas, procurando-se criar as condições mínimas para que, pelo menos uma parte, possa abrir na segunda-feira.

Em Figueiró dos Vinhos, distrito de Leiria, várias localidades ficaram isoladas na sequência de falhas nas comunicações, nas redes de energia elétrica e de água. A situação é "desesperante", segundo relatou o presidente da câmara, Carlos Lopes, apelando à mobilização urgente da Proteção Civil que, até ao início da tarde, não tinha chegado ao concelho.
Mais uma “tragédia” em Pedrógão Grande
Em Pedrógão Grande, ainda distrito de Leiria, uma “nova tragédia” se abateu sobre a vila, depois dos catastróficos incêndios de 2017, lamentou o autarca João Marques. Os geradores asseguram, neste momento, o fornecimento de eletricidade aos principais serviços públicos da sede do concelho.
A população idosa foi, entretanto, encaminhada para o pavilhão gimnodesportivo, onde estão a receber apoio médico e assistência dos serviços municipais. Diante da devastação, o sentimento de impotência é o pior de tudo. Faltam meios humanos e materiais para socorrer as situações mais emergentes.
João Marques, Presidente da Câmara de Pedrógão Grande
Em Porto de Mós, também no distrito de Leiria, o diagnóstico dos prejuízos da autarquia está feito. Os danos são avultados, sobretudo com a destruição de coberturas dos edifícios públicos, como os três pavilhões gimnodesportivos, o Cineteatro e o complexo das piscinas municipais.

O abastecimento da água já foi reposto na maioria do concelho e os geradores da E-Redes e de empresas permitiram o acesso à eletricidade. A maioria das escolas ficaram danificadas, esperando-se que os trabalhos de limpeza possam estar concluídos a tempo de reabrirem na segunda-feira.
Operação “Limpar Leiria” mobiliza este sábado voluntários
Em Leiria, a proteção civil municipal montou um centro de apoio no pavilhão dos Pousos, onde estão a ser distribuídos bens alimentares para quem não consiga ir aos supermercados. No mesmo local, estão a ser disponibilizadas lonas e plásticos para cobrir os telhados que não possam ser reparados imediatamente.
As grandes operações de remoção de árvores e de estruturas urbanas caídas já se encontram concluídas, mas há ainda muito trabalho pela frente. A câmara municipal diz, por isso, contar não só com os residentes, mas com todos que puderem ajudar a “reerguer a cidade”, apelou o presidente Gonçalo Lopes.
Ao início desta tarde, Óbidos, na Região Oeste, continuava ainda com várias zonas alagadas e algumas centenas de habitantes sem energia. Os prejuízos na agricultura são o que mais salta à vista, com as culturas arrancadas do solo e espalhadas por dezenas de estradas do concelho.
Exército e Cruz Vermelha apoiam a Proteção Civil
Não conseguindo os bombeiros chegar a todo o lado em tempo útil, o Exército e a Cruz Vermelha Portuguesa avançaram já para o terreno, procurando socorrer as situações mais emergentes, em articulação com a Proteção Civil.
Três destacamentos de engenharia – com retroescavadora/pá carregadora - foram mobilizados para auxiliar as operações de limpeza na Marinha Grande e em Ferreira do Zêzere. O Exército está a estabelecer, ainda, a capacidade de mil alojamentos, distribuídos por 10 unidades militares na Sub-região do Médio Tejo/Lisboa.

Também a Cruz Vermelha tem equipas de prevenção de norte a sul do país. Houve um reforço em áreas como ambulâncias e apoio à emergência pós-hospitalar em coordenação com o INEM e ainda disponibilização de geradores que estão a ser instalados em zonas de acolhimentos para a população desabrigada.
Prevenir riscos com consumo de água e alimentos
A passagem da tempestade trouxe muitas outras preocupações para lá dos danos materiais. A Direção-Geral de Saúde emitiu um conjunto de recomendações, advertindo principalmente para o risco de consumo de água e alimentos que possam ter sido afetados pelas inundações.
Nas regiões afetadas não se deverá beber água da torneira, lavar alimentos ou escovar os dentes, a menos que exista confirmação oficial sobre a sua segurança. Poder-se-á utilizar água engarrafada ou, em alternativa, ferver a água da torneira durante pelo menos 10 minutos ou desinfetá-la com lixívia sem corantes (cerca de 2 gotas por litro de água).
Quanto aos alimentos refrigerados, poderão ser consumidos se a falha de energia não tiver ultrapassado as 12 horas no frigorífico e as 48 horas no congelador. As exceções são hortícolas e fruta, como cenoura, tomate, couve, laranja ou limão, que podem permanecer seguros mesmo para além desse período.
O regresso à normalidade vai ainda demorar
No rescaldo da tempestade Kristin, esperam-se ainda dias muitos complicados. O restabelecimento da rede elétrica poderá demorar algumas semanas, segundo as previsões do Governo. O regresso da normalidade será gradual, podendo levar vários meses.

O executivo do primeiro-ministro, Luís Montenegro, admite recorrer ao fundo de solidariedade europeu para apoio à reconstrução. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assegurou, entretanto, na quinta-feira, que a União Europeia "está pronta para apoiar a recuperação” do país.