O ar que respiramos e o cérebro dos nossos bebés: estudo usa rastreio ocular para medir o impacto cognitivo

Estudo revela que poluição na gravidez prejudica memóriade bebés, utilizando tecnologia de rastreio ocularpara detetar danos cognitivos precoces. Saiba mais aqui!

A poluição não fica apenas nos pulmões. Partículas de poluição atmosférica conseguem atravessar a barreira da placenta e chegar diretamente ao feto durante a gravidez.
A poluição não fica apenas nos pulmões. Partículas de poluição atmosférica conseguem atravessar a barreira da placenta e chegar diretamente ao feto durante a gravidez.

Este estudo realizado em Barcelona é o primeiro a utilizar a tecnologia de rastreio ocular (eye-tracking) para examinar a associação entre a poluição atmosférica durante a gravidez e o desenvolvimento cognitivo precoce dos bebés. A investigação partiu da premissa de que o período pré-natal é uma janela crítica de vulnerabilidade, uma vez que o cérebro em formação do feto é consideravelmente mais sensível a influências ambientais do que o de um adulto.

Cientistas avaliaram a exposição das grávidas a cinco poluentes atmosféricos

A investigação baseou-se em dados de 168 pares de mães e filhos pertencentes à Barcelona Life Study (BiSC), recrutados em três hospitais universitários da cidade entre 2018 e 2021.

Os investigadores avaliaram a exposição das grávidas a cinco poluentes atmosféricos principais:

  • Dióxido de azoto e Carbono Negro, que são indicadores de emissões de escape de veículos.
  • Partículas finas e o seu conteúdo em Cobre e Ferro, frequentemente associados ao desgaste de pneus e travões.
Rapazes sob maior risco: os dados sugerem que os rapazes podem ser mais sensíveis aos efeitos tóxicos da poluição durante a gestação do que as raparigas.
Rapazes sob maior risco: os dados sugerem que os rapazes podem ser mais sensíveis aos efeitos tóxicos da poluição durante a gestação do que as raparigas.

Para garantir o rigor, a exposição foi estimada através de modelos de regressão de uso do solo (LUR), integrando informações sobre o tempo que as grávidas passavam em casa, no trabalho e durante as suas deslocações diárias.

Avaliação cognitiva e resultados obtidos

O desenvolvimento cognitivo dos bebés foi avaliado aos 6 meses e aos 18 meses utilizando a tarefa de Comparação Visual Pareada (VPC).

Esta técnica mede a "preferência pela novidade", que é a percentagem de tempo que o bebé escolhe olhar para um estímulo novo (neste caso, rostos) em comparação com um já familiar.

Uma maior preferência pela novidade é um indicador de uma memória de reconhecimento e processamento de informação mais robustos.

Os resultados demonstraram que quanto maior era a exposição à poluição na gravidez, menor era a preferência pela novidade nos bebés. As associações negativas mais significativas foram observadas na exposição ao Carbono Negro, às partículas finas e ao seu conteúdo em Cobre.

Mais do que apenas a morada: ao contrário de muitos estudos que só olham para a poluição à porta de casa, este projeto calculou a exposição real integrando o tempo que as grávidas passavam no trabalho e nos seus trajetos diários.
Mais do que apenas a morada: ao contrário de muitos estudos que só olham para a poluição à porta de casa, este projeto calculou a exposição real integrando o tempo que as grávidas passavam no trabalho e nos seus trajetos diários.

Por exemplo, por cada aumento no intervalo interquartil (IQR) de partículas finas, a preferência pela novidade diminuiu cerca de 3.9%. Além disso, o estudo encontrou indícios de que os rapazes podem ser mais suscetíveis a estes efeitos nocivos do que as raparigas.

Redução da poluição atmosférica é essencial para prevenir danos no desenvolvimento cerebral infantil

Biologicamente, sugere-se que os poluentes atravessem a barreira placentária, provocando inflamação sistémica e stress oxidativo no feto, o que prejudica o desenvolvimento neurológico.

O estudo conclui que a redução da poluição atmosférica urbana é essencial para prevenir danos no desenvolvimento cerebral infantil. Simultaneamente, valida o uso do eye-tracking como uma ferramenta objetiva, não invasiva e eficaz para a deteção precoce de impactos ambientais na cognição, superando as limitações dos questionários tradicionais.

Referência da notícia

Carmen Peuters, Joan Birulés, Toni Galmés, Xavier Basagaña, Alan Dominguez, Maria Foraster, Laura Gomez-Herrera, María Dolores Gómez-Roig, Elisa Llurba, Ioar Rivas, Jessica Sánchez-Galán, Laura Bosch, Mireia Gascon, Payam Dadvand, Jordi Sunyer, Prenatal exposure to air pollution and infant cognitive development using an eye-tracking visual paired-comparison task, Environmental Pollution, Volume 390, 2026, 127496, ISSN 0269-7491, https://doi.org/10.1016/j.envpol.2025.127496.