Já conhece a casa mais estreita do Porto (e, talvez, de Portugal)?

Se as paredes desta casa falassem, teriam muito para contar. Como não falam, resta-nos imaginar a história que ali se viveu.

Passa despercebida para muitos. Foto: Unsplash
Passa despercebida para muitos. Foto: Unsplash

Muitos já a conhecem. Afinal, mesmo no centro da cidade do Porto, fica numa zona de passagem diária das multidões de turistas (e não só). Mas, há quem por lá passe todos os dias e que nunca tenha reparado que é um edifício, e que, foi, aliás, habitado até 1980.

Quando visitou o Porto, tirou aquela foto da praxe em frente à Igreja dos Carmelitas e da Igreja do Carmo? Ora, então, olhe com mais atenção para essas fotos. É que, o que parece ser uma imagem normal, revelará um segredo (ou, pelo menos, um detalhe que lhe poderá ter passado despercebido).

Aquilo que parece ser apenas um grande edifício católico é, afinal, composto por três diferentes casas. Sim, além das duas Igrejas, existe uma pequena casa que as separa.

Há quem diga que esta é a casa mais estreita do Porto, e, talvez, até de Portugal. Já reparou nela? Um passo largo chega para medir a sua fachada.

"Isto é incrível", admite quem descobre que por detrás da pequena porta há muito por descobrir.

O que levou à sua construção?

Se alguns rumores afirmam que a “casa secreta” no meio das igrejas foi supostamente construída para separar os monges e as freiras, outros sugerem que poderá ter sido devido a regulamentos legais que estabelecem que duas igrejas não podem partilhar uma parede. A verdade, contudo, é muito mais simples.

As Igrejas do Carmo e dos Carmelitas pertencem a duas ordens distintas fundadas nos séculos XVII e XVIII.

A Igreja dos Carmelitas, juntamente com o seu convento, foi construída entre 1616 e 1628. Mais de um século depois, em 1736, é fundada a Ordem Terceira do Carmo, que inicialmente teve a sua sede no Convento dos Carmelitas.

Em 1752, porém, foi cedido um terreno contíguo à Igreja dos Carmelitas para a construção da Igreja do Carmo e do Hospital da Ordem Terceira. Como as duas igrejas foram edificadas com cerca de cem anos de diferença, tornou-se necessário alinhar as suas fachadas. Esse alinhamento deixou um espaço estreito em profundidade entre os dois edifícios.

Foi nesse espaço reduzido que surgiu a chamada “casa mais estreita do Porto”. Construída apenas para preencher o intervalo entre as duas igrejas, a pequena habitação acabou por se tornar uma curiosidade arquitetónica da cidade, simbolizando a adaptação do espaço urbano às necessidades e circunstâncias históricas da época.

A verdade é muito mais simples. Foto: Wikimedia // Krzysztof Golik
A verdade é muito mais simples. Foto: Wikimedia // Krzysztof Golik

Ali moraram alguns capelães, médicos que trabalhavam no hospital da Ordem, e em algumas situações também abrigou artistas que faziam trabalhos na decoração da Igreja. Nos últimos tempos, viveram lá o sacristão e o zelador da Igreja.

O mais curioso é que esta casa foi também local de encontro para reuniões secretas nos tempos das Invasões Francesas (entre 1807 e 1811), no período do Liberalismo (entre 1828 e 1834) e durante o Cerco do Porto (entre 1832 e 1833).

É caso para dizer que, se estas paredes falassem, teriam muito para contar.

Foi aberta ao público, pela primeira vez, em 2018

Após 250 anos, em 2018, a Casa Escondida, desconhecida também pela maioria dos locais, foi aberta pela primeira vez ao público para visitas. E, para surpresa de muitos, apesar de (bastante) estreita, inclui três pisos, três aposentos (um quarto, uma sala de estar, e uma sala comum com cozinha) e pode ser até considerada confortável.

Aproveite para conhecê-la. Foto: Unsplash
Aproveite para conhecê-la. Foto: Unsplash

“Todas as divisões estão mobiladas com mobiliário de época, embora nenhuma destas peças estivesse originalmente na casa. Nos corredores estão expostos quadros com os retratos de antigos provedores”, lê-se num artigo do jornal ‘Público’, publicado em julho de 2018.

Hoje ainda é possível visitar a casa, que funciona como um pequeno museu histórico no centro da cidade. A visita faz-se normalmente no âmbito do circuito turístico que inclui também a entrada na Igreja do Carmo, às suas catacumbas e a outras salas patrimoniais, e custa cerca de 3,50€ a 5€ por pessoa, dependendo da forma de acesso escolhida e do que está incluído no bilhete.

As portas estão abertas diariamente entre cerca de 10:00 e 18:00 horas, com horários ligeiramente diferentes em finais de inverno ou início de verão, e os bilhetes podem ser comprados no local da bilheteira da visita turística da Ordem do Carmo ou, em alguns casos, antecipadamente online quando essa opção estiver disponível.