Fóssil de atum descoberto na Arrábida revela uma herança gastronómica que vem da pré-história

Com 20 milhões de anos, o exemplar descoberto na região de Setúbal é o testemunho mais remoto da identidade marítima dos portugueses ao Atlântico.

A descoberta da equipa portuguesa é o primeiro registo fóssil em território nacional, confirmando que o atum já nadava no Atlântico durante o Miocénico. Imagem gerada por IA: Ralph/Altrip/Germany via Pixabay
A descoberta da equipa portuguesa é o primeiro registo fóssil em território nacional, confirmando que o atum já nadava no Atlântico durante o Miocénico. Imagem gerada por IA: Ralph/Altrip/Germany via Pixabay

Um grupo de investigadores saiu numa manhã ensolarada para uma caminhada entre o cabo Espichel e a praia do Meco, na região de Setúbal. Não tinham um rumo definido nem andavam atrás de qualquer pista em concreto.

A Geologia e a Paleontologia são interesses que unem estes seis amigos e cientistas. Pedro Marrecos, Carlos Neto Carvalho, Silvério Figueiredo, José Costa e Hugo Silva encontram-se com frequência para explorar lugares onde possam estar escondidos grandes segredos do passado geológico em Portugal.

Boa parte das incursões acaba por não dar em nada. Desta vez, porém, acertaram em cheio. Nos depósitos miocénicos da Arrábida depararam-se com um fóssil ocultado entre sedimentos marinhos, formados há muitos milhões de anos.

Quando viram a vértebra que se sobressaía nos escombros, perceberam de imediato que estavam diante de algo extraordinário. A robustez e o tamanho do osso deixaram claro que se tratava de um gigante dos mares.

O que são depósitos miocénicos? São acumulações de sedimentos, como rochas, areias, conchas e argilas, em ambientes marinhos formados há cerca de 23 a 53 milhões de anos, ricos em fósseis de moluscos, corais e peixes.

O achado representa a primeira ocorrência confirmada de um atum (Thunnus) no registo fóssil português. Com 20 milhões de anos, o exemplar permite agora contar a história desta espécie tão popular na gastronomia portuguesa.

A relevância nacional e internacional

Os antepassados dos atuns modernos já nadavam nas águas atlânticas que banhavam a região durante o Miocénico. Esta descoberta, segundo os autores, coloca Portugal ao lado de outros importantes sítios miocénicos da Europa, América do Norte e América do Sul, que também preservam fósseis desta espécie.

A investigação, publicada nas Comunicações Geológicas, revista científica do LNEG, revela que o animal teria mais de 2,8 metros de comprimento. É, portanto, comparável aos grandes atuns-rabilho que, séculos mais tarde, se tornariam parte das identidades cultural, gastronómica e económica portuguesa.

O papel histórico de uma espécie com 20 milhões de anos

A descoberta assume importância especial porque, como bem sabemos, o atum tem um papel histórico profundamente enraizado em Portugal. A sua pesca e salga no Sul do país vêm desde a ocupação romana.

Seco ao sol, fumado ou fresco, o atum permitiu enfrentar períodos de escassez, sustentando comunidades inteiras. A sua captura exige conhecimento profundo do mar e trabalho coletivo — sabedoria que atravessou gerações, permanecendo ainda hoje na pesca artesanal.

Pescadores algarvios consertam redes da almadrava, usadas tradicionalmente na pesca do atum. Fonte: SANTOS, Luís Filipe Rosa - A pesca do atum no Algarve. Loulé: s.n., 1989, p. 61.
Pescadores algarvios consertam redes da almadrava, usadas tradicionalmente na pesca do atum. Fonte: SANTOS, Luís Filipe Rosa - A pesca do atum no Algarve. Loulé: s.n., 1989, p. 61.

No território nacional, o Algarve é a região com melhores condições hidrográficas para a sua pesca, pois situa-se na rota de ida para o Mediterrâneo e de retorno ao Atlântico.

As técnicas piscatórias evoluíram das antigas armações (labirintos de redes) para uma grande indústria conserveira no século XX, que prosperou com a migração do atum. Entre as décadas de 1940 e 1960, Portugal foi um dos maiores produtores de conserva de atum na Europa.

Atualmente, a espécie continua a ser um recurso económico e gastronómico de grande valor para os portugueses, com forte projeção internacional.

A relação de Portugal com o atum é, por isso, muito antiga, mas esta descoberta revela que este elo remonta à pré-história. A identificação do fóssil demonstra que a ligação entre o território que hoje é Portugal e o atum recua aos primórdios da evolução dos ecossistemas modernos do Atlântico Nordeste.

Operárias da Fábrica Primorosa (1916-1961), em Sesimbra, enchem latas de conserva com atum. Fonte: Conservas de Portugal, Museu Digital da Indústria Conserveira
Operárias da Fábrica Primorosa (1916-1961), em Sesimbra, enchem latas de conserva com atum. Fonte: Conservas de Portugal, Museu Digital da Indústria Conserveira

O registo fóssil português de peixes pelágicos — especialmente tunídeos — é extremamente escasso, segundo os autores do estudo. O exemplar encontrado na Arrábida confirma a presença de grandes predadores oceânicos no Miocénico português, contribuindo para reconstruir a paleogeografia atlântica do Neogénico, com início há 23 milhões de anos, e fim no Pleistoceno, há 2,58 milhões de anos.

A reconstituição da história dos mares no Miocénico

O exemplar, de acordo com a investigação, mostra que os ecossistemas marinhos do Miocénico eram muito mais ricos e complexos do que se imaginava, sendo uma peça-chave para reconstruir a história paleoambiental da região da Arrábida.

A sua presença no Miocénico português revela mares quentes a temperados, elevada produtividade costeira e cadeias tróficas com predadores altamente especializados.

Estas características coincidem, em certa medida, com as condições que durante milénios sustentaram a pesca do atum em Portugal — desde as armações do Algarve até à indústria conserveira, que prosperou em cidades como Olhão, Setúbal, Vila Real de Santo António e Matosinhos.

O testemunho da identidade marítima portuguesa

A descoberta deste atum miocénico, no entanto, ultrapassa a esfera estritamente científica. O fóssil encontrado na Arrábida é agora um elo direto entre o património geológico português, nem sempre reconhecido, e a identidade marítima de Portugal.

Reprodução do desenho retirado do artigo “Uma copejada de atum”, da autoria de Manuel Teixeira Gomes, publicado na revista Seara Nova, 1927
Reprodução do desenho retirado do artigo “Uma copejada de atum”, da autoria de Manuel Teixeira Gomes, publicado na revista Seara Nova, 1927

Não se trata apenas de um contributo notável para se entender a evolução dos grandes predadores oceânicos. É também uma lacuna preenchida na história que narra a longa convivência entre as águas portuguesas e os atuns.

O Thunnus descrito é, simultaneamente, testemunho de um oceano pré-histórico e símbolo nacional da relação histórica e económica dos portugueses com o mar.

O exemplar está por isso disponível para investigação, podendo, no futuro, integrar exposições que mostrem ao público a surpreendente continuidade entre o passado geológico profundo e a identidade marítima portuguesa.

Referência da notícia

Carlos Neto de Carvalho, Silvério Domingues Figueiredo & Pedro Marrecos. A primeira ocorrência do atum Thunnus sp. (Família Scombridae) no registo fóssil Miocénico de Portugal. Comunicações Geológicas. Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia (LNEG).