Do “mamarracho” ao luxo: a velha torre de 50 metros da Covilhã prepara-se para renascer

Após décadas ao abandono, o edifício que ninguém queria entra finalmente em reabilitação para dar lugar ao Green View Tower, um moderno condomínio sustentável com 87 apartamentos.

Torre de Santo António
A ruína mais famosa da Covilhã transforma-se num condomínio moderno e sustentável. Foto: MJARC Arquitetos

Se passar pela encosta da Serra da Estrela e pousar o olhar na paisagem da Covilhã, talvez já tenha reparado naquela torre que se ergue, meio “esquelética”, de 50 metros. Aliás, quem vive na Covilhã sabe bem que aquela torre cinzenta, recortada contra a serra, faz parte da paisagem como se estivesse lá desde sempre. A Torre de Santo António sempre despertou um misto de fascínio e frustração: fascinava pela altura, atormentava pelo abandono.

Durante décadas, este foi aquele edifício que todos viam, mas que ninguém queria reclamar. Vivia ali, entre o abandono e a curiosidade, plantada no alto da Covilhã, com os seus 50 metros e 20 andares nunca concluídos

Erguida nos anos 70, com 20 andares, acabou por nunca ser terminada. Os problemas de financiamento levaram a que o edifício ficasse ao abandono, e o sonho de o tornar habitável ficou-se pelo caminho. Com o tempo, o que era uma promessa transformou-se numa marca de degradação, com andares vandalizados e a torre a ganhar a fama de “mamarracho urbano”.

Mas agora o rumo muda. Uma nova vida está a ser construída: a torre está prestes a renascer sob o nome Green View Tower. No fundo, trata-se de um projeto de reabilitação que promete transformar este símbolo da cidade num condomínio moderno com 87 apartamentos (tipologias T2 e T3).

Do abandono ao conforto moderno — com responsabilidade

O plano por trás do Green View não é apenas “dar uso” à velha torre: trata-se de uma reabilitação pensada para conservar o máximo possível da estrutura existente.

Quando começou a ser construída, nos anos 70, imaginava-se ali um marco de progresso. Mas o projeto empancou, a obra congelou e a torre ficou como ficou: incompleta, vandalizada e com um ar fantasmagórico que se tornou tema de conversa inexplicavelmente recorrente. Em 2022, porém, a autarquia decidiu avançar para a venda a privados, e foi essa decisão que abriu espaço para a mudança.

Torre de Santo António
Um projeto sustentável. Foto: MJARC Arquiteto

A empresa Verge Properties pegou no desafio e entregou o projeto de reabilitação ao gabinete MJARC Arquitectos. “O projeto de reabilitação tem como objetivo preservar e revitalizar o edifício existente, evitando a sua demolição e a consequente necessidade de novas construções”, refere o gabinete de arquitetura.

O plano não passa por apagar o que existia, mas por trabalhar com a estrutura original. Manter cerca de 65% do esqueleto do edifício não é apenas uma escolha técnica — é também um gesto de respeito pela memória do local e uma opção mais responsável do ponto de vista ambiental. Afinal, reparar o que existe pode ser tão nobre como construir de novo.

Já os pisos da torre vão ganhar uma nova cara: fachadas remodeladas com elementos horizontais e pontos verdes, telhados com jardins verticais, e uma paleta de cores que dialoga com a paisagem da serra. A intenção é fundir o edifício com a envolvência natural.

Dentro dos apartamentos espera-se um estilo contemporâneo e funcional, pensado para quem procura conforto e praticidade. Além das residências, o Green View incluirá comodidades pensadas para bem-estar: ginásio, espaço de coworking, lavandaria, e um parque de estacionamento cujo terraço será convertido num espaço exterior com jardim e espelho de água. Será uma espécie de refúgio moderno para quem ali viver, diríamos.

Torre de Santo António
Foi tudo pensado ao detalhe. Foto: Verge Properties

"No Green View todos os detalhes de construção foram pensados ao pormenor. Encontre um design moderno e uma garantia de conforto dada pelos melhores parceiros e materiais de construção de alta qualidade. Tudo isto sem esquecer o ambiente envolvente, descubra como a arquitetura do projeto Green View contempla soluções sustentáveis e de alta eficiência energética", lê-se no site.

Segundo a documentação mais recente, depois da aprovação da licença em fevereiro de 2023, as obras não demoraram a arrancar. O investimento ronda os seis milhões de euros e inclui também a requalificação da área envolvente: os terrenos adjacentes, que vão desde a torre até à antiga estrada EN 230, foram comprados pelos promotores.

“A comercialização do empreendimento ainda não arrancou, mas deverá começar no início do próximo ano”, avançou a revista ‘NiT’. Se quiser informações sobre o projeto, pode contactar a empresa responsável através do site oficial.

Promete ser um bom momento para a Covilhã

A reabilitação da Torre deixa de ser apenas uma recuperação urbana: representa um sinal de aposta no futuro da cidade. Depois de décadas de degradação, a cidade vai passar a ter um edifício icónico completamente renovado — algo que pode atrair novos residentes, e renovar o interesse pelo interior, sem depender exclusivamente dos centros urbanos tradicionais.

Além disso, a forma como o projeto foi desenhado — privilegiando a reutilização da estrutura existente, minimizando desperdício e integrando natureza e tecnologia — reflete uma tendência contemporânea da arquitetura: menos impacto ambiental, mais respeito pela identidade original. A torre, que tantos anos ficou esquecida, pode tornar-se agora num símbolo de renovação e esperança.

E por falar em esperança: quem viveu na Covilhã há muito tempo sabe que já foram feitas várias promessas de reabilitação, que acabaram por nunca se concretizar. Desta vez — com licenças aprovadas, promotores, projeto arquitetónico e obra em curso — parece haver consenso de que o destino da torre será diferente. Há expectativa (e até alguma curiosidade) sobre quem serão os futuros moradores, como irão transformar o “esqueleto” em casa e como a paisagem da cidade vai ganhar uma nova silhueta.