Este mural lisboeta pôs Campolide no mapa da street art mundial
Criado no Bairro da Bela Flor, “Calipso”, de Patrícia Mariano, é considerado um dos murais mais marcantes do mundo e está nomeado para um prémio internacional.

Quem passa pelo Bairro da Bela Flor, em Campolide, dificilmente fica indiferente. E basta levantar os olhos para uma das empenas dos prédios para perceber porquê: ali está “Calipso”, um mural de grandes dimensões que já entrou para o radar internacional. Aliás, é apontado até como uma das obras de street art mais relevantes do mundo.
Do que é que estamos a falar? Da pintura assinada por Patrícia Mariano, que nasceu em junho, no âmbito do festival MURO LX, uma iniciativa da Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal de Lisboa que, edição após edição, tem vindo a transformar a cidade numa galeria a céu aberto. Neste caso, a transformação foi literal: durante cerca de dez dias, e sob um calor que chegava aos 40 ºC, a artista deu forma a uma figura feminina profundamente ligada à água e à mitologia.
Inspirada no universo greco-romano, “Calipso” representa uma ninfa do mar, uma Nereida, “que é a filha do deus Nereu”, explicou Patrícia Mariano à revista ‘NiT’. Com a cabeça mergulhada num aquário, o corpo confunde-se com o próprio meio aquático.
“Calipso” foi criado para "celebrar a beleza e a importância dos mares, de forma a promover a reflexão sobre a sustentabilidade e a preservação dos recursos hídricos", descreveu a Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal de Lisboa, que promove o Muro Lx.
Um processo desafiante
O processo de criação, porém, não foi fácil. Pintar uma empena inteira em pleno verão lisboeta obrigou Patrícia Mariano a ajustar horários, interromper o trabalho durante as horas de maior calor e regressar muitas vezes ao final do dia. Ainda assim, o mural ficou concluído dentro do prazo — algo que a artista atribui tanto à disciplina como à sua conhecida obsessão pelo detalhe.
“Sou um bocado ansiosa e quando estou a pintar não descanso enquanto aquilo não estiver bem”, revelou à ‘NiT’.
Surpreendentemente, nem todos receberam a obra de braços abertos. Nos primeiros dias houve críticas, desconfiança e até quem questionasse se aquele tipo de intervenção fazia sentido naquele bairro. Com o tempo, a resistência foi dando lugar à curiosidade e, em alguns casos, à admiração.

E, claro, que o reconhecimento não tardou. A 5 de julho, a plataforma internacional Street Art Cities, que acompanha e documenta murais em milhares de cidades por todo o mundo, distinguiu “Calipso” como melhor mural do mês. Agora, a mesma plataforma coloca-a entre os candidatos para a melhor obra de arte urbana do ano.
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Este reconhecimento surgiu devido à "excelência técnica" e à "voz singular no muralismo contemporâneo" da artista. "Também dirige uma mensagem ambiental pertinente, instigando-nos a reconectarmo-nos e a cuidar do nosso mundo natural", acrescentou a organização em comunicado.
Para Patrícia Mariano, este destaque tem um significado especial. Num meio historicamente dominado por homens, o facto de uma artista portuguesa ver o seu trabalho reconhecido à escala global ajuda a dar visibilidade a novas vozes e a reforçar o papel das mulheres no muralismo contemporâneo.
"Esta conquista tem um significado especial porque sou mulher e acaba por ser um reconhecimento importante das nossas vozes e talentos no mundo da arte urbana", afirmou Patrícia Mariano, através de um comunicado citado pela ‘Time Out’.