Guia da Meteorologia parte 1: saiba como interpretar os mapas do tempo e o que eles realmente significam
Os mapas do tempo fazem parte do nosso dia a dia, mas nem sempre são fáceis de entender. Neste guia prático, explicamos de forma clara como funcionam as previsões meteorológicas, o significado dos principais termos usados e o impacto real de fenómenos atmosféricos.

Nos últimos meses, Portugal tem sido frequentemente afetado por chuva intensa, vento forte, cheias rápidas, quedas de árvores e deslizamentos de terra. A informação meteorológica está hoje mais acessível do que nunca, mas muitos leitores admitem: “leio os avisos, vejo os mapas, mas não percebo bem o que aquilo significa”.
Este artigo nasce exatamente para isso: ajudar a interpretar os mapas meteorológicos, explicar os principais termos usados e mostrar o que os valores representam na vida real. Ler “rajadas superiores a 150 km/h” sem conhecimento base, pode retirar a noção real de perigo.
Depressão, ciclone, tempestade: é tudo a mesma coisa?
Quando se fala de previsão do tempo, surgem frequentemente termos como depressão, ciclone ou tempestade, muitas vezes usados como sinónimos, embora não o sejam. Uma depressão corresponde a uma zona de baixa pressão atmosférica, geralmente associada a nebulosidade, precipitação e vento. No entanto, nem todas as depressões provocam fenómenos meteorológicos severos.
O termo ciclone é mais técnico e descreve a circulação do ar em torno de uma baixa pressão. Em latitudes médias, como Portugal, falamos de ciclones extratropicais, que não devem ser confundidos com furacões ou ciclones tropicais. Sempre que se refere uma depressão no Atlântico Norte, está-se, do ponto de vista técnico, a falar de um ciclone, mas isso não significa automaticamente um cenário extremo.
Já o termo tempestade é sobretudo operacional e comunicacional, sendo utilizado quando o vento, a precipitação ou o impacto esperado assumem uma intensidade significativa.
Em alguns casos, essas depressões podem intensificar-se de forma muito rápida, dando origem ao que se designa por ciclogénese explosiva. Este fenómeno ocorre quando a pressão atmosférica no centro da depressão desce abruptamente num curto espaço de tempo, tipicamente pelo menos 24 hPa em 24 horas nas latitudes médias, levando a um reforço significativo do gradiente de pressão. As ciclogéneses explosivas caracterizam-se por ventos muito fortes, mar agitado e precipitação intensa, podendo causar impactos relevantes no território.

Um exemplo recente foi a tempestade Kristin, que afetou Portugal e resultou de um processo de ciclogénese explosiva, com rápida intensificação da depressão no Atlântico e rajadas de vento extremamente fortes em várias regiões do país.
Como ler corretamente os mapas meteorológicos
Um dos aspetos que mais dúvidas gera na leitura dos mapas é a precipitação horária. Quando surge um valor como 6 milímetros por hora, isso não significa que esteja a chover de forma contínua durante uma hora inteira, nem que a chuva ocorra de modo uniforme em toda uma área, cidade ou localidade. Significa apenas que, naquele período de uma hora e naquele ponto do mapa, o modelo estima um acumulado total de 6 milímetros de precipitação.
Nos mapas, a intensidade da precipitação é representada através de uma legenda com diferentes cores, normalmente associadas a intervalos de valores em milímetros por hora.
De forma geral, considera-se chuva fraca quando os valores são inferiores a 2 mm/h, moderada entre 2 e 10 mm/h, forte entre 10 e 20 mm/h e muito forte acima dos 20 mm/h. Valores superiores, como 40 ou 50 mm/h, correspondem a episódios de precipitação muito intensa, geralmente associados a linhas de instabilidade ou trovoadas.

A leitura correta da legenda permite perceber não apenas se vai chover, mas com que intensidade e potencial impacto.
Rajadas de vento: o que significa 140 km/h?
No caso do vento, a leitura correta dos mapas passa sobretudo pela compreensão das rajadas, e não apenas do vento médio. Rajadas entre 50 e 70 km/h podem dificultar a progressão a pé e provocar a queda de ramos. Valores entre 80 e 100 km/h tornam as árvores instáveis, aumentam o risco de queda de estruturas leves e tornam a condução particularmente perigosa. Quando as rajadas atingem valores entre 120 e 140 km/h, os efeitos podem ser severos, com árvores arrancadas pela raiz, danos em telhados e cortes de energia generalizados.

Uma rajada desta magnitude pode ser comparada à força de um veículo em autoestrada a embater lateralmente, de forma repetida, contra um objeto imóvel. É por isso que, em situações de vento forte, não é o valor médio que causa os maiores danos, mas sim as rajadas mais intensas.