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Peritos conversam: uma gota fria atrás de outra, que se passa?

Será que é da mudança climática? No passado dia 1 começou o verão climatológico, aquele que marca a média histórica das temperaturas, mas de momento, do calor calor... não há rasto. Peritos à conversa!

Alfredo Graça Alfredo Graça 06 Jun. 2018 - 20:31 UTC
Os cumulunimbus estão a ser os grandes protagonistas da primavera.

Desde há umas semanas para cá que episódios de instabilidade encadeados uns atrás de outros com tempestades fortes têm ocorrido no nosso país vizinho Espanha, afetando parcialmente Portugal, sobretudo a Região Norte. Provocam pontualmente inundações e saraivadas intensas. Por detrás de muitos destes aguaceiros intensos temos, nada mais do que outra Depresión Airada de Niveles Altos, mais conhecida como gota fria. Voltaremos a ter uma DANA sobre as nossas cabeças? Que é que está a acontecer? Será das alterações climáticas?

Enrique Moltó, professor do Departamento de Análise Geográfica Regional da Universidade de Alicante

Durante as últimas semanas, de forma recorrente, temos sido visitados por gotas frias. São bolsas de ar frio nas camadas mais altas da troposfera que não costumam ter reflexo nas camadas baixas em superfície.A razão para que tantas gotas frias estejam a acontecer, é a alteração da circulação dos grandes protagonistas do centro da Europa. Um potente anticiclone que está há semanas a provocar “calor” no Noroeste da Europa, está a bloquear o acesso às tão habituais frentes frias ali, forçando-as a ir muito mais para sul sobre a Península Ibérica.

Elas não nos deixam as chuvas geralmente típicas do Outono no litoral mediterrânico, porque o mar está muito mais frio não havendo assim evidentes entradas de ventos marítimos, mas que estão no entanto a provocar tempestades enormes, caóticas e desorganizadas no interior do território espanhol, por causa dos aquecimentos basais típicos já destas alturas do ano.

Ángel Rivera, ex-meteorologista da AEMET (Associação Espanhola de Meteorologia)

Desfrutamos uns pares de meses de um período de chuvas atlânticas, algo que torna-se cada vez menos frequente e a atmosfera voltou de novo a um tipo de circulação muito repetitiva. Caracteriza-se em geral pela descida de pequenas gotas frias, desde a zona das Ilhas Britânicas até à Península, que entram pelo noroeste ou no máximo pelo oeste.

Desta forma, parece ser cada vez menos utilizada a via Madeira-Gibraltar-Mar de Alborão (extremo ocidental do Mediterrâneo), com a qual os aguaceiros temporários e quase únicos para o Sudeste vão primando cada vez mais pela ausência. Uma explicação imediata para este tipo de evoluções é que aponta àquela que poderiam ser a consequência de uma corrente polar mais alta de latitude e com muitos meandros, consequência do aquecimento do Ártico e da consequente diminuição do gradiente Polo-Equador.

Segundo a AEMET (Espanha), as barras são o número de raios registados na Espanha Peninsular, Ilhas Baleares e Cidades Autónomas no mês de maio.

De qualquer maneira, mais do que conjecturar, creio que, no contexto das alterações climáticas, o estudo deste tipo de circulações e da sua interação com um oceano pouco a pouco mais quente, requereriam uma maior atenção por parte das instituições de investigação ibéricas (Portugal e Espanha) pelo muito que está em jogo para planos de todo o tipo, no médio e no longo prazo.

Marc Redondo, meteorologista de “La Sexta”

Com os dias cada vez maiores, o sol pode aquecer mais, e o ar quente, ao ter menor densidade que o ar que o rodeia, sobe até se encontrar com o frio nas camadas altas, produzindo assim fortes tempestades.

Sabemos como saem estas depressões do fluxo atmosférico habitual. Conhecemos as épocas do ano em que há mais probabilidade de que isto ocorra e todos estamos a comprovar quais são as suas consequências: fortes chuvas. Mas, porque é que duram tantos dias?

Se queremos ir mais além e descobrir porque é que este padrão se está a prolongar, temos duas opções. A primeira, para os mais crentes, tentar dar-lhe uma explicação divina. A segunda, e que mais recomendo, recordar que a atmosfera tem um comportamento caótico, algo que complica seriamente as previsões a médio e longo prazo, que é o que torna mágica a meteorologia. E assim como os anticiclones se capricharam em deixar-nos um tempo seco durante meses, agora é a vez das tempestades.

Em Portugal... aguaceiros até sexta feira?

Em Portugal Continental, as baixas pressões atmosféricas não perdoam e teremos chuva em quantidades anormais para aquilo que Junho costuma ser, mostrando não dar de tréguas e caindo sob aguaceiros moderados até ao dia 8.

A partir da próxima sexta-feira, a precipitação continua em regime moderado em quase toda a extensão continental, excluindo o Noroeste Minhoto durante algumas horas. Depois disso penetra na extensãocontinental sobretudo em Lisboa e Setúbal.

Veja! Tantas nuvens a atravessar território nacional insular, neste caso o Arquipélago dos Açores.

Ao final da tarde, pelas 18h concentrar-se-á apenas na Região Norte e em alguns distritos da Região Centro, deixando Algarve e restante distritos da Região Sul algumas vezes.

Nos Arquipélagos, os Açores e a Madeira, o cenário meteorológico será ligeiramente diferente. A chuva que cairá, se chegar a precipitar será devido ao desenvolvimento das espessas nuvens que vão também atravessar estes territórios nos próximos dias. Pelo menos aqui, a névoa não está tão negra e espessa e o Sol aparecerá mais frequentemente...

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