Uma nova descoberta revela quais foram os primeiros animais terrestres a desenvolver sistemas respiratórios

Cada respiração que damos pode parecer um gesto automático e inconsciente, mas na verdade é uma herança biológica, um testemunho evolutivo que remonta a centenas de milhões de anos, quando a vida começou a conquistar a terra firme.

A respiração por aspiração costal foi uma inovação evolutiva fundamental para a conquista do meio terrestre pelos amniotas.
A respiração por aspiração costal foi uma inovação evolutiva fundamental para a conquista do meio terrestre pelos amniotas.

Um minúsculo fóssil encontrado em Oklahoma permitiu-nos vislumbrar um momento fundamental: a origem da respiração moderna.

O protagonista desta história é o Captorhinus aguti, um pequeno réptil do Pérmico Inferior que viveu há cerca de 289 milhões de anos. À primeira vista, não parece particularmente extraordinário: apenas alguns centímetros de comprimento, com um aspeto semelhante ao de um lagarto, mais um entre os primeiros vertebrados a explorar o mundo fora de água. Mas a sua preservação é tão excecional que permitiu algo quase inédito na paleontologia: reconstruir, ao pormenor, a forma como respirava.

Uma cápsula do tempo

A análise, publicada na revista Nature, descreve o exemplo mais antigo conhecido de respiração costal nos amniotas, o grupo que inclui répteis, aves, mamíferos e os seus antepassados comuns. É o mesmo sistema que usamos hoje: o movimento coordenado das costelas e dos músculos intercostais para expandir o tórax e encher os pulmões de ar.

Seja o primeiro a receber as previsões graças ao nosso canal do WhatsApp. Siga-nos e ative as notificações.

A descoberta foi feita na Gruta Richards Spur, no Oklahoma, um dos locais mais ricos em fósseis de vertebrados terrestres da era Paleozóica. Aí, condições muito específicas, como lama sem oxigénio e infiltração de hidrocarbonetos, funcionaram como uma cápsula do tempo. O resultado é um fóssil mumificado tridimensional que preserva não só os ossos, mas também a pele, a cartilagem e até os restos de proteínas.

O bom estado de conservação do Captorhinus aguti permitiu aos cientistas observarem esta evolução do trato respiratório de forma clara.
O bom estado de conservação do Captorhinus aguti permitiu aos cientistas observarem esta evolução do trato respiratório de forma clara.

Para estudar o interior sem o danificar, a equipa de Mooney utilizou a tomografia computorizada de neutrões, uma técnica rara que permite aos cientistas ver através da rocha com grande precisão. Foi então que o inesperado aconteceu. “Comecei a ver estruturas a envolver os ossos”, recorda Mooney. “Eram muito finas, texturadas. E, de repente, lá estava: pele a envolver o tronco, com um padrão semelhante a um acordeão, como faixas concêntricas que se estendiam até ao pescoço.”

Este pormenor não era meramente estético. A pele, juntamente com as estruturas internas, oferecia pistas sobre um sistema respiratório completo. Em vários espécimes, os cientistas identificaram um esterno cartilaginoso segmentado, costelas esternais e ligações à cintura escapular. Pela primeira vez, foi possível reconstruir o aparelho que permite a respiração costal num animal tão antigo.

Como respiravam os vertebrados terrestres antes desta evolução?

Antes de este sistema evoluir, os vertebrados terrestres dependiam de estratégias muito mais limitadas. Os anfíbios, por exemplo, combinam a respiração cutânea com um mecanismo que “bombeia” o ar através da boca e da garganta. Funciona, mas não permite níveis de atividade elevados. Já a respiração torácica transforma o corpo numa espécie de fole: permite a entrada de mais oxigénio, a expulsão de mais dióxido de carbono e o suporte de um metabolismo mais exigente.

Mas há mais: o Captorhinus guardava outra surpresa. Usando espectroscopia de infravermelhos de sincrotrão, a equipa detetou vestígios de proteínas originais em ossos, cartilagens e pele. Estas proteínas são quase 100 milhões de anos mais antigas do que as proteínas fossilizadas mais antigas conhecidas, encontradas nos dinossauros. “Esta descoberta é excecional”, conclui Mooney. “Expande drasticamente o que pensávamos ser possível na preservação dos tecidos moles.”

Referência da notícia

Reisz, R.R., Mooney, E.D., Maho, T. et al. Mummified early Permian reptile reveals ancient amniote breathing apparatus. Nature (2026).

Não perca as últimas notícias da Meteored e desfrute de todo o nosso conteúdo no Google Discover totalmente GRÁTIS

+ Siga a Meteored