Tratamento da depressão pode passar de seis semanas para cinco dias

Uma nova abordagem de estimulação cerebral intensiva poderá reduzir o tratamento da depressão resistente de várias semanas para apenas cinco dias, mantendo eficácia clínica comparável. Descubra mais aqui!

A abordagem intensiva do tratamento apresentou resultados semelhantes ao protocolo padrão, oferecendo uma alternativa mais rápida e potencialmente mais acessível para pessoas com depressão resistente ao tratamento.
A abordagem intensiva do tratamento apresentou resultados semelhantes ao protocolo padrão, oferecendo uma alternativa mais rápida e potencialmente mais acessível para pessoas com depressão resistente ao tratamento.

A depressão resistente ao tratamento constitui um desafio clínico significativo, frequentemente exigindo intervenções prolongadas antes de se observarem melhorias substanciais.

Tradicionalmente, a estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr), uma técnica não invasiva de neuromodulação, é administrada ao longo de seis a oito semanas.

Porém, um recente estudo da University of California – Los Angeles (UCLA) investigou um protocolo acelerado de EMTr, conhecido como “5×5”, que condensa o tratamento em apenas cinco dias.

Os resultados sugerem que esta abordagem pode oferecer um alívio dos sintomas comparável ao protocolo convencional, com potencial para revolucionar o tratamento clínico da depressão resistente.

Depressão como um transtorno mental

A depressão é um dos transtornos mentais mais prevalentes no mundo, associando-se a uma redução substancial na qualidade de vida, incapacidade funcional e risco aumentado de morbilidade e mortalidade.

Uma proporção considerável de pacientes com depressão não responde adequadamente aos antidepressivos tradicionais ou psicoterapias, caracterizando-se como depressão resistente ao tratamento.

"A EMTr tem emergido como uma alternativa terapêutica eficaz. A técnica utiliza pulsos magnéticos focados para estimular áreas específicas do cérebro associadas ao humor e ao processamento emocional, sendo apoiada por evidências robustas de eficácia e segurança." Autores do estudo

Apesar dos benefícios, o tratamento convencional de EMTr exige uma duração prolongada, geralmente seis semanas com sessões diárias, o que representa uma barreira significativa em termos de adesão, custos e impacto na vida quotidiana dos pacientes.

Frente a esse desafio, os investigadores da UCLA desenvolveram um protocolo intensivo de EMTr que procura reduzir o tempo total de tratamento sem comprometer os resultados terapêuticos.

O principal objetivo deste estudo foi avaliar se um protocolo acelerado de EMTr (designado “5×5” — cinco sessões por dia durante cinco dias consecutivos) pode proporcionar alívio sintomático semelhante ao protocolo tradicional de seis semanas em pacientes com depressão resistente ao tratamento.

Realização de sessões em regime ambulatório

O estudo incluiu 175 pacientes com depressão resistente, definidos por falha em responder a múltiplas tentativas de tratamento farmacológico.

Destes, 135 pacientes foram submetidos ao protocolo tradicional de EMTr, uma sessão diária durante seis semanas, enquanto 40 pacientes receberam o protocolo acelerado (5 sessões diárias durante cinco dias). As sessões foram realizadas em regime de ambulatório, com os parâmetros de estimulação ajustados de acordo com a prática clínica padrão.

A resposta terapêutica foi avaliada através de escalas padronizadas de sintomatologia depressiva, administradas antes do início do tratamento, no final do mesmo e em acompanhamentos semanais até quatro semanas após o término da intervenção.

Ambos os grupos revelaram reduções significativas nos sintomas depressivos. Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas no resultado global entre o grupo que recebeu o tratamento tradicional e o grupo submetido ao protocolo acelerado, indicando eficácia similar entre os dois métodos.

Importa destacar que um subgrupo de pacientes tratados com o protocolo 5×5 não apresentou melhoria imediata após os cinco dias iniciais, mas demonstrou reduções clinicamente relevantes nos sintomas depressivos entre duas a quatro semanas após o término do tratamento.

Estes achados sugerem que a avaliação imediata da eficácia pode subestimar os benefícios do protocolo acelerado em alguns pacientes, sendo crucial a monitorização longitudinal dos sintomas.

Importantes implicações clínicas

O protocolo acelerado de EMTr pode reduzir drasticamente o tempo e os recursos necessários para alcançar efeitos terapêuticos comparáveis ao esquema convencional.

A descoberta pode tornar o tratamento mais rápido, prático e acessível para quem enfrenta a depressão resistente, contudo são necessários novos estudos mas os resultados trazem esperança.
A descoberta pode tornar o tratamento mais rápido, prático e acessível para quem enfrenta a depressão resistente, contudo são necessários novos estudos mas os resultados trazem esperança.

Isto representa um avanço significativo no tratamento da depressão resistente, oferecendo uma alternativa mais acessível e menos onerosa para pacientes e serviços de saúde, além de potencialmente melhorar a adesão ao tratamento.

No entanto, os dados também indicam que o momento de resposta pode variar individualmente. O facto de alguns pacientes revelarem melhorias apenas após semanas do tratamento sugere mecanismos neurobiológicos de plasticidade cerebral que continuam a desenvolver-se após a estimulação inicial.

Este aspeto merece investigação adicional, particularmente para identificar biomarcadores que possam prever respostas tardias à neuromodulação.

Limitações do tratamento e perspetivas futuras

Embora promissor, este estudo não foi um ensaio clínico randomizado controlado (ECR), o que limita a capacidade de estabelecer causalidade sem vieses potenciais de seleção ou alocação.

O protocolo acelerado de estimulação magnética transcraniana apresenta-se como uma abordagem viável e eficaz para o tratamento de depressão resistente ao tratamento, com um potencial significativo para reduzir a duração total do tratamento sem comprometer os resultados clínicos.

A resposta tardia observada em alguns pacientes reforça a necessidade de avaliações prolongadas e de estudos controlados randomizados para confirmar estes achados e otimizar parâmetros de tratamento.

Futuras investigações devem incluir ECRs com amostras maiores, estudos de mecanismos biológicos subjacentes ao efeito da EMTr acelerada e análises de custo-eficácia em contextos de prática clínica real.

A integração de neuroimagem funcional e marcadores genéticos ou neuroquímicos pode também ajudar a personalizar a terapia e melhorar a preditividade de respostas individuais.

Referência da notícia

Michael R. Apostol, Thomas E. Valles, Juliana Corlier, Michael K. Leuchter, Alexander S. Young, Hewa Artin, Ralph J. Koek, Evan H. Einstein, Scott A. Wilke, Hanadi A. Oughli, Thomas Strouse, Aaron Slan, Margaret G. Distler, Dustin Z. DeYoung, Nathaniel Ginder, David E. Krantz, Andrew F. Leuchter. "Efficacy of 5 × 5 accelerated versus conventional repetitive transcranial magnetic stimulation (rTMS) for treatment-resistant depression." Journal of Affective Disorders, 2026