Timothy Walker é o historiador americano que lê o clima nos diários de bordo da Marinha Portuguesa

Observações náuticas antigas revelam padrões atmosféricos que ajudam a decifrar a evolução do clima e a antecipar desafios atuais.

Timothy Walker analisa diários de bordo antigos no Arquivo Histórico da Marinha, transformando registos náuticos em dados climáticos. Foto: UMass Dartmouth
Timothy Walker analisa diários de bordo antigos no Arquivo Histórico da Marinha, transformando registos náuticos em dados climáticos. Foto: UMass Dartmouth

Entre estantes altas e volumes encadernados, Timothy Walker procura conhecer o clima de outros séculos. É ali, no Arquivo Histórico da Marinha, instalado na antiga fábrica da Cordoaria Nacional, em Lisboa, que o historiador americano passa horas a decifrar caligrafias antigas, páginas amareladas e anotações feitas por oficiais que cruzaram oceanos há mais de 200 anos. Cada diário de bordo é uma peça de um puzzle global que pode ajudar a compreender o mundo de hoje.

Um projeto que atravessa oceanos e séculos

Timothy Walker coordena um projeto científico que junta investigadores portugueses e americanos numa grande investigação: reconstituir padrões climáticos entre os séculos XVIII e XX a partir dos diários de bordo da Marinha Portuguesa.

São documentos meticulosos, escritos entre as décadas de 1760 e 1960, que acompanham a evolução da navegação desde a Era da Vela até ao advento dos navios a vapor.

A equipa identificou, ao todo, cerca de 2200 diários, muitos deles produzidos em rotas onde quase nenhuma outra marinha europeia navegava com regularidade. Os navios portugueses cruzaram o Atlântico Sul, o Atlântico equatorial, o Índico e o Mar da China Meridional, deixando para trás registos meteorológicos de regiões que, durante séculos, foram praticamente ignoradas pela ciência.

Da caligrafia ao modelo climático

O processo exige paciência e um rigor quase artesanal. Os diários são, antes de tudo, digitalizados e transcritos. Cada observação meteorológica é depois extraída manualmente – direção do vento, estado do mar, nebulosidade, tempestades, correntes – e convertida em dados numéricos.

A equipa georreferencia cada entrada, criando séries temporais que permitem mapear o comportamento da atmosfera e dos oceanos ao longo de 250 anos.

Os registos do Arquivo da Marinha Portuguesa documentam detalhadamente as condições meteorológicas e a rota, servindo para estudos científicos sobre o clima do passado. Foto: Marinha Portuguesa
Os registos do Arquivo da Marinha Portuguesa documentam detalhadamente as condições meteorológicas e a rota, servindo para estudos científicos sobre o clima do passado. Foto: Marinha Portuguesa

O trabalho envolve História, Climatologia, Oceanografia e a articulação estreita com uma equipa multidisciplinar. Participam investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, do Instituto Dom Luiz, do Arquivo Histórico da Marinha, da Universidade de Massachusetts Dartmouth e da Woods Hole Oceanographic Institution, uma das instituições de investigação oceânica mais prestigiadas do mundo.

O que estes dados revelam

Os diários de bordo portugueses são valiosos porque sistematizam informações sobre condições meteorológicas em zonas tropicais e subtropicais onde, até ao século XX, quase não havia medições regulares.

Os documentos permitem reconstituir padrões históricos de vento e de circulação oceânica, identificar anomalias climáticas como secas prolongadas ou tempestades tropicais, e comparar o clima atual com o de outros séculos, avaliando a velocidade das alterações em curso.

Ao decifrar ciclos históricos de precipitação, o tratamento e a análise de dados ajudam ainda a melhorar modelos de previsão usados na navegação moderna, sobretudo em rotas transatlânticas, oferecendo também pistas úteis para a agricultura.

No plano económico, a investigação poderá antecipar os impactos climáticos no comércio e na logística, setores essenciais para manter as cadeias de abastecimento globais.

Além disso, ao revelar padrões de tempestades e marés, o estudo contribui para políticas costeiras mais eficazes e reforça a defesa nacional, aumentando a capacidade de prever fenómenos oceânicos extremos.

O que começou, portanto, como um exercício de história marítima tornou‑se uma ferramenta crucial para enfrentar desafios contemporâneos.

Dar nova vida a documentos antigos

Há ainda uma dimensão patrimonial que não se pode desvalorizar. Ao transformar manuscritos em dados científicos, o projeto mostra como os arquivos históricos podem ir muito para além da historiografia tradicional.

Os diários de bordo, muitas vezes esquecidos entre o pó das prateleiras, revelam‑se essenciais para compreender o clima global. A investigação reforça a importância de preservar, digitalizar e valorizar documentos antigos, que podem conter informação valiosa para a ciência moderna.

Uma relação de décadas com Portugal

A ligação de Timothy Walker a Portugal é profunda e antiga. O historiador viveu no país, estudou em arquivos nacionais e dedicou grande parte da sua carreira à história marítima e colonial portuguesa.

A navegação portuguesa do século XVIII consolidou rotas atlânticas para o Brasil e o comércio colonial. Imagem: Óleo de António José Ramos, 1956, Museu Naval.
A navegação portuguesa do século XVIII consolidou rotas atlânticas para o Brasil e o comércio colonial. Imagem: Óleo de António José Ramos, 1956, Museu Naval.

Investigou a Inquisição, o período colonial, o PREC e a circulação global de saberes. Trabalhou em embarcações históricas como a caravela Boa Esperança, em Lisboa, e a escuna Ernestina‑Morrissey, em Massachusetts, experiências que lhe deram uma compreensão prática da navegação tradicional.

Ao navegar agora pelos diários de bordo, reencontrou uma parte da história marítima portuguesa que sempre o fascinou, mas com o propósito de usar o passado como uma bússola para antecipar o futuro..

Referência da notícia

Diário de Notícias. O americano que estuda o clima de séculos passados nos diários de bordo da Marinha Portuguesa.
Público. Navegando pelos diários de bordo da Marinha Portuguesa desde o século XVIII.