Estrela do rock e réptil: uma nova espécie de cobra batizada em homenagem a Slash

O que é que uma lenda do rock tem a ver com uma cobra misteriosa da Nova Guiné? A resposta é mais estranha do que se possa imaginar — e tudo começa com o Slash e o seu amor de toda a vida pelos répteis.

Slash e Sara Ruane, autora principal do artigo, no Field Museum. Crédito: Cortesia de Sara Ruane.
Slash e Sara Ruane, autora principal do artigo, no Field Museum. Crédito: Cortesia de Sara Ruane.

Slash, o lendário guitarrista dos Guns N’ Roses, é um apaixonado por répteis desde sempre e um grande apoiante de jardins zoológicos e museus. E agora, dá nome a uma espécie recém-descoberta, a Lielaphis slashi – a cobra-terrestre de Slash.

"Como amante de répteis de longa data, sinto-me extremamente honrado e humilde por ter a Lielaphis slashi, da Nova Guiné, batizada com o meu nome. É realmente emocionante; nunca teria imaginado que este momento chegasse", afirmou Slash.

"Os Guns N’ Roses têm sido uma das minhas bandas favoritas desde que andava na primeira classe e, na quinta classe, já tinha dito à minha professora que queria ser herpetologista — um cientista que estuda répteis — quando crescesse", disse Sara Ruane, curadora associada de herpetologia do Field Museum e autora principal do artigo publicado na Zootaxa. "Então, quando tinha doze anos e recebi pela correio a minha cópia da revista Reptiles Magazine, que trazia na capa uma fotografia do Slash a segurar a sua pitão reticulada de estimação, pensei: “Este tipo é tão fixe.”"

Ruane cresceu e tornou-se cientista e, quando teve a oportunidade de atribuir um nome científico oficial a uma nova espécie de réptil, lembrou-se daquele artigo da revista.

"Reli a entrevista dele, e ele falava sobre o quanto adora museus, jardins zoológicos e história natural, e sobre como, quando era criança, saía à rua à procura de cobras — eram coisas com as quais me identificava muito, e isso fez-me pensar que ele seria uma pessoa fantástica para dar nome a uma nova espécie", disse Ruane.

Oportunidade de dar nome a uma nova espécie

Foi então que surgiu a sua oportunidade com uma cobra castanho-avermelhada, com 28 polegadas de comprimento, proveniente da floresta da Nova Guiné.

A Nova Guiné é a segunda maior ilha do mundo, situada a norte da Austrália. As florestas tropicais da ilha ainda não foram bem estudadas, o que sugere que possam abrigar uma biodiversidade até agora desconhecida. Em 2006, Chris Austin, conservador de herpetologia do Museu de Ciências Naturais da Universidade Estadual da Louisiana, estava a realizar trabalho de campo na Nova Guiné quando se deparou com uma cobra desconhecida.

A nova espécie de cobra, L. slashi. Crédito: Chris Austin.
A nova espécie de cobra, L. slashi. Crédito: Chris Austin.

"Estas cobras terrestres da Nova Guiné são noturnas, pelo que a melhor forma de as encontrar é à noite. Normalmente, encontram-se logo após o pôr do sol, na base de árvores de grande porte, onde procuram algo para comer", afirmou Austin. "Ao trabalhar à noite na Nova Guiné, é preciso ter muito cuidado, pois existem várias espécies altamente venenosas que se parecem muito com as cobras terrestres não venenosas."

Em 2016, Ruane passou algum tempo a trabalhar com Austin, tendo colaborado para dar início ao estudo das cobras pouco conhecidas da Nova Guiné.

Não tinham a certeza se a cobra era uma nova espécie, baseando-se apenas na sua aparência. Mas as análises laboratoriais revelaram então algumas diferenças interessantes.

"Utilizando várias análises genéticas de ponta, descobrimos que a L. slashi é geneticamente distinta de outras cobras semelhantes do mesmo género", afirmou Tianqi Huang, investigador de pós-doutoramento no Field Museum, a trabalhar com Ruane. "A combinação de características físicas, como as diferenças no número de escamas quando comparadas com outras espécies, e as evidências genéticas foi o que nos levou a perceber que se trata de uma espécie inteiramente nova. Também utilizámos modelação ecológica para demonstrar que o habitat preferido da L. slashi é diferente do de cobras semelhantes."

Ainda há muito por descobrir sobre a cobra-terrestre-de-Slash.

"É incrivelmente difícil observar cobras na natureza antes de elas se afastarem a rastejar, por isso o nosso conhecimento sobre a L. slashi é limitado", afirmou Ruane. "As cobras deste género têm frequentemente dentes grandes na parte posterior da boca, que as cobras-terrestres da Nova Guiné podem utilizar para agarrar e comer lagartos pequenos de escamas escorregadias e os ovos de outros répteis; esta cobra não agarra nem aperta a sua presa como uma jibóia."

Ameaças potenciais no horizonte?

A cobra terrestre de Slash não representa uma ameaça para os seres humanos, mas a atividade humana poderá prejudicá-la no futuro.

"Os habitats de origem da cobra terrestre de Slash estão ameaçados por indústrias como o cultivo de café e a mineração", afirmou Ruane. "É por isso que é importante descrever as espécies que ali vivem. Todas as espécies devem ser reconhecidas para que possamos compreender melhor como funcionam os ecossistemas e como tudo se encaixa no ambiente. Não podemos conservar animais ou outros seres vivos que desconhecemos."

News reference

HUANG, T., AUSTIN, C. C., BERNSTEIN, J. M., IOVA, B., ROBERTS, J. R., FREDERICK, J. H., & RUANE, S.. (2026). A new species of papuan groundsnake (squamata: Colubridae: Lielaphis) from New Guinea..