Será que a composição de espécies nas florestas europeias pode ser afetada pelas alterações climáticas?

O clima da Terra tem influência na localização das florestas, no seu crescimento e na própria diversificação das espécies arbóreas nas zonas florestais.

As espécies atualmente dominantes nas florestas europeias, estão a ser mais vulneráveis às alterações climáticas.
As espécies atualmente dominantes nas florestas europeias, estão a ser mais vulneráveis às alterações climáticas.

Os ecossistemas florestais são estruturados por interações competitivas a longo prazo por recursos essenciais, como a luz, a água, os nutrientes e o espaço. Ao longo de décadas ou séculos, estas interações determinam quais as espécies que dominam, como as comunidades florestais evoluem e como os processos dos ecossistemas são regulados.

Florestas em transição?

Atendendo às alterações climáticas, equipas de cientistas têm investigado o impacto dessas alterações nas florestas, nomeadamente na resistência de determinadas espécies à mudança do clima.

Ao avaliar os impactos das alterações climáticas nas florestas, a atenção centra-se geralmente na redução do crescimento, no aumento da mortalidade, no stress hídrico, na atividade dos incêndios e nos surtos de insetos.

No entanto, por detrás destes processos, existe um mecanismo mais gradual, mas fundamental, que é a competição entre espécies arbóreas coexistentes.

É assim importante que se consiga responder à seguinte questão: como é que as alterações climáticas afetam o equilíbrio competitivo entre as espécies arbóreas e quais as consequências para a composição florestal futura?

Mas avaliar as alterações na força competitiva das árvores é um desafio, dado que a competição ocorre ao longo de extensos períodos de tempo. Além disso, a força competitiva pode variar ao longo da distribuição geográfica e dos estados de vida de uma espécie, limitando a utilidade das avaliações locais de curto prazo e exigindo a consideração de grandes extensões espaço temporais.

Atendendo ao grande volume de dados a tratar, vários estudos sobre as florestas e o clima recorrem à Inteligência Artificial.
Atendendo ao grande volume de dados a tratar, vários estudos sobre as florestas e o clima recorrem à Inteligência Artificial.

Um estudo recente, publicado na Nature - Communications Earth & Environment, teve como objetivo investigar as alterações na competitividade de nove espécies arbóreas principais sob um clima futuro na Europa.

Neste estudo, foram utilizados mais de 135 milhões de anos-simulação de 17 modelos florestais baseados em processos, abrangendo mais de 13.000 localidades na Europa.

Foi utilizado um modelo de aprendizagem profunda, com recurso à inteligência artificial, aplicado a um enorme volume de dados, com milhões de transições simuladas de estados florestais, permitindo inferir como os sistemas florestais evoluem ao longo do tempo sob diferentes condições climáticas.

Como conclusão do estudo prevê-se que seis das nove principais espécies de árvores europeias, incluindo todas as coníferas perenes investigadas, percam força competitiva até 2071-2100 sob cenários climáticos severos.

Também foi revelado que a perda de competitividade das coníferas é consistente em múltiplos cenários climáticos, incluindo o do aquecimento moderado.

Enquanto as coníferas perdem frequentemente força competitiva, as espécies de folha larga ganham-na frequentemente. Isto pode levar a alterações substanciais na composição e dominância das florestas em toda a Europa.

Cerca de 25% das florestas da Europa poderão sofrer uma alteração nas espécies arbóreas dominantes até ao final do século XXI, sugerindo uma profunda reorganização das florestas europeias induzida pelo clima.

Consequências da reorganização da floresta na Europa

O aumento das temperaturas amplifica as exigências de evapotranspiração, exacerbando, assim, o défice hídrico. Como resultado, as coníferas, especialmente as espécies com nichos climáticos restritos, sofrem um stress fisiológico cumulativo, que impede o crescimento e a regeneração.

Os autores também exploraram as possíveis interações entre a composição florestal e o clima regional. As alterações no albedo, na evapotranspiração e na rugosidade da superfície, associadas à transição da dominância de coníferas para a de folhosas, podem influenciar os microclimas locais, criando interações complexas que afetam tanto os sistemas florestais como os humanos.

Além disso, o estudo realça que o tipo de solo e a variabilidade microclimática têm influência nas respostas das espécies, mas não compensam totalmente a severidade dos novos extremos climáticos devido às alterações climáticas.

As coníferas alpinas e boreais, que normalmente prosperam em ambientes mais frios e húmidos, enfrentam a fragmentação do habitat à medida que recuam para altitudes ou latitudes mais elevadas.

Por outro lado, as florestas de altitudes mais baixas ou do sul enfrentam riscos de mortalidade acrescidos.

À medida que as coníferas diminuem, a composição florestal tenderá para povoamentos mistos ou dominados por folhosas, alterando os regimes de luz, a ciclagem de nutrientes e a adequabilidade do habitat para a fauna dependente.

As espécies coníferas dominam atualmente mais de metade da área florestal da Europa e são essenciais para a produção de madeira.
As espécies coníferas dominam atualmente mais de metade da área florestal da Europa e são essenciais para a produção de madeira.

A madeira de coníferas é um pilar fundamental das indústrias florestais europeias, contribuindo significativamente para as economias rurais e para o emprego. As alterações na composição florestal podem perturbar as cadeias de abastecimento, exigindo ajustes na gestão dos recursos, nas políticas comerciais e nas economias locais.

Os autores deste estudo também alertam para o facto destas alterações nas imensas florestas de coníferas do Hemisfério Norte contribuírem para reduzir o potencial das coníferas como sumidouros de carbono do ecossistema, uma função crucial das florestas europeias na mitigação das alterações climáticas.

Embora as florestas tropicais tenham maior biodiversidade e rotatividade, as imensas florestas de coníferas do Hemisfério Norte representam o maior sumidouro terrestre de carbono.

O estudo defende que a manutenção da presença de espécies de coníferas nas florestas europeias exige intervenções mais ativas, uma monitorização mais rigorosa e abordagens de gestão adaptativa integradas em quadros mais vastos de mitigação das alterações climáticas.

As colaborações interdisciplinares, que integram a ecologia, a genética, a climatologia e a silvicultura, têm o potencial de gerar soluções inovadoras para a manutenção da saúde florestal no meio das alterações climáticas.

Referência da notícia:

Marc Grünig, Werner Rammer, Martin Baumann et al., “Loss of competitive strength in European conifer species under climate change”, Nature - Communications earth & Environment, Published: 08 May 2026.

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