Qual o impacto na atmosfera das partículas de microplástico e nanoplástico que nela existem?

Os microplásticos e os nanoplásticos têm origem na fragmentação de resíduos plásticos de maiores dimensões que poluem os rios, os oceanos e a terra e estão amplamente presentes na atmosfera.

A atmosfera terrestre contém microplásticos e nanoplásticos, que se deslocam com o vento.
A atmosfera terrestre contém microplásticos e nanoplásticos, que se deslocam com o vento.

Um novo estudo, publicado na Nature Climate Change, pretende analisar qual o efeito que todas estas micro partículas de plástico estão a ter na atmosfera.

Os plásticos não são apenas um poluente ambiental

Os nanoplásticos e os microplásticos são designados com base na sua dimensão e variam em tamanho, desde 1 nanómetro (10 -6 mm) a um mícron (0,001 mm) respetivamente no seu diâmetro.

Existem muitos locais no globo onde estas minúsculas partículas de plástico podem ser criadas e levadas para a atmosfera, desde os aterros sanitários, lixo à beira da estrada, tecidos sintéticos, sacos de plástico, garrafas até pneus de borracha.

Mas, particularmente no Oceano Pacífico, entre o Havai e a Califórnia, existe a Grande Mancha de Lixo do Pacífico, um redemoinho de lixo plástico com mais do dobro da área do Texas, responsável por grande parte das partículas na atmosfera. À medida que os pedaços de plástico se chocam uns contra os outros, fragmentam-se em partículas suficientemente pequenas e entram na atmosfera, levadas pelo vento.

Uma vez no ar, os microplásticos e os nanoplásticos têm um impacto climático que pode afetar-nos a todos e têm sido detetados em vários ambientes em todo o mundo, desde cidades a regiões remotas, transportados por processos atmosféricos.

Até agora, os investigadores não tinham a certeza do efeito que todas estas partículas de plástico estavam a ter num clima que já se encontra em aquecimento.

Com esta investigação, uma equipa de cientistas da China e dos EUA estudou a composição e o comportamento destas micro e nano partículas de diferentes cores e descobriu que estão a contribuir para o aquecimento global.

A maior parte dos estudos anteriores sobre microplásticos centraram-se nos riscos para a saúde e o ambiente, mas este revela uma ligação, há muito ignorada, entre a poluição por plástico e as alterações climáticas.

Neste estudo, os autores analisaram a cor, o tamanho e a composição química dos micro e nanoplásticos para compreenderem melhor como interagem com a luz solar e saberem se as partículas refletiam a luz solar de volta para o espaço, e neste caso teriam um efeito de arrefecimento no planeta ou se absorviam a luz solar, o que teria um impacto de aquecimento.

Os microplásticos e os nanoplásticos são constituídos por partículas coloridas e outras sem pigmentação
Os microplásticos e os nanoplásticos são constituídos por partículas coloridas e outras sem pigmentação

Ao analisarem as propriedades óticas dos diferentes tipos de micro e nanoplásticos, desde os sem pigmentação, até aos coloridos, os autores revelaram que os plásticos coloridos, especialmente os vermelhos, amarelos, azuis e pretos, absorviam a luz solar, enquanto os sem pigmentação refletiam a luz solar.

Impacto no aquecimento da atmosfera

O impacto no aquecimento é pequeno, muito menor do que o impacto das emissões de dióxido de carbono e apenas uma fração do impacto da fuligem. As emissões de microplásticos produzidas globalmente a cada ano têm aproximadamente o mesmo efeito de aquecimento que a operação de 200 centrais a carvão durante esse ano.

De acordo com o estudo, os micro e nanoplásticos coloridos libertam cerca de 0,04 W m⁻² em comparação com o carbono negro, que este estudo considerou libertar 0,27 W m⁻², o que equivale a cerca de 16% do efeito do carbono negro, ou fuligem no aquecimento da atmosfera.

O impacto das partículas no aquecimento global pode mudar com o tempo, atendendo que os micro e nanoplásticos também podem alterar a cor, como, por exemplo, as partículas brancas tendem a amarelar, o que significa que absorvem mais luz solar, com o consequente aquecimento e algumas coloridas, por outro lado, por vezes a descolorar, o que significa que refletem mais luz, com tendência para arrefecer.

Uma das conclusões do estudo é que quase todas estas partículas estão a contribuir mais para o aquecimento do que para o arrefecimento da atmosfera, atendendo que a maioria das partículas é mais escura, quer porque já o são de início, quer porque escurecem à medida que flutuam na atmosfera e envelhecem.

Este estudo é inovador, especialmente no que diz respeito aos possíveis impactos da cor dos micro e nanoplásticos no potencial de aquecimento. Os autores alertam a comunidade científica que este aquecimento da atmosfera provocado pelos microplásticos e nanoplásticos deveria ser incorporado em futuras avaliações climáticas.

É urgente terminar com a acumulação de resíduos plásticos no meio ambiente
É urgente terminar com a acumulação de resíduos plásticos no meio ambiente

Os resultados do estudo apontam que se pode reduzir o aquecimento da atmosfera removendo o plástico das nossas vidas.

Além de contribuir para o aquecimento da atmosfera, os cientistas já tinham demonstrado anteriormente que os microplásticos podem percorrer milhares de quilómetros pela atmosfera e atuar como núcleos de condensação para formação das nuvens, o que significa que têm o potencial de influenciar também a precipitação.

Referência da notícia:

Yu Liu, Hongbo Fu et al.. “Atmospheric warming contributions from airborne microplastics and nanoplastics”, Nature Climate Change. Published: 04 May 2026