Tudo começou com um osso. Hoje poderá ser o dinossauro mais completo encontrado em Portugal
Um fragmento exposto numa arriba de Torres Vedras revelou um dos mais importantes achados paleontológicos das últimas décadas e continua a surpreender os investigadores.

À primeira vista, era apenas um fragmento de osso a sobressair da arriba junto à Foz do Rio Sizandro, em Torres Vedras. Para quase toda a gente passaria despercebida. Para Luís Domingos, investigador do Centro de Investigação em Paleobiologia e Paleoecologia da Sociedade de História Natural, aquele vestígio mereceu atenção imediata. A descoberta ocorreu em junho de 2025, durante trabalhos de prospeção para o Sistema de Informação Geográfico Aplicado à Paleontologia.
Nessa altura, ninguém imaginou a verdadeira dimensão do achado. A primeira análise revelou apenas uma certeza. A morfologia do fémur indicou que o animal não pertencia a um grupo frequente no registo fóssil português. A raridade do exemplar levou a equipa a regressar ao local poucos meses depois. Foi então que a história começou verdadeiramente a revelar-se.
Uma descoberta que cresceu a cada escavação
Durante a campanha realizada no verão de 2025, os investigadores encontraram cerca de 45 osteodermes, placas ósseas que revestiam o corpo do animal como uma armadura natural. A presença destas estruturas permitiu identificar o fóssil como pertencente aos Anquilossauria, um grupo de dinossauros herbívoros quadrúpedes protegidos por espigões e placas ósseas.

O achado em Torres Vedras foi, por isso, uma enorme surpresa. Os anquilossauros são extremamente raros no registo fóssil do Jurássico e acredita-se que, nessa época, existissem populações reduzidas nos ecossistemas europeus.
O novo exemplar parecia contar uma história muito diferente. Os fósseis surgiram numa formação geológica do Kimmeridgiano, com uma idade compreendida entre cerca de 157 e 152 milhões de anos.

Isso faz deste animal o anquilossauro mais antigo conhecido da Europa continental e anterior aos restantes exemplares identificados em território português. A importância científica da descoberta continuava, contudo, escondida debaixo da rocha.
Um esqueleto preservado como raramente acontece
Para proteger os fósseis das tempestades e da erosão, a equipa estabilizou o local durante o inverno. As escavações regressaram este ano e os resultados superaram as expectativas. À medida que os sedimentos foram cuidadosamente removidos, começaram a surgir novas partes do esqueleto.
O exemplar encontra-se preservado de barriga para baixo, uma posição extremamente invulgar. A maioria dos dinossauros é encontrada de lado, mas, neste caso, os investigadores acreditam que os membros anteriores poderão permanecer protegidos sob as placas ósseas e os espigões que ainda aguardam escavação. Cada novo bloco de rocha removido pode revelar mais uma peça deste enorme puzzle jurássico.
Uma janela aberta para o Jurássico europeu
O trabalho de campo está longe de terminar. O tamanho exato do animal, o seu peso e vários aspetos da sua anatomia continuam por esclarecer. Ainda assim, o estado de conservação do esqueleto oferece uma oportunidade rara para compreender melhor a evolução dos anquilossauros europeus e a diversidade dos ecossistemas que existiam na região há cerca de 155 milhões de anos.
Se as expectativas da equipa forem confirmadas, o exemplar de Torres Vedras poderá tornar-se o dinossauro mais completo alguma vez encontrado em Portugal e um dos mais importantes achados paleontológicos europeus das últimas décadas.
Referência da notícia
Município de Torrs Vedras. Descoberta paleontológica inédita no concelho de Torres Vedras.