Porque é que os neandertais da Península Ibérica foram os últimos a desaparecer da Europa?

Nem só o clima e a competição com o Homo sapiens contribuíram para a extinção das populações europeias. Novo estudo sugere que houve um fator humano determinante na resistência ibérica.

Os neandertais ibéricos parecem ter resistido cerca de três mil e sete mil anos mais do que os restantes grupos europeus. Imagem gerada por IA: Adobe Stock
Os neandertais ibéricos parecem ter resistido cerca de três mil e sete mil anos mais do que os restantes grupos europeus. Imagem gerada por IA: Adobe Stock

O desaparecimento dos neandertais não foi simultâneo em toda a Europa, mas antes um processo regional e desigual, que culminou na sua extinção há cerca de 40 mil anos. Os primeiros grupos a desaparecer parecem ter sido os do Sudeste Europeu (Balcãs), da Europa Oriental e de parte da Europa Central.

As evidências científicas mostram que o sul da Península Ibérica foi um dos últimos enclaves dos neandertais durante o Pleistoceno, período marcado por sucessivas oscilações climáticas entre fases glaciais e interglaciares.

As populações ibéricas parecem ter resistido cerca de três mil e sete mil anos mais do que os restantes grupos do centro e do leste da Europa. A persistência tardia levou os paleontólogos das universidades de Montreal e de Cambridge a questionar por que estas populações se diferenciaram e demonstraram maior resiliência demográfica.

A Península Ibérica é apontada como o último refúgio dos neandertais da Europa. Ilustração: Adobe Stock
A Península Ibérica é apontada como o último refúgio dos neandertais da Europa. Ilustração: Adobe Stock

Essa resistência prolongada torna-se ainda mais intrigante uma vez que o seu modo de vida não diferia substancialmente do de outros grupos neandertais europeus. Eram caçadores-recoletores altamente adaptados às condições ambientais. Viviam em pequenos grupos, deslocavam-se sazonalmente para tirar melhor partido dos recursos, ocupavam grutas ou estabeleciam acampamentos ao ar livre.

O peso do fator humano

Não há uma única causa que justifique, por si só, por que a Península Ibérica foi um dos últimos redutos dos neandertais da Europa, mas, segundo um novo estudo internacional, o fator humano pode ter sido decisivo.

As populações ibéricas parecem ter mantido redes de contacto mais estáveis do que na Europa Oriental e no Sudeste Europeu. Nem o stress climático nem a concorrência direta com o Homo sapiens explicam inteiramente o desaparecimento dos neandertais.

A diferença crucial pode estar na forma como as populações se ligavam entre si. A investigação publicada na revista científica Quaternary Science Reviews sugere que, sob pressão, as populações neandertais europeias se ramificaram em dois grupos, um no ocidente e outro no oriente.

As comunidades do Leste, menos conectadas, terão sido as primeiras a desaparecer. Essas populações tornaram-se mais vulneráveis a declínios demográficos, ao isolamento e à assimilação genética por parte dos Homo sapiens.

O trunfo das comunidades ibéricas

As comunidades da Península Ibérica, no extremo ocidental da Europa, desenvolveram, em contrapartida, redes sociais mais sólidas. Essa foi a estratégia que lhes permitiu sobreviver mais tempo, tornando-se uma das últimas populações de neandertais da Europa.

A Ibéria, sobretudo o sudoeste e o sul da península, constituiu uma zona de sobrevivência durante o MIS 3, um período de fortes oscilações climáticas entre 57 mil e 29 mil anos atrás.

Os Homo sapiens também tendiam a ocupar territórios mais interligados, muitas vezes em torno de corredores costeiros do sul da Europa, o que facilitava o contacto entre grupos vizinhos.

Estas ligações foram vitais para construir uma rede de segurança, possibilitando a troca de informações sobre recursos disponíveis ou rotas de migrações de animais. Os vínculos entre diferentes populações, num ambiente inóspito, foram decisivos para firmar alianças e ter acesso a territórios menos hostis durante períodos de escassez ou de crises.

A rede de entreajuda foi determinante para a população de neandertais resistir mais tempo na Península Ibérica. Imagem: Adobe Stock
A rede de entreajuda foi determinante para a população de neandertais resistir mais tempo na Península Ibérica. Imagem: Adobe Stock

O estudo intitulado “Spatial resilience and population replacement in Europe during MIS 3: a comparative study of Neanderthals and H. sapiens” ressalva que os neandertais não eram uma espécie menos avançada que os Homo sapiens. Mas, apesar da sua grande capacidade de adaptação, tinham um ponto fraco, que ditou o seu fim: estavam fragmentados no território e menos conectados entre si.

A chave da resiliência, para os autores desta investigação, está, por isso, nas redes sociais mais alargadas e fortalecidas. Uma característica, aliás, que continua a ser determinante também na modernidade.

Referência do artigo

Ariane Burke, Emma Pomeroy, Timothée Poisot, Benjamin Albouy & Simon Paquin. Spatial resilience and population replacement in Europe during MIS 3: a comparative study of Neanderthals and H. sapiens. Quaternary Science Reviews