Os especialistas explicam como as alterações climáticas nos estão a dividir enquanto sociedade
A saúde social é reconhecida como um determinante crítico da saúde da população e da resiliência às alterações climáticas, mas está pouco integrada nas políticas e na investigação sobre o tema.

As alterações climáticas são amplamente compreendidas como uma ameaça ambiental e económica, mas novas investigações mostram que também representam uma crescente crise social, enfraquecendo as relações das quais as pessoas dependem para sobreviver.
Um estudo de revisão publicado na revista Nature Human Behaviour e conduzido por investigadores da Universidade de Sydney, na Austrália, apresenta um alerta até agora negligenciado: além do impacto ambiental, o aquecimento global e as alterações climáticas estão também a corroer o tecido social, a rede de ligações humanas que sustenta as comunidades.
De acordo com o estudo, a relação entre o clima e a saúde social é bidirecional: as alterações climáticas enfraquecem a coesão social e, ao mesmo tempo, a desconexão social reduz a capacidade coletiva de adaptação e resposta à crise, exacerbando-a consequentemente.
Sociedades desligadas intensificam o caos ambiental
O estudo começa com uma definição concreta de “saúde social”: a capacidade de aceder e manter relações humanas significativas, de acordo com um comunicado de imprensa. Nesta perspetiva, o clima deixa de ser apenas um problema ambiental e passa a ser também uma crise de convivência.

A revisão sintetiza um conjunto de evidências interdisciplinares que mostram como os impactos climáticos afetam condições sociais vitais, como a estabilidade habitacional e a coesão comunitária, enquanto o isolamento generalizado limita a resposta coletiva. Consequentemente, a resiliência climática depende não só de alertas precoces ou de investimentos em infraestruturas, mas também da força dos laços entre vizinhos, famílias e instituições.
Os mecanismos identificados pelos cientistas são amplos e diversos. As ondas de calor e a poluição do ar obrigam as pessoas a permanecer em ambientes fechados e reduzem as oportunidades diárias de interação. Da mesma forma, as interrupções nas escolas e nos locais de trabalho dificultam a continuidade das ligações sociais.
Por outro lado, os desastres extremos, como inundações, ciclones e incêndios, destroem casas, espaços públicos e as rotinas que sustentam a vida comunitária. Mesmo quando a deslocalização melhora a segurança física, pode deixar as pessoas mais isoladas e com pior saúde social. Nas zonas rurais, a seca prolongada está também associada a uma maior solidão, a uma menor participação da comunidade e a stress económico, uma combinação que enfraquece a confiança social.
A desigualdade social em saúde e as alterações climáticas
Os investigadores realçam ainda que estes efeitos n��o são distribuídos igualmente. Aqueles que já enfrentam desvantagens, como baixos rendimentos, habitação precária, deficiência ou pertença a comunidades marginalizadas, estão mais expostos aos riscos climáticos e têm menos recursos para manter as suas redes de apoio.
Referência da notícia
Bower, M., Filia, K., Lawrance, E.L. et al. Climate change and social health. Nature Human Behaviour (2026).
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