O El Niño influencia o clima no globo e, além disso, pode exercer um efeito sobre a esperança de vida da população

O El Niño-Oscilação do Sul (ENSO) é um fenómeno climático natural, caraterizado por alterações significativas na distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico tropical, que provocam alterações no clima da região e de outras regiões do globo.

O ENSO tem impactos generalizados e de longo prazo influenciando múltiplas regiões a nível global.
O ENSO tem impactos generalizados e de longo prazo influenciando múltiplas regiões a nível global.

Um estudo científico publicado na Nature Climate Change concluiu que as consequências do El Niño não se manifestam só no clima, mas estendem-se também na saúde para além do ano do evento, levando a efeitos cumulativos a longo prazo.

El Niño tem impactos a longo prazo na economia e na saúde

O El Niño, que se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais (La Niña pelo arrefecimento), influencia a temperatura, a precipitação e os eventos climáticos extremos em todo o mundo. O seu impacto abrange desde as ondas de calor, secas e inundações até à poluição atmosférica e às perturbações na segurança alimentar e é bem conhecido pela sua forte influência nos padrões climáticos em toda a região do Pacífico e no Sudeste Asiático.

O recente estudo inovador interdisciplinar liderado por investigadores da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura (NTU Singapura), com a colaboração da Universidade da Cidade de Hong Kong, descobriu que a intensificação da fase positiva do ENSO, conhecida como El Niño, também tem implicações na saúde e na economia.

Secas e incêndios são dos efeitos principais do El Niño no Pacífico ocidental, em especial na Austrália, Indonésia e Filipinas
Secas e incêndios são dos efeitos principais do El Niño no Pacífico ocidental, em especial na Austrália, Indonésia e Filipinas

Foram investigados os impactos duradouros dos eventos El Niño nas taxas de mortalidade e na produtividade económica ao longo de vários anos, analisando como a variabilidade climática afeta a esperança de vida e os encargos económicos em diferentes grupos etários e regiões globais.

Foi demonstrado que o El Niño é um fator persistente de perdas económicas e de saúde, e não apenas uma anomalia climática de curto prazo.

Com recurso a simulações de modelos climáticos de última geração com dados observados, mais de seis décadas de registos de mortalidade de 10 países de rendimento elevado da região do Pacífico, os autores descobriram um sinal climático persistente que altera as tendências de mortalidade durante décadas.

Os investigadores estimaram que, durante períodos de anos neutros em relação ao ENSO, a mortalidade em todas as faixas etárias na região do Pacífico diminuiu em média 2,1 pontos percentuais por ano.

No entanto, cinco anos após um evento El Niño, esta melhoria enfraquece drasticamente para -0,6 pontos percentuais, indicando uma deterioração nos resultados de mortalidade humana ligada a um aumento das mortes resultantes das projeções de stress climático relacionado com o El Niño.

Os autores do estudo concluíram que os episódios de 1982-83 e 1997-98 do El Niño, dois dos eventos mais intensos do séc. XX (aquecimento das águas superficiais até 5 oC acima da média) reduziram os ganhos de esperança de vida à nascença em cerca de 0,5 e 0,4 anos, respetivamente. Os dois eventos traduziram-se em perdas económicas associadas de 2,6 triliões de dólares e 4,7 triliões de dólares, respetivamente.

A análise dos dados de mortalidade de 1960 a 2022, realizada pelos investigadores, constatou que os eventos El Niño de grande magnitude abrandam as melhorias a longo prazo na mortalidade e na esperança de vida.

As projeções futuras sob cenários de emissões moderadas sugerem um declínio cumulativo de 2,8 anos na esperança de vida até 2100.

Isto corresponde a aproximadamente 35 biliões de dólares em perdas, ou cerca de 1% da produção económica projetada para a região, o que realça a importância de incorporar os riscos para a saúde relacionados com o El Niño no planeamento a longo prazo.

O estudo constatou que, num clima em aquecimento, os eventos El Niño recorrentes corroem silenciosamente os ganhos em saúde que as sociedades da Bacia do Pacífico geralmente alcançaram ao longo do tempo.

Os resultados também indicam que o impacto na saúde é maior para os jovens e idosos, enquanto o impacto económico se concentra entre os adultos de meia-idade em idade ativa.

Futuro - importância das medidas de adaptação

Este estudo inovador reorienta a compreensão do impacto do El Niño, passando de perturbações episódicas para encargos persistentes e plurianuais sobre a esperança de vida e a produtividade económica.

Sob cenários de emissões moderadas, o estudo prevê uma perda cumulativa até 2,8 anos na esperança de vida até 2100, totalizando perdas de 35 biliões de dólares.

Esta investigação deixa claro que o El Niño não é apenas um fenómeno climático, é um choque económico e social a longo prazo. Os fatores climáticos na saúde não se manifestam apenas em janelas de crise imediatas, mas acumulam-se ao longo do tempo, exigindo uma profunda recalibração das avaliações de impacto do clima na saúde.

As ondas de calor, que são uns dos efeitos do El Niño em algumas regiões do Pacífico, têm um impacto direto na saúde, principalmente em idosos e crianças
As ondas de calor, que são uns dos efeitos do El Niño em algumas regiões do Pacífico, têm um impacto direto na saúde, principalmente em idosos e crianças

Estas descobertas científicas indicam também que compreender e antecipar os riscos impulsionados pelo ENSO será cada vez mais importante para os sistemas de alerta precoce e de planeamento a longo prazo e para a necessidade urgente de estratégias de adaptação direcionadas para salvaguardar o bem-estar da população.

Verificou-se que os custos sociais do ENSO são muito mais elevados do que aparentam inicialmente, demonstrando como a variabilidade climática abranda persistentemente as melhorias na mortalidade. O impacto acumula-se silenciosamente ao longo de décadas, moldando o crescimento económico.

Muitos modelos climáticos preveem que o aumento das temperaturas irá intensificar e aumentar a frequência dos eventos El Niño, levando a graves consequências socioeconómicas. À medida que os eventos El Niño se tornam cada vez mais frequentes e intensos sob os cenários de alterações climáticas, este trabalho oferece uma visão crítica para salvaguardar a saúde pública e a vitalidade económica.

Os autores do estudo alertam que olhando para o futuro, sem ações decisivas, as alterações climáticas irão corroer a saúde e a estabilidade globais por gerações. A adaptação não é opcional, é urgente.

Referência da notícia:

“Enduring impacts of El Niño on life expectancy in past and future climates”, Yanbin Xu et al., Nature Climate Change. Published: 09 January 2026.