O conturbado equilíbrio térmico do planeta

Aprisionada pela força da gravidade, uma dinâmica camada de gases envolve o planeta, acompanhando-o cronologicamente quase desde a sua formação, propiciou o surgimento, evolução e existência de vida nas mais diversas formas. Descubra mais aqui!

O vapor de água, o ozono estratosférico, o óxido nitroso, o dióxido de carbono e o metano impedem a fuga de radiação infravermelha emitida da Terra.

O invólucro que envolve o planeta denominado de atmosfera, constitui-se de uma panóplia de gases em voláteis quantidades, sendo os mais abundantes o azoto (≈78%), o oxigénio (≈21%) e o árgon (≈0.9%), representando os demais e o vapor de água, apenas cerca de 1% desta composição. Mas não foi sempre assim.

A atmosfera, tal como o planeta personifica uma história evolutiva, tendo na sua fase primitiva sido uma espécie de plasma composta por hélio e hidrogénio, e posteriormente, numa cronologia de milhões de anos, passado a ser constituída por azoto e compostos de carbono. Há cerca de 3,5 biliões de anos, decorrente do efeito de uma série de transformações ao nível da constituição do sistema solar e do desenvolvimento evolutivo do próprio planeta, consequência da acreção dos continentes, um elemento químico fundamental à vida surgiu, o oxigénio, que após um moroso percurso, há cerca de 300 milhões de anos, começou a estabilizar as suas flutuações, até aos 21% que representa atualmente na composição da atmosfera.

E, à semelhança da história da dinâmica do O₂ na Atmosfera, todos os outros gases que a compõem passaram por uma incontornável volubilidade evolutiva. A composição química da Atmosfera não é constante, muda quer por efeito de causas naturais, e por isso incontornáveis, quer, apesar de em menor escala, devido a uma acutilante ação antropogénica, que influi no aumento da quantidade de gases que contribuem para uma maior retenção de calor, desestabilizando artificialmente o complexo equilíbrio que constitui o mecanismo atmosférico.

Alguns gases atmosféricos aprisionam calor?

O N₂O (óxido nitroso) é produzido naturalmente pelas florestas e oceanos, mas também pelas atividades e resíduos agrícolas, fertilizantes, entre outros, tendo um potencial para absorver radiação cerca de 300 vezes mais, comparativamente com o CO₂. O dióxido de carbono é também produzido naturalmente, através da função da respiração, da decomposição de animais e plantas, entre outros, mas o problema dimensiona-se quando relacionado com a desflorestação, com a queima de combustíveis fósseis como o crude e o carvão (substâncias usadas para gerar energia elétrica que também alimenta os dúbios ecológicos veículos eléctricos). Mas, enfatize-se o papel determinante do metano (CH₄) na alteração do equilíbrio térmico do planeta.

O degelo do Permafrost possibilita que microorganismos em corpos de pessoas e animais congelados regressem da hibernação, potenciando contaminações.

Trata-se de um gás incolor, altamente inflamável, que é produzido naturalmente nos pântanos, oceanos, emitido pelos vulcões, nas atividades térmitas, na queima de biomassa, na decomposição anaeróbica de organismos, no tratamento de efluentes e aterros, nos arrozais, na pecuária,nos reservatórios de hidroeléctricas, etc. É um gás com um potencial de aquecimento climático cujo impacte é mensuravelmente superior ao do dióxido de carbono, apesar de, na atmosfera representar apenas 1,79 ppmv e o CO₂ corresponder a 390 ppmv.

O metano e as regiões geladas

É clarividente a mutação espacial da criosfera. Decorrente de cíclicas alterações climáticas, o degelo vai vulnerabilizando regiões onde o permafrost, o solo permanentemente congelado, aprisiona material orgânico. Ora, quando o solo derrete, esse material inicia um processo de decomposição no qual liberta metano, impelindo a um loop cíclico: aumento de temperatura, mais degelo de Permafrost, mais metano libertado, mais aumento de temperatura, ...

Estas regiões aprisionam espessas camadas de sedimentos que contêm grandes quantidades de metano sob a forma de hidratos, enclausurados numa espécie de estrutura de cristal, na qual as moléculas de metano são cercadas por gelo. Porém, quando libertados da pressão do peso do gelo, esses hidratos desintegram-se transformam-se em metano gasoso que borbulha para a atmosfera, onde pode permanecer por cerca de uma década, podendo, cada molécula de metano capturar 23 vezes mais calor, do que o dióxido de carbono, apesar da longevidade deste ser de séculos.

Característico das regiões com temperaturas negativas durante a maioria dos meses do ano, o permafrost forma-se em zonas subjacentes à superfície ocultadas por outras camadas de gelo, vegetação ou rochas, podendo, na chamada camada ativa, mais superficial, onde podem encontrar-se musgos e líquenes, sofrer degelo sazonal durante os períodos mais quentes, voltando a congelar com o arrefecimento do inverno. Só que o degelo contínuo e insubstituído do permafrost, diminui as áreas com capacidade de reflexão da radiação solar, reduz o albedo, levando a uma maior absorção de calor, o que amplifica a vulnerabilidade climática do planeta.

Refira-se que o permafrost não existe só na litosfera, apesar de ocupar grande parte da região da Sibéria, encontra-se também no fundo oceânico, particularmente no mar de Barents, onde, entre o norte da Noruega e a Rússia fervilham colunas de bolhas de metano. Não obstante o perigo que representa, a existência de metano aprisionado entre o manto superior e a crusta oceânica inferior, permite redimensionar a visão das fontes hidrotermais como um alavancar na origem das primeiras formas de vida no planeta. Numa dualidade de risco e elementaridade, todas as partículas que constituem o Universo são incontornavelmente fundamentais à vida das esferas terrestres.