O assombroso poder do Sol

Atravessamos uma era interglaciar, precedente de um novo arrefecimento, e sendo o clima do planeta um sistema não-linear, incrivelmente delicado, com múltiplos componentes, cuja variabilidade temporal oscila de minutos a milénios, é premente perceber a sua inconstância. Saiba mais aqui.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 07 Ago. 2019 - 12:39 UTC
A relação do efeito da irradiância e da absorção de UV com a química e a dinâmica da atmosfera, afetam o clima do planeta.

Anualmente, o planeta percorre um trajeto elíptico em torno do Sol, posicionando-se em diferentes distâncias, as quais, cumulativamente com a inclinação do eixo de rotação da Terra em relação à sua órbita, possibilitam a ocorrência de quatro épocas com características climáticas diferentes, uma vez que, a radiação emitida pelo Sol, afeta a atmosfera superior e o clima da Terra.

Considere-se que o sistema acoplado oceano – atmosfera responde de maneira diferenciada aos inputs energéticos provenientes do Sol. Apesar da oscilação da temperatura superficial do planeta ser a manifestação mais evidente de mudanças em curso no clima, não deve contudo ser depreciado que, devido a uma resposta diferenciada pelos diversos sistemas atmosféricos à escala regional, tal como a frequência de precipitação, o calor, a temperatura, não se distribuem uniformemente pelo globo.

Isto é, para além de alterações na atmosfera solar, as variações na insolação e as mudanças na distribuição latitudinal da radiação, relacionam-se com a movimentação do planeta ocorrida entre o seu perigeu e apogeu. Mudanças orbitais, os ciclos de Milankovitch que causam variações de radiância de até 25% durante longos períodos, tendo o mais recente evento significativo, a inclinação axial de 24°, ocorrido durante o verão boreal, decorria o ótimo climático do Holoceno, entre os anos 7000 a.C. e 3000 a.C, altura em que com temperaturas superiores até 3⁰C (em relação às atuais), o gelo sobre o Oceano Árctico era naturalmente muito menor.

Será o clima assim tão influenciável pelo Sol?

A radiação solar transmitida sob a forma de radiação eletromagnética e o poder da energia, sob efeito de luz, que chegam ao planeta Terra, possibilitam a fotossíntese que alicerça a vida dos reinos animal e vegetal, assim como, esculpe a litosfera por ser o agente que alimenta a ação, quer de fenómenos atmosféricos, quer de mecanismos tectónicos.

Senão vejamos, além da composição química da atmosfera, dos efeitos do vulcanismo, do comportamento da temperatura dos oceanos, de mudanças na órbita da Terra e variações nas inclinações orbitais, e do imprescindível mecanismo que personifica o efeito de estufa, adicionemos ao teorema dos padrões climáticos, incontornáveis, incontroláveis e impercetíveis movimentos que ocorrem a todo o momento nos elementos constituintes do planeta e que, no seu conjunto, redefinem topografias e recalibram climas.

As árvores pela assimilação de CO₂ estabelecem um registo de C14 que indica mudanças na taxa de produção e variações no fluxo magnético.

Falamos de uma tríade: gelo, terra e manto, que influi com a oscilação do eixo de inclinação da Terra, um processo a decorrer há cerca de 16 mil anos, desde o final da última era glaciar. Trata-se pois, de um ajuste isostático, considerando que a distribuição da massa ao redor do planeta determina a sua rotação. Ou seja, é uma dinâmica que acontece ciclicamente, devido à ocorrência simultânea, quer do derretimento de calotes polares, as quais levam ao aumento do nível do mar, quer à expansão ascendente ("efeito colchão") das massas de terra, por serem aliviadas de peso à medida que os glaciares recuam, quer à lenta rotação do manto, através do processo de convecção, em que ocorre a ascensão do material mais quente e mais perto do núcleo, por afundamento do material mais frio.

A cada 20 mil anos a luz solar varia na intensidade com que chega ao planeta

O resultado desta permanente interação, pode ser asseverado por alterações ocorridas numa região que ocupa o segundo lugar no ranking de maior deserto do planeta, os cerca de 56 mil km² que ocupam a área entre o paralelo 37⁰N e 34⁰S do continente Africano, o deserto do Sahara.

Ora, há cerca de 7 a 10 mil anos atrás, o árido, quente e inóspito deserto do Sahara, no norte da África, era uma região com biomas tão díspares como savanas e densas florestas. Era o lar de caçadores e coletores que viviam de vários animais e plantas, sustentados por massas de água permanentes, as quais, devido aos ventos das monções sazonais, que traziam intensas chuvas, mantinham a terra fértil. Contudo, uma alteração na inclinação do eixo do planeta, ocorrida há cerca de 10 mil anos, transformou radicalmente a região.

Por consequência da precessão, do movimento de inclinação do planeta, uma mudança ocorrida no eixo de rotação durante a órbita do Sol, impactou com a poderosa Monção Oeste Africana. Um sistema meteorológico que, além de se caracterizar por ventos que propiciam intensa precipitação numa parte do ano, por contraste com secas rigorosas noutra, é capaz de influir em padrões climáticos como o da Amazónia tornando-o mais seco, e o do Ártico mais quente! E o que aconteceu para nascer o deserto do Sahara, foi que, devido a uma intensa incidência solar, o sistema MOA foi forçado a deslocar-se mais para Sudoeste e transformando o Norte de África numa imponente região árida. Contudo, e porque o mecanismo climático do planeta é uma cíclica (in)constante calibragem, o Sahara voltará a ser verde!

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