Esta fotografia incrível esconde um invulgar mínimo solar

Esta foto de Rainee Colacurcio deu a volta ao mundo. Por captar a Estação Espacial Internacional, sim, mas a nível científico é muito significativa: o Sol não mostra nenhuma mancha solar.

Alfredo Graça Alfredo Graça 04 Ago. 2019 - 19:07 UTC
Foto de Rainee Colacurcio com o Sol sem manchas solares e a Estação Espacial Internacional, no canto inferior esquerdo.

Esta imagem deslumbrante, tirada em plena luz do dia pela fotógrafa Rainee Colacurcio, mostra o quão insignificante a Estação Espacial Internacional (ISS em inglês) realmente é. Uma das suas fotografias foi recentemente revelada no Astronomy Picture of the Day (APOD).

A fotografia de Rainee Colacurcio que abre esta notícia captou o interesse de vários meios de comunicação social em relação ao Sol. Trata-se de uma fotografia insólita, não pela presença da Estação Espacial Internacional – no canto inferior esquerdo -, mas sim pela ‘limpeza’ do astro-rei. A NASA imediatamente pronunciou-se sobre o assunto: “Por razões ainda não entendidas completamente, o número de manchas solares ocorridas no atual mínimo solar tem vindo a ser invulgarmente baixo”.

A atividade solar tem decaído nos últimos 5 anos, depois do máximo alcançado em 2014. Isto manifesta-se dentro do comportamento natural e cíclico do Sol, que apresenta dois picos opostos de intensidade em ciclos de onze anos, quase como um relógio. No entanto, os peritos têm vindo a observar que nos últimos mínimos o astro-rei praticamente não mostrou manchas e, agora, começam a possuir provas de que o atual poderá não inverter-se até dentro de três décadas, concretamente até ao ano 2055. Algo semelhante ao que aconteceu entre 1645 e 1715 com o mínimo de Maunder, que coincidiu com o período mais frio da Pequena Idade do Gelo (PIE).

No final do mês de junho, a Universidade de Northumbria publicou um estudo na Nature que compara os atuais comportamentos que o Sol está a mostrar com os ocorridos no século XVII, e concordam. Por isso não têm dúvidas em prognosticar “um mínimo moderno semelhante ao de Maunder” já nas próximas décadas, começando já em 2020. Os autores da investigação encontraram “semelhanças notáveis” entre os padrões das manchas solares vistas recentemente e os que foram ‘antepassados’ dos mínimos de Maunder, Wolf (1600), Oort (1010-1050) e Homer (800-900 a.C).

Os mínimos solares normais têm uma influência insignificante na dinâmica climática, mas quando são mais longos, e abrangem várias décadas, podem sim induzir períodos algo mais frios e violentos, como sucedeu na PIE. Nessas décadas ‘glaciares’ a Europa teve de enfrentar vagas de frio intensas, nevões enormes, chuvas torrenciais e secas, num turbilhão frenético. Se se cumprir esse cenário a foto de Colacurcio seria marcante nesta era.

Como obteve Rainee tal imagem?

Usando uma lente de hidrogénio-alfa, apta para nos auxiliar na observação do sol em toda a sua glória resplandecente, Colacurcio foi capaz de captar a ISS no preciso momento em que passou entre a Terra e o fascinante centro do nosso Sistema Solar. Surgindo como uma mancha escura no canto do ‘círculo’, a silhueta em forma de H da estação mal pode ser concebida com o fundo em chamas. Mesmo que de início aparente ser uma mancha solar, é demasiado escura para ser confundida com uma.

Imagens como esta são bem difíceis de captar. Como a ISS orbita a Terra a cada 90 minutos, a passagem da estação através do Sol deve ser perfeitamente cronometrada. Neste caso, a imagem foi montada usando duas fotos que foram tiradas simultaneamente: uma da estação espacial que oscila em torno do Sol e a outra da superfície do Sol.

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