Novo estudo revela como se pode melhorar a previsão climática sazonal com recurso a tubarões
A colocação de transmissores por satélite em animais é uma forma comum de os estudar e de rastrear os seus padrões migratórios, mas alguns cientistas perceberam que podem fazer muito mais do que isso.

Um estudo publicado recentemente na Nature-Climate and Atmospheric Science veio demonstrar, uma vez mais, a importância da colaboração interdisciplinar, neste caso entre a biologia, a oceanografia e a ciência climática.
Obtenção de dados do oceano através de tubarões
Tudo começou, há uns anos, quando o antigo cientista de tubarões da Escola Rosenstiel, Neil Hammerschlag, e o cientista atmosférico Ben Kirtman, através da colocação de transmissores por satélite em tubarões, a fim de estudarem estes animais e obterem dados de observação do oceano, chegaram à conclusão que os dados obtidos sobre os oceanos poderiam beneficiar também a modelação climática.
Estas observações do oceano poderiam ter uma grande vantagem, atendendo que os sistemas de observação convencionais não captam frequentemente a variabilidade de pequena escala em regiões oceânicas dinâmicas.
Numa investigação recente, Laura H. McDonnell, investigadora na Instituição Oceanográfica Woods Hole (WHOI), juntamente com outros cientistas, liderou uma equipa que fixou sensores nas barbatanas dorsais de 18 tubarões-azuis (Prionace glauca) e um tubarão-mako-de-barbatana-curta (Isurus oxyrinchus) no Atlântico Noroeste.
Obtiveram-se, assim, inúmeros dados especialmente das zonas dinâmicas do oceano, tais como frentes e vórtices, dado que estes predadores marinhos procuram naturalmente estas zonas dinâmicas do oceano, zonas onde existe uma lacuna de dados convencionais.
Os tubarões-azuis, em particular, podem mergulhar a profundidades até quase 2000 metros, o que significa que experimentam frequentemente variações de temperatura até 20 °C.
Os sensores acoplados aos tubarões registaram a profundidade e a temperatura à medida que se deslocavam pelo oceano, os satélites recolhiam e transmitiam estes dados de alta resolução em tempo quase real.

Embora os dados estivessem concentrados na costa leste dos EUA, a norte da Virgínia, os tubarões percorreram áreas tão a sul como a Florida e até ao meio do Atlântico.
Os autores do estudo realçam que os sensores acoplados em animais não substituem os sistemas de observação tradicionais, mas são uma ferramenta complementar.
Integração dos dados num modelo climático sazonal
Um subconjunto dos dados obtidos foi integrado no Modelo do Sistema Climático Comunitário da University Corporation for Atmospheric Research (UAAR). Este modelo simula o sistema climático da Terra e permite aos investigadores estudar os estados climáticos passados, presentes e futuros do planeta.
Isto permitiu aos autores do estudo comparar as condições meteorológicas resultantes das previsões dos modelos integrando os dados recolhidos pelos tubarões, bem como aquelas dos modelos tradicionais.
Os dados obtidos pelos tubarões mostraram melhorias mensuráveis no desempenho das previsões, particularmente em regiões costeiras e de plataforma continental dinâmicas, que são importantes para os ecossistemas marinhos e para a pesca.
O desempenho melhorado foi particularmente notável ao longo da plataforma continental pouco profunda, onde reduziu o erro do modelo em 43% em novembro e 33% em dezembro. Isto representou uma precisão de cerca de 1,5°C nas previsões da temperatura da superfície do mar, uma melhoria significativa num ambiente onde pequenas variações de temperatura podem provocar grandes alterações ecológicas.
Para a pesca e as comunidades costeiras, pequenas melhorias nas previsões oceânicas podem fazer uma grande diferença, pois, reduzindo a incerteza da previsão ajuda as pessoas a planear, seja onde pescar, como gerir os recursos ou como responder às mudanças nas condições.

As previsões oceânicas são geralmente menos fiáveis em áreas que mudam rapidamente e onde faltam dados de observação tradicionais, como é o caso das frentes oceânicas e dos vórtices e é nestas zonas que a previsão melhora, pois é onde os tubarões se deslocam mais.
Este estudo demonstra que os dados de temperatura e profundidade recolhidos pelos tubarões marcados podem melhorar a precisão das previsões oceânicas no Oceano Atlântico Noroeste.
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