Neandertais já tratavam cáries com ferramentas de pedra há 60 mil anos
Segundo um grupo de cientistas foi encontrado um molar na Sibéria que sugere que os neandertais realizavam tratamentos dentários primitivos. Fique aqui a saber mais sobre esta descoberta!

Durante décadas, os neandertais foram retratados como humanos primitivos, limitados nas suas capacidades técnicas e intelectuais.
No entanto, uma nova investigação científica vem reforçar uma ideia cada vez mais aceite pela arqueologia moderna: os neandertais eram muito mais sofisticados do que se pensava.
Um estudo recente publicado na revista científica PLOS One revelou evidências de que estes hominídeos realizavam tratamentos dentários complexos há cerca de 59 mil anos.
O molar encontrado na Sibéria
A descoberta baseia-se num molar encontrado na gruta de Chagyrskaya, na Sibéria, pertencente a um neandertal adulto.
O dente apresentava uma cavidade profunda e invulgar, localizada na zona afetada por uma infeção dentária severa.
À primeira vista, os investigadores pensaram tratar-se de uma fratura natural. Contudo, análises microscópicas revelaram algo surpreendente, marcas paralelas e sulcos em forma de “V”, típicos da utilização deliberada de ferramentas de pedra rotativas.
Segundo os autores do estudo, estas marcas indicam que o dente terá sido perfurado intencionalmente para remover tecido afetado pela cárie e aliviar a dor causada pela infeção.
Conhecimento de procedimentos médicos
Para confirmar a hipótese, os cientistas reproduziram a técnica utilizando pequenas ferramentas de jaspe semelhantes às encontradas no mesmo sítio arqueológico. O resultado foi praticamente idêntico às marcas observadas no molar original.

Os testes demonstraram ainda que o procedimento não seria simples. Perfurar um dente humano com instrumentos de pedra exigia coordenação motora fina, precisão e bastante tempo.
Em alguns casos, os investigadores estimam que o processo poderia durar entre 35 e 50 minutos, tudo isto sem qualquer tipo de anestesia.
Até agora, o exemplo mais antigo pertencia a humanos modernos que viveram em Itália há cerca de 14 mil anos.
Descoberta da Pré-história
A nova descoberta sugere que os neandertais já dominavam práticas médicas muito antes do aparecimento dessas técnicas em populações de Homo sapiens.
Os investigadores acreditam que este tratamento não era apenas uma ação improvisada. O facto de a cavidade apresentar sinais de manipulação cuidadosa indica que os neandertais compreendiam a origem da dor dentária e procuravam soluções concretas para a aliviar.

Além disso, o indivíduo parece ter sobrevivido algum tempo após a intervenção, o que sugere que o procedimento teve algum sucesso.
Esta descoberta junta-se a outras evidências que têm vindo a alterar profundamente a imagem tradicional dos neandertais.
Nos últimos anos, estudos arqueológicos mostraram que produziam ferramentas complexas, utilizavam pigmentos, cuidavam de indivíduos feridos e possivelmente recorriam a plantas medicinais.
A arqueológia continua a reescrever a história humana
Alguns investigadores defendem até que tinham formas de pensamento simbólico e estruturas sociais organizadas.
A existência de tratamentos dentários tão antigos levanta também novas questões sobre transmissão de conhecimento dentro destas comunidades.
Uma intervenção deste tipo exigiria experiência, observação e talvez até aprendizagem entre gerações.
Embora seja impossível saber exatamente como o procedimento era realizado, os cientistas admitem que pode ter havido indivíduos com funções específicas relacionadas com cuidados de saúde.
Mais do que um simples detalhe arqueológico, o molar de Chagyrskaya ajuda a reescrever parte da história da medicina humana.
A ideia de que apenas o Homo sapiens desenvolveu capacidades técnicas avançadas está a perder força perante evidências cada vez mais sólidas de inteligência e adaptação entre os neandertais.
Referência do artigo:
Alisa V. Zubova, Lydia V. Zotkina, John W. Olsen, Alexander M. Kulkov, Vyacheslav G. Moiseyev, Anna A. Malyutina, Roman V. Davydov, Sergey V. Markin, Eugene A. Maksimovskiy, Pavel V. Chistyakov, Andrey I. Krivoshapkin, Ksenia A. Kolobova "Earliest evidence for invasive mitigation of dental caries by Neanderthals" PLOS ONE, 2026
Não perca as últimas notícias da Meteored e desfrute de todo o nosso conteúdo no Google Discover totalmente GRÁTIS
+ Siga a Meteored