O megatsunami de Tracy Arm: como o recuo glaciar desencadeou uma onda de 481 metros no Alasca

Quando a montanha cai: o segundo maior tsunami da história moderna sacode o Alasca. Saiba mais aqui!

Com 481 metros de inundação vertical, este tsunami foi o segundo maior alguma vez registado na história moderna.
Com 481 metros de inundação vertical, este tsunami foi o segundo maior alguma vez registado na história moderna.

Nas primeiras horas do dia 10 de agosto de 2025, o fiorde Tracy Arm, situado no Alasca, foi palco de um desastre natural de proporções históricas.

Um colossal deslizamento de terra rochosa atingiu a água e gerou um megatsunami com uma altura máxima de inundação de 481 metros na encosta oposta.

Este fenómeno constitui o segundo maior tsunami documentado na história moderna, sendo superado apenas pelo tsunami de Lituya Bay em 1958, que alcançou os 530 metros.

As causas e fatores desencadeantes

A derrocada foi precondicionada pelo acelerado recuo e adelgaçamento do Glaciar South Sawyer. Investigações de atribuição climática demonstram que as temperaturas de verão na região registaram um aumento de 1,1 °C desde o início da era industrial (~1875), sendo este aquecimento de origem inteiramente antropogénica.

Este aquecimento elevou a linha de neve e destabilizou as encostas costreiras. O degelo acelerado removeu o suporte mecânico da encosta rochosa, deixando as íngremes paredes do fiorde vulneráveis.

O volume de rocha subaérea inicialmente mobilizado foi de, pelo menos, 64 milhões de metros cúbicos, embora análises da força sísmica indiquem que a massa total em movimento — incluindo material submarino e água deslocada — possa ter ascendido a cerca de 142 milhões de metros cúbicos.

Consequências ambientais e relatos de testemunhas

A onda inicial propagou-se pelo fiorde a uma velocidade superior a 70 m/s, destruindo completamente a vegetação e criando uma linha de demarcação permanente visível do espaço, descrita pelos cientistas como um "anel de banheira" ao redor do fiorde.

A Ilha Sawyer, situada a 9 km de distância do colapso, foi quase totalmente desprovida da sua floresta, sobrevivendo apenas um pequeno reduto de árvores na zona mais alta. Apesar de a região ser intensamente frequentada por navios de cruzeiro, o evento não causou vítimas mortais, configurando um "quase acidente" de extrema gravidade.

Ainda assim, os impactos locais foram severos: um grupo de canoístas acampado na Ilha Harbor (a 55 km do local) viu os seus caiaques e equipamentos serem levados pela inundação, enquanto barcos turísticos nas proximidades testemunharam correntes violentas e subidas abruptas de até 3 metros no nível da água.

Propagação sísmica e a oscilação

O impacto gerou ondas sísmicas detetadas globalmente, equivalentes a um sismo de magnitude 5,4. Adicionalmente, a energia do deslizamento gerou uma oscilação contínua e rítmica da massa de água retida no interior do fiorde que persistiu por cerca de 36 horas.

Os modelos climáticos confirmaram que o aumento de 1,1 °C na temperatura daquela região desde 1875 é 100% culpa da atividade humana.
Os modelos climáticos confirmaram que o aumento de 1,1 °C na temperatura daquela região desde 1875 é 100% culpa da atividade humana.

Esta ressonância de longo período (~66 segundos) atuou como uma força oscilatória contínua, marcando apenas a segunda vez na história que a ciência regista um seiche gerado por deslizamento capaz de produzir um sinal sísmico global com dias de duração (à semelhança do evento de Dickson Fjord, na Gronelândia, em 2023).

Perspetivas futuras e monitorização

O turismo de cruzeiros no Alasca expandiu de forma acentuada, com o número anual de passageiros a saltar de aproximadamente 1 milhão em 2016 para 1,6 milhões em 2025.

Uma vez que as alterações climáticas tornam estes colapsos de encostas mais prováveis, os cientistas sugerem o uso de algoritmos de monitorização sísmica de banda estreita para identificar respostas harmónicas nos fiordes. Esta técnica surge como uma via promissora para o desenvolvimento de sistemas automatizados de alerta precoce em tempo real para proteger navios e comunidades costeiras

Referência da notícia:

Dan H. Shugar et al., A 481-meter-high landslide-tsunami in a cruise ship–frequented Alaska fjord. Science 0, eaec3187 DOI:10.1126/science.aec3187

https://www.universetoday.com/articles/before-and-after-the-2025-tsunami-in-alaska

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