Não foram uma, duas nem três: seis novas espécies de aranhas descobertas na Serra de Grândola

Para alguém com aracnofobia, a revelação pode até ser aterradora, mas para a ciência, é um sinal claro de que a biodiversidade portuguesa ainda tem muito por desvendar.

Trabalhos de campo da equipa do CE3C, na Herdade de Ribeira Abaixo, em Grândola. Foto: Fernando Ascensão/CE3C
Trabalhos de campo da equipa do CE3C, na Herdade de Ribeira Abaixo, em Grândola. Foto: Fernando Ascensão/CE3C

Entre folhas, pedras e galhos caídos, na Herdade da Ribeira Abaixo, em Grândola, seis espécies de aranhas nunca antes descritas aguardavam o momento de serem descobertas.

A revelação só agora chegou ao público, mas o trabalho começou muito antes, com longas horas de recolha e observação no campo da equipa do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), da Universidade de Lisboa.

A Herdade da Ribeira Abaixo é uma estação de investigação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com uma rara diversidade biológica. Naqueles terrenos, sensores registam variações de temperatura e humidade do solo e armadilhas discretas capturam pequenos organismos para estudo.

Miguel Sousa, Rui Rebelo e Pedro Cardoso: três dos investigadores do CE3C que descobriram as novas espécies de aranhas em Grândola. Foto: CE3C/Universidade de Lisboa
Miguel Sousa, Rui Rebelo e Pedro Cardoso: três dos investigadores do CE3C que descobriram as novas espécies de aranhas em Grândola. Foto: CE3C/Universidade de Lisboa

Foi neste ambiente, entre tecnologia e natureza selvagem, que a equipa do projeto Avaliação de Biodiversidade em Pequenas Escalas (BASS), dedicada a compreender como os micro-habitats influenciam a biodiversidade, encontrou os espécimes que viriam a surpreender os especialistas. O objetivo do trabalho de campo era, essencialmente, entender como pequenas diferenças no ambiente moldam a vida de organismos quase invisíveis a olho nu.

Da recolha no terreno ao trabalho minucioso no laboratório

A fase inicial envolveu 12 especialistas, cada um responsável por recolher amostras em pontos específicos da herdade. A verdadeira revelação, porém, só começou quando o material chegou ao laboratório.

Entre frascos, lupas e microscópios, Pedro Cardoso e Miguel Sousa, ambos investigadores do CE3C, iniciaram um processo exigente que ainda está longe do fim.

Cada aranha precisa agora de ser medida, desenhada e comparada com espécies já descritas em artigos científicos. Só depois será possível confirmar oficialmente que se trata de organismos novos para a ciência.

O trabalho exige paciência e precisão. Muitas das diferenças que distinguem estas aranhas são quase impercetíveis. A disposição dos olhos, o formato das fieiras que produzem teia ou a estrutura das pernas podem ser suficientes para separar espécies aparentadas.

Algumas medem apenas dois ou três milímetros, outras chegam aos quinze, mas todas implicam uma concentração absoluta. Cada detalhe conta para que a descrição seja rigorosa e aceite pela comunidade científica.

Seis espécies, quatro géneros e um traço surpreendente

Embora ainda não tenham nome, os investigadores já sabem a que géneros pertencem. Duas das espécies integram o género Dysdera, conhecido pelas aranhas de tenaz que se alimentam de bichos-de-conta.

Durante os próximos meses, as aranhas vão ser detalhadamente estudadas em laboratório para se confirmar que pertencem a novas espécies. Foto: CE3C
Durante os próximos meses, as aranhas vão ser detalhadamente estudadas em laboratório para se confirmar que pertencem a novas espécies. Foto: CE3C

Outras duas pertencem ao género Harpactea, mais pequenas e escuras, com movimentos elegantes e discretos. Há ainda uma espécie do género Pelecopsis, cujos membros são típicos caçadores furtivos que se movem sem serem notados.

A última pertence ao género Scytodes e destaca-se por um comportamento singular. Estas aranhas projetam teia misturada com veneno para imobilizar presas, um método que inspirou a criação do Homem-Aranha, o super-herói da banda desenhada.

A diversidade encontrada num único local suscita questões fascinantes sobre a evolução destas espécies. Os investigadores acreditam que a Serra de Grândola pode ter sido, ao longo de milhares de anos, uma espécie de ilha isolada.

O microclima e o isolamento geográfico da Serra de Grândola permitiram uma evolução distinta de certas espécies. Fotos: Miguel Sousa/CE3C
O microclima e o isolamento geográfico da Serra de Grândola permitiram uma evolução distinta de certas espécies. Fotos: Miguel Sousa/CE3C

A separação de outras populações terá permitido que organismos com origem comum seguissem caminhos evolutivos distintos. Essa hipótese ajuda a explicar por que razão espécies tão próximas apresentam características únicas e reforça a importância científica da herdade.

Um território isolado com tesouros por revelar

A descoberta destas seis espécies mostra como áreas aparentemente comuns podem guardar tesouros biológicos ainda por revelar. E também evidencia a relevância de projetos que estudam organismos de pequenas dimensões, muitas vezes ignorados apesar do papel essencial que desempenham nos ecossistemas.

Para Pedro Cardoso e Miguel Sousa, cada nova espécie é uma peça adicional num puzzle muito maior, que ajuda a compreender como a vida se adapta a variações quase impercetíveis no ambiente.

: Embora os resultados tenham sido divulgados só agora, o trabalho de campo na Herdade da Ribeira Abaixo, em Grândola, começou muito antes, em 2024. Foto: CE3C
: Embora os resultados tenham sido divulgados só agora, o trabalho de campo na Herdade da Ribeira Abaixo, em Grândola, começou muito antes, em 2024. Foto: CE3C

O trabalho continuará nos próximos meses, até que as descrições estejam completas e os nomes escolhidos. Quando isso acontecer, a Herdade da Ribeira Abaixo ganhará um novo destaque no mapa da investigação em biodiversidade. E seis pequenas aranhas, antes invisíveis para a ciência, passarão a ocupar o lugar que lhes pertence na história natural de Portugal.

Referência do artigo:

Hugo Séneca. Como investigadores do CE3C descobriram seis espécies de aranhas desconhecidas na Herdade de Ribeira Abaixo. Universidade de Lisboa

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