Milhões de pessoas adicionais poderão enfrentar a pobreza até 2030 devido às alterações climáticas
Diferentes estudos sobre as alterações climáticas e o seu impacto na pobreza, na criação de mais desigualdades e no aumento de mortes a nível global, apresentam um quadro sombrio e inegável das consequências devastadoras das alterações climáticas.

Num estudo recente publicado na Nature Climate Change, investigadores de diferentes instituições revelaram as consequências gritantes e quantificáveis do aquecimento global sobre a pobreza e a desigualdade a nível subnacional.
Quantificação dos efeitos das alterações climáticas na pobreza
Neste estudo, os autores utilizaram uma combinação de modelos climáticos avançados e análises económicas, para chegarem à previsão mais detalhada, existente até agora, sobre como o aumento das temperaturas poderá aumentar a pobreza e ampliar o fosso da desigualdade em diversas regiões até 2030.
Recorrendo ao Sexto Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, CMIP6, que fornece projeções climáticas para compreender as alterações climáticas passadas, presentes e futuras e aos dados climáticos históricos do ECMWF (Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo) foi possível comparar as temperaturas futuras projetadas com as médias de referência de 1979 a 2022.
Esse método facilitou uma análise sem precedentes de como os aumentos incrementais da temperatura influenciam os indicadores de pobreza e a desigualdade de rendimentos entre os países e dentro de suas regiões subnacionais.

Os autores recorreram ainda a modelos econométricos de alta resolução para obterem estimativas de base sobre pobreza e desigualdade.
Ao aplicarem estas estimativas às mudanças de temperatura, representaram as alterações nas variáveis climáticas diretamente em resultados socioeconómicos.
O estudo, que foi feito em 130 países, permitiu uma quantificação meticulosa das variações nas taxas de pobreza impulsionadas pela temperatura em vários limiares definidos, utilizando a linha de pobreza diária de US$ 2,15, uma medida rigorosa da pobreza extrema, conforme definido pelos padrões mais recentes do Banco Mundial.
O estudo prevê que, até 2030, as subidas médias de temperatura nos países analisados sejam entre 1,2 e 1,9 0C, em comparação com a linha de base histórica de 1979-2022.
As implicações para os níveis de pobreza são profundas. Um aumento anual de 1 °C na temperatura causa um aumento da pobreza de 0,63 a 1,18 pontos percentuais, o que equivale a um aumento de aproximadamente 8,3% e 15,6% na população em situação de pobreza extrema.
Os países mais pobres, particularmente os da África Subsaariana, são mais vulneráveis, assim como os países com maior participação da agricultura na economia.
Quantificação dos efeitos das alterações climáticas na desigualdade de rendimentos
Além da incidência da pobreza, a investigação também revelou tendências preocupantes em relação à desigualdade de rendimentos, medida pelo índice de Gini, um indicador padrão da disparidade na distribuição de rendimentos.
Os autores alertam que mitigar a subida da temperatura global é, fundamentalmente, uma batalha contra o agravamento das desigualdades sociais, e não apenas um imperativo ambiental.

As estimativas a nível subnacional são maiores do que as que utilizam dados em nível nacional, indicando que a análise agregada pode subestimar os riscos das alterações climáticas.
A escala espacial deste estudo, que analisa a pobreza e a desigualdade em escalas subnacionais, permite uma melhor compreensão dos pontos críticos de vulnerabilidade.
Os decisores políticos munidos destes dados podem identificar regiões onde as pressões climáticas podem agravar a pobreza de forma mais intensa, permitindo investimentos de adaptação direcionados e redes de segurança social. Isso contrasta com análises mais grosseiras a nível nacional, que muitas vezes mascaram disparidades internas significativas.
Este estudo representa um salto à frente em termos de precisão, permitindo recomendações de políticas mais personalizadas e localizadas baseadas nas realidades regionais e subnacionais.