Sobras da limpeza florestal vão aquecer as típicas casas transmontanas

A povoação de Tresminas, em Vila Pouca de Aguiar, vai contar em breve com uma central de biomassa para fornecer energia. Se for bem-sucedido, o projeto poderá ser replicado em Arcos de Valdevez e na Galiza.

Tresminas é uma povoação transmontana com três dezenas de famílias que vai usar resíduos florestais para aquecer as casas. Foto: Aldeias de Portugal
Tresminas é uma povoação transmontana com três dezenas de famílias que vai usar resíduos florestais para aquecer as casas. Foto: Aldeias de Portugal

Para os cerca de 300 habitantes da aldeia de Tresminas, em Vila Pouca de Aguiar, o inverno não é para brincadeiras. As temperaturas médias andam à volta dos 6-8 °C, podendo as mínimas descer até aos -2 °C. Só apetece mesmo ficar junto à lareira a ouvir a lenha a crepitar.

Em Tresminas, no distrito de Vila Real, o casario em pedra granítica e xisto é o isolante térmico que, há incontáveis gerações, aquece as noites frias da Serra da Padrela. Mas, em breve, esta aldeia típica de Trás-os-Montes vai contar com mais um trunfo para enfrentar as temperaturas extremas.

As casas nesta freguesia vão ser aquecidas através de uma central de biomassa que reaproveita as sobras da limpeza florestal para gerar calor.

As obras arrancaram em fevereiro e inserem-se num projeto pioneiro, que envolve ainda uma aldeia de Arcos de Valdevez, no distrito de Viana do Castelo, e as comunidades espanholas de Monte Rei e de Cerdedo-Cotobade, na região autónoma da Galiza.

Tresminas, uma inspiração para o interior do país

Denominado Aldealix, o programa internacional visa tornar Tresminas numa aldeia-modelo, que, a ser bem-sucedida, poderá inspirar outras povoações do interior de Portugal e de Espanha.

O intuito é implementar o programa em Treminas antes do próximo inverno para depois replicar o modelo em outras povoações rurais.

O Município de Vila Pouca de Aguiar quer replicar o projeto de Tresminas noutras freguesias rurais. Foto: Aldeias de Portugal
O Município de Vila Pouca de Aguiar quer replicar o projeto de Tresminas noutras freguesias rurais. Foto: Aldeias de Portugal

A 16 quilómetros da sede de concelho, Tresminas tem cerca de três dezenas de famílias, com uma população envelhecida e dependente do turismo industrial e mineiro associado às minas de ouro do tempo da ocupação romana.

A riqueza de uma floresta de castanheiros

A aldeia está rodeada por uma extensa área florestal, com um papel importante na economia regional, com destaque para a reconhecida castanha da Padrela. Fique, já agora, a saber que é nesta região que se encontra a maior mancha contínua de Castanheiros de castanha judia em toda a Península Ibérica.

Esta variedade é amplamente reconhecida pela sua excelente qualidade para o consumo, distinguindo-se ainda como um símbolo da gastronomia outonal portuguesa. Com este projeto pioneiro da aldeia de Tresminas, no entanto, as florestas vão passar também a fornecer uma fonte relevante de energias renováveis.

Com a implementação da central de biomassa, a autarquia pretende valorizar e potenciar o uso dos recursos florestais. O intuito passa essencialmente por fomentar as comunidades energéticas, suportadas em redes colaborativas de calor.

O que se espera, no final do projeto, é avançar rapidamente para uma transição ecológica, adaptada às alterações climáticas e resiliente aos fogos rurais.

Ao promover a sustentabilidade das aldeias serranas, a expectativa é atrair também novos residentes até às zonas rurais para contrariar a tendência de desertificação no interior do país.

Um projeto a unir o Norte de Portugal à Galiza

O projeto, liderado pela Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, envolve ainda a Agência Galega de Desenvolvimento Rural num modelo comum de gestão para a central de biomassa, com uma rede transfronteiriça que irá promover o uso de energia a partir de resíduos florestais.

Ao usar resíduos florestais para gerar calor, Tresminas está a acelerar a transição energética e também a proteger a Serra da Pardela dos fogos rurais. Foto: Aldeias de Portugal
Ao usar resíduos florestais para gerar calor, Tresminas está a acelerar a transição energética e também a proteger a Serra da Pardela dos fogos rurais. Foto: Aldeias de Portugal

Tresmina, em especial, contará com um investimento total superior a 400 mil euros, dos quais cerca de 300 mil são financiados pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (Feder), sendo a restante verba comparticipada pelo município. Os trabalhos vão avançar em várias fases, começando com as ligações da central às dez habitações da aldeia.

A empreitada irá prosseguir depois para as restantes casas, prevendo-se que a conclusão possa acontecer antes do inverno do próximo ano.

Segundo a autarquia, o sistema irá funcionar em regime de condomínio, permitindo que os moradores paguem somente pela matéria-prima utilizada na climatização das casas.

Se o projeto se revelar um sucesso, o modelo poderá ser replicado noutras freguesias rurais de Vila Pouca de Aguiar, bem como em outros pontos do país interessados em diversificar os usos dos recursos florestais e, simultaneamente, promover o conforto térmico das comunidades rurais.