Medicina verde: o que diz a ciência sobre a “prescriç��o da natureza” para cuidar da saúde

Numa época dominada pelo frenético ritmo do mundo digital, recuperar o contacto ativo com a natureza, outrora normal para o ser humano, pode ajudar a reduzir o stress, ansiedade e outros problemas de saúde psicológica e emocional. Conheça algumas destas práticas.

Caminhar na natureza por duas ou três horas de uma forma sensorial, lenta e consciente, pode ser o suficiente para permitir o relaxamento e diminuir diversos sintomas de stress, ansiedade, entre outros.
Caminhar na natureza por duas ou três horas de uma forma sensorial, lenta e consciente, pode ser o suficiente para permitir o relaxamento e diminuir diversos sintomas de stress, ansiedade, entre outros.

Num mundo cada vez mais dominado pelos ecrãs, há vários elementos indesejáveis que se vão agravando: mais sedentarismo, stress e distância do mundo natural.

Atualmente as doenças crónicas continuam a pesar sobre a saúde mundial, e, apesar dos avanços da Medicina, há uma recomendação que persiste nas consultas: mudar o estilo de vida. Mas como fazê-lo quando o próprio ambiente estimula hábitos pouco saudáveis? Talvez uma das respostas esteja onde sempre esteve: no verde, isto é, na natureza.

É neste contexto que surge a chamada “medicina verde”, que utiliza ambientes naturais prescritos pelos médicos e sustentados pela ciência para promover e preservar a saúde. A ideia foi cunhada por Richard Louv que, em 2005, tornou popular o conceito de “transtorno por défice da natureza”, associado aos efeitos de uma vida excessivamente urbana.

Mas porque nos é tão benéfica a natureza? A hipótese da biofilia, proposta por Edward O. Wilson, sugere que o ser humano tem uma predisposição biológica para procurar uma ligação com o mundo natural.

A isto acresce a teoria da restauração da atenção que explica que enquanto o espaço urbano exige concentração constante, a natureza proporciona aquilo a que os cientistas designam por “fascinação suave”: um estado no qual a mente descansa sem esforço, simplesmente observando.

A floresta como uma terapia natural para o ser humano

Um exemplo é o shinrin-yoku (termo japonês para “banhos da floresta”). Não consiste apenas em caminhar, mas sobretudo na imersão sensorial lenta e consciente na floresta. Duas ou três horas e percursos curtos serão capazes de permitir o relaxamento e a ativação do sistema nervoso parassimpático. Diversos estudos associam esta prática à redução do stress e da ansiedade e a melhorias na resposta do organismo.

Não há uma idade certa para os benefícios da "medicina verde". De miúdos a graúdos, idosos e pessoas com doenças do foro cardíaco, todas as faixas etárias são abrangidas pelos benefícios de um contacto mais ativo e frequente com a natureza.
Não há uma idade certa para os benefícios da "medicina verde". De miúdos a graúdos, idosos e pessoas com doenças do foro cardíaco, todas as faixas etárias são abrangidas pelos benefícios de um contacto mais ativo e frequente com a natureza.

Os ambientes repletos de biodiversidade, bem como o silêncio e o contacto com as plantas parecem potenciar estes efeitos. Porém, o uso de dispositivos eletrónicos, música ou ritmos competitivos de marcha podem contrariar os efeitos reparadores.

“Verde” para todas as idades

E não há idade para começar. Crianças e adolescentes expostos mais vezes aos espaços verdes apresentam menos sintomas de ansiedade, depressão e hiperatividade.

Nos idosos, a prioridade dada aos sentidos torna a prática acessível, inclusive sem recorrer a um grande esforço físico. Até mesmo pessoas com doenças cardíacas graves podem beneficiar: vários estudos observaram que, após irem à floresta em várias ocasiões, estes pacientes obtêm reduções em marcadores de stress e inflamação.

No ambiente laboral, pequenas pausas em jardins, parques ou outros espaços verdes podem reduzir o esgotamento e favorecer o desempenho cognitivo. Durante séculos, a natureza fez parte da nossa saúde sem que ninguém lhe chamasse terapia. A ciência lembra-nos que nunca nos devíamos ter afastado dela. Por vezes, algo tão simples como tirar os sapatos e pisar a terra, é também necessário.

Referência da notícia

Lucía Caballero. (2026). Volver a la naturaleza: qué sabemos sobre los efectos de la medicina verde.