Leite de foca: o superalimento marinho que está a surpreender os cientistas
A surpreendente complexidade da leite de foca, rica em açúcares únicos, está a revelar pistas valiosas para futuras inovações na nutrição e na saúde humanas.

Quando pensamos em “superalimentos”, é provável que nos venham à cabeça mirtilos, nozes ou até spirulina. O que ninguém imaginava é que um dos líquidos mais nutritivos e complexos do planeta pudesse vir das focas. Sim, estas simpáticas criaturas marinhas produzem um leite tão rico e tão cheio de moléculas interessantes que os cientistas acreditam que poderá inspirar futuros avanços na saúde humana.
Um grupo de investigadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, analisou detalhadamente o leite materno da foca cinzenta e encontrou algo surpreendente: ela contém mais tipos de açúcares do que o leite humano.
Enquanto o nosso leite materno já era considerado um dos mais complexos do mundo, com centenas de moléculas que ajudam o bebé a crescer e a defender-se de doenças, o leite de foca ultrapassa esse número em grande escala. Foram identificados 332 açúcares diferentes, muitos deles totalmente desconhecidos pela ciência até agora.
Alguns destes açúcares são enormes, com estruturas tão grandes que excedem tudo o que já se observou noutros mamíferos. Isto deixou os investigadores entusiasmados, porque moléculas assim podem ter funções muito específicas e poderosas.
Porque é que as focas têm um leite tão poderoso?
A explicação vem da própria vida das focas. As crias têm apenas duas semanas para engordar o suficiente e sobreviver sozinhas no mar gelado. Durante esse curto período, precisam de ganhar rapidamente energia, gordura e defesas contra micróbios. A natureza respondeu com um leite intenso, super concentrado e cheio de moléculas que ajudam a garantir a sua sobrevivência.
Os açúcares que nele se encontram não servem apenas para dar energia: muitos têm funções antimicrobianas, ajudam a regular o sistema imunitário e favorecem o desenvolvimento da microbiota intestinal, algo semelhante ao que acontece com os bebés humanos, mas até com mais diversidade de compostos.
Mas isto significa que o leite de foca é melhor para humanos?
Não. E ninguém está a sugerir que passemos a beber leite de foca!
O importante aqui não é consumir este leite, mas sim aprender com ele.
Os cientistas querem perceber como estas moléculas funcionam, para depois as recriar em laboratório. A ideia é que possam, no futuro, ser usadas para melhorar fórmulas infantis, tornando-as mais parecidas com a leite materna humana,desenvolver suplementos que reforcem o sistema imunitário.

Podem ainda ser criados tratamentos que apoiem a saúde intestinal e estudar novas formas de proteger o organismo contra bactérias e vírus. É, acima de tudo, uma janela para descobrir soluções naturais que podem inspirar novas aplicações na medicina e na nutrição.
Porque é esta descoberta tão importante?
Até há pouco tempo pensava-se que o leite humano era o campeão absoluto da diversidade de açúcares entre mamíferos. Mas este estudo mostra que não conhecemos ainda toda a variedade de soluções evolutivas criadas pela natureza.
Além disso, o trabalho lembra-nos o enorme valor que existe nas espécies marinhas. Quem diria que um animal aparentemente comum, como uma foca, escondia no seu organismo moléculas totalmente novas para a ciência?
Cada espécie é uma biblioteca viva, e perder uma é perder toda a informação que ela contém.
O que esperar daqui para a frente?
A investigação está apenas a começar. Agora que estas moléculas foram identificadas, os cientistas vão tentar perceber como atuam e se podem ser usadas com segurança em humanos.
Mas uma coisa é certa: este estudo abriu caminho a novas possibilidades, desde uma melhor nutrição infantil até novos tratamentos para reforçar o sistema imunitário.
Referências da notícia
Jin, C., Lundstrøm, J., Cori, C.R. et al. "Seal milk oligosaccharides rival human milk complexity and exhibit functional dynamics during lactation." Nat Commun 16, 10067 (2025).