Investigadores espanhóis descobrem uma ligação crucial no Atlântico para a previsão dos fenómenos do El Niño
Cientistas da Universidade Complutense de Madrid descobrem que o oceano Atlântico pode desempenhar um papel decisivo na previsão do El Niño. Saiba as implicações desta descoberta para os diferentes setores da sociedade à escala global.

E se para antecipar um dos maiores fenómenos climáticos do planeta fosse preciso deitar um olhar por outro oceano? Uma equipa do grupo de investigação TROPA (Universidad Complutense de Madrid e Instituto de Geociencias - IGEO-CSIC) descobriu que o oceano Atlântico pode desempenhar um papel decisivo na previsão do El Niño.
Na contemporaneidade os sistemas de previsão são capazes de antecipar o fenómeno do El Niño com cerca de um ano de antecedência. O novo estudo, publicado na prestigiante Scientific Reports e baseado no modelo ECMWF, mostra que essa janela temporal poderá ser ampliada graças ao Atlântico.
O “irmão mais novo” do El Niño
A peça-chave do estudo é aquilo a que os investigadores designam de “El Niño do Atlântico”, um fenómeno semelhante ao do Pacífico, embora mais modesto, que ocorre no Atlântico equatorial durante o verão do hemisfério norte, cerca de seis meses antes do El Niño do Pacífico. As alterações nos ventos associadas a este fenómeno podem modificar as condições atmosféricas que mais tarde influenciam o Pacífico.
Do Atlântico ao Pacífico “nasce” uma nova janela de previsão, com olhos postos no futuro
Para chegar a esta conclusão, a equipa procedeu à análise de dados de todo o século XX e demonstrou que o acoplamento entre os dois oceanos varia ao longo do tempo, alternando períodos de maior e menor interação. Essa interação foi particularmente mais coesa no início e no final do século passado e os investigadores estimam que poderá voltar a intensificar-se num futuro próximo.
Quando a interação que conecta os dois oceanos está ativa, incorporar informação sobre o Atlântico nos modelos de previsão melhora significativamente a capacidade de antecipar o El Niño do Pacífico. Se os modelos para o Atlântico se tornarem suficientemente precisos, poderá ser possível ultrapassar a atual barreira de previsão de cerca de um ano e meio.

“Para melhorar a previsão global, não basta olhar para o Pacífico; temos de avançar de forma homogénea no acompanhamento e na investigação do Atlântico tropical”, salientam os membros do grupo TROPA, cujo objetivo futuro é continuar a aprofundar estas dinâmicas para aperfeiçoar a previsão sazonal à escala planetária.
O estudo integra a tese de doutoramento de Antonio Robles, orientada por Belén Rodríguez-Fonseca e Teresa Losada, contando ainda com a participação de Magdalena Balmaseda do Centro de Previsão Europeu (ECMWF).
Referência da notícia
Robles-Fernández, A.J., Rodríguez-Fonseca, B., Losada, T. et al.. (2026). Impact of tropical Atlantic on ENSO predictability in SEAS5-20C.
UCM | IGEO-CSIC. (2026). Impacto del Atlántico tropical en la previsibilidad del ENOS en el modelo SEAS5-20C.