Mudanças na previsão a médio prazo: "talvez o El Niño esteja a afetar Portugal mais do que seria de esperar"
As últimas atualizações do modelo europeu mostram um cenário diferente para as próximas semanas, marcado pela alternância entre vários padrões atmosféricos. Esta mudança aumenta a incerteza quanto à evolução do estado do tempo em Portugal.

As previsões do modelo europeu sofreram alterações importantes nos últimos dias e mostram agora um cenário incerto para as próximas semanas. Em vez de um padrão atmosférico claramente dominante, o ECMWF aponta para uma forte alternância entre três regimes: Crista Atlântica, NAO positiva (NAO+) e bloqueio. Esta sucessão poderá traduzir-se em mudanças relevantes no estado do tempo em Portugal.
Do bloqueio à NAO+: o cenário mudou em poucos dias
Cada regime influencia a circulação atmosférica no Atlântico Norte. Numa fase de NAO+, intensifica-se a circulação de oeste, conduzindo as depressões para latitudes mais elevadas e favorecendo condições mais secas no sul da Europa. O bloqueio pode interromper esta circulação e manter configurações durante dias, enquanto a Crista Atlântica corresponde à expansão de altas pressões para norte no Atlântico, alterando a trajetória das depressões.

Há poucos dias, o bloqueio surgia como o padrão dominante nas previsões de médio e longo prazo. As atualizações mais recentes mostram uma mudança de cenário, com a NAO+ a recuperar protagonismo e a Crista Atlântica também a ganhar expressão. Esta alternância poderá estar relacionada com a influência do El Niño, embora não seja possível estabelecer uma relação direta. O aquecimento anómalo das águas do Pacífico equatorial provoca alterações na circulação atmosférica global, cujos efeitos podem estender-se além do Pacífico.

Um sinal compatível com esta influência surge na atividade tropical. O El Niño tende a aumentar o cisalhamento vertical do vento no Atlântico tropical, dificultando a organização e intensificação dos ciclones. O ECMWF projeta uma Energia Ciclónica Acumulada no Atlântico Norte equivalente a apenas 20% a 50% da média climatológica entre meados de setembro e a primeira metade de outubro, enquanto setores do Pacífico apresentam valores superiores ao habitual.
O que poderá significar esta mudança para Portugal?
Em Portugal, esta evolução deverá traduzir-se num cenário quente e seco. Entre 14 e 21 de setembro, o ECMWF prevê temperaturas acima da média, com anomalias próximas ou superiores a 3 ºC em grande parte do território, enquanto a precipitação deverá ficar abaixo do habitual. Em altitude, as anomalias positivas do geopotencial aos 500 hPa revelam uma dorsal, configuração favorável à estabilidade atmosférica.

A partir de 21 de setembro, os mapas começam a mostrar uma mudança, com as anomalias térmicas a diminuírem e o défice de precipitação a tornar-se menos acentuado. Ao longo das semanas seguintes, no início de outubro, as temperaturas deverão aproximar-se dos valores normais, enquanto aumenta o sinal de precipitação.
A alternância entre regimes reduz a confiança numa evolução persistente, deixando o cenário dependente das próximas atualizações do ECMWF.