Foram descobertos novos vírus armazenados num antigo glaciar do Tibete

Cientistas asseguram que encontraram novos vírus na meseta tibetana, alojados dentro de camadas de gelo com 15 mil anos de idade. As alterações climáticas poderão descongelá-los?

Marina Fernández Marina Fernández Alfredo Graça 05 Fev. 2020 - 14:45 UTC
Vírus registos de gelo
Asseguram que encontraram novos vírus na meseta tibetana, alojados dentro de camadas de gelo com 15 mil anos de antiguidade.

Uma equipa de cientistas da Universidade de Nebraska, da Universidade Estatal de Ohio, e do Instituto Genoma Conjunto do Departamento de Energia dos EUA, garantem nesta prepublicação na plataforma bioRxiv.org (pendente da revisão por pares), que encontraram 28 grupos de vírus desconhecidos congelados na meseta tibetana, alojados na camada com 15 mil anos de idade.

A cerca de 6700 metros de altitude, a oeste das montanhas Kunlun na parte chinesa da meseta tibetana, existe uma das camadas de gelo mais antigas da Terra. É a calote glaciária de Guliya, cerca de 200 quilómetros quadrados de crosta de gelo que começou a formar-se antes do final da última idade do gelo. Transforma-se assim num registo dos últimos 130 mil anos da história do nosso planeta, ou mais.

Novos vírus no Tibete
Recolheram duas provas de núcleos de gelo com 50 metros de profundidade da calote glaciária de Guliya.

O grupo de cientistas recolheu duas provas de núcleos deste gelo com 50 metros de profundidade, o que equivale a registos de gelo com 15 mil anos de antiguidade. Para chegar ao núcleo interno do gelo, usaram uma serra esterilizada trabalhando numa sala a -5°C, para raspar as camadas e aceder ao gelo não contaminado. Aplicaram etanol e agua estéril para derreter e lavar mais um centímetro de gelo, utilizando um procedimento de amostragem microbiana e viral ultra limpo. No seu interior encontraram dezenas de bactérias desconhecidas, e conseguiram identificar 33 grupos de vírus dos quais 28 eram novos para a ciência.

O investigador Zhi-Ping Zhong, que lidera este estudo, afirma: “os glaciares do planeta estão a encolher-se rapidamente, e no mínimo isto poderia levar à perda de arquivos virais e microbianos (...) dos regimes climáticos da Terra no passado; no entanto, no pior cenário possível, o derretimento do gelo poderá libertar agentes patogénicos para o meio ambiente”.

Voltar ao passado

Os registos de gelo escondem muitos segredos da história do nosso planeta, podemos descobrir o que acontecia na atmosfera até inclusive meio milhão de anos atrás. Os cientistas começaram a estudar as bactérias encontradas no gelo glaciar desde princípios do século XX, e com maior ênfase desde a década de 1980. Este tipo de investigações, focam-se maioritariamente em conhecer como foi o clima da Terra no passado, através do estudo das comunidades microbianas arquivadas nos glaciares.

Por outro lado, estudou-se muito pouco os vírus no gelo antigo do glaciar, (só há dois relatórios a esse respeito), um estudo foi realizado na Gronelândia com gelo de há 140 mil anos atrás, e outro no núcleo de gelo de Vostok.

Aquecimento global: o despertar de anos depois

Talvez se recordem do surto de antraz numa parte remota da Sibéria em 2016, o qual foi atribuído aos esporos do vírus libertado dos restos de uma rena, enterrados em permafrost durante 75 anos. Naquela altura, uma onda de calor foi a responsável do seu reaparecimento devido às temperaturas altas registadas na zona.

Agora, à medida que se comprova que os glaciares de todo o mundo continuam a diminuir a um ritmo acelerado, o raciocínio que permanece é bastante intuitivo: os vírus e micróbios congelados em tempos antigos poderão vir a ser expostos.

Vírus no gelo tibetano
"O rápido derretimento do gelo que estamos a experienciar devido ao aquecimento global, pode libertar agentes patogénicos para o meio ambiente”, esclareceram os cientistas.

Isto traz duas consequências, por um lado teme-se que se percam para sempre se não forem catalogados a tempo (ou seja, antes que os glaciares derretam); e por outro lado a pior consequência “que o rápido derretimento do gelo que experienciamos devido ao aquecimento global liberte agentes patogénicos para o meio ambiente”, esclareceram os cientistas.

O estudo destes “novos vírus” que faziam parte do nosso planeta há 15 mil anos atrás, é importante porque oferece aos profissionais mais detalhes sobre o clima desse momento, que micróbios e vírus poderiam sobreviver às diferentes condições extremas; e sobretudo poderá ajudar a prevenir futuros surtos de doenças.

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