Deteção sistemática de sismos glaciais no glaciar Thwaites através de ondas de superfície regionais

Ondas regionais revelam 368 sismos glaciais no Thwaites (Antártida), confirmando que o capotamento de icebergues está ligado à aceleração do gelo. Saiba mais aqui!

Este estudo revelou 368 sismos glaciais na Antártida que nunca tinham sido catalogados anteriormente.
Este estudo revelou 368 sismos glaciais na Antártida que nunca tinham sido catalogados anteriormente.

O estudo aborda um mistério persistente na sismologia polar: a aparente raridade de sismos glaciais na Antártida. Enquanto na Gronelândia estes eventos — gerados pelo capotamento (capsizing) de icebergues gigantes — são detetados rotineiramente por redes globais, na Antártida as deteções têm sido historicamente escassas. O artigo coloca a hipótese de que estes eventos existem, mas são demasiado pequenos para serem captados a distâncias teleseísmicas (globais), necessitando de uma abordagem regional.

A metodologia inovadora

Para testar esta hipótese, foi desenvolvido um algoritmo automático focado na deteção de ondas de superfície Rayleigh de período relativamente curto (entre 17 e 25 segundos).

Ao contrário de estudos anteriores que utilizavam redes globais, esta investigação aproveitou a rede de sismógrafos instalada no próprio continente antártico (onshore), analisando dados recolhidos entre 2010 e 2023.

O método baseou-se na coerência dos sinais através da rede regional para identificar eventos que passariam despercebidos no ruído de fundo em estações mais distantes.

Os resultados: um novo catálogo sísmico

A aplicação desta técnica resultou na descoberta de 368 eventos sísmicos, a grande maioria dos quais nunca tinha sido catalogada. Estes eventos possuem magnitudes de onda de superfície (Ms) entre 2 e 3, confirmando que são significativamente menores do que os seus equivalentes na Gronelândia (que chegam a Ms 5).

Foi necessário usar uma rede sísmica local na Antártida para captar estes eventos de magnitude menor (Ms 2-3)
Foi necessário usar uma rede sísmica local na Antártida para captar estes eventos de magnitude menor (Ms 2-3)

A distribuição geográfica destes novos sismos concentra-se fortemente na Antártida Ocidental, especificamente em dois sistemas glaciares críticos: o Glaciar Thwaites e o Glaciar Pine Island.

A dinâmica do Glaciar Thwaites

O Glaciar Thwaites foi responsável por cerca de dois terços das deteções. A análise revelou uma forte correlação temporal entre a frequência dos sismos e a velocidade da língua de gelo do glaciar.

Especificamente, entre 2018 e 2020, observou-se um aumento no número de sismos que coincidiu com episódios de aceleração do fluxo do gelo.

O estudo propõe um mecanismo físico para explicar isto: o enfraquecimento da mistura de gelo marinho (mélange) reduz a força de "apoio" na frente do glaciar. Esta perda de resistência permite que a língua de gelo acelere, o que promove uma maior fragmentação e o consequente capotamento de icebergues.

O Glaciar Thwaites contém gelo suficiente para elevar o nível do mar em cerca de 0,65 metros se derreter totalmente.
O Glaciar Thwaites contém gelo suficiente para elevar o nível do mar em cerca de 0,65 metros se derreter totalmente.

O impacto destes icebergues ao virarem-se gera as ondas sísmicas detetadas. Imagens de satélite validaram esta teoria, mostrando icebergues recém-capotados nas coordenadas exatas dos sismos detetados.

O mistério do Glaciar Pine Island

Em contraste, os sismos detetados no Glaciar Pine Island apresentam um enigma. Embora seja a segunda área mais ativa, os eventos localizam-se perto da linha de base (onde o glaciar assenta na rocha), a dezenas de quilómetros da frente de desprendimento. A localização no interior sugere que o capotamento de icebergues não é a causa, indicando que outros processos glaciológicos ou tectónicos desconhecidos estão a ocorrer nesta região.

O estudo conclui que os sismos glaciais são, de facto, comuns na Antártida, mas possuem características distintas dos da Gronelândia (menor magnitude e duração de força mais curta, cerca de 15 segundos). A investigação sublinha a importância vital de manter e expandir as redes sísmicas locais na Antártida para monitorizar a dinâmica da perda de massa de gelo, essencial para prever a subida do nível do mar num clima em mudança.

Referência da notícia

Thanh-Son Pham. Systematic Detection of Glacial Earthquakes in Thwaites Glacier, West Antarctica, by Regional Surface Waves. ESS Open Archive. August 23, 2025. doi: 10.22541/essoar.175596888.87914182/v1

Göran Ekström et al. ,Glacial Earthquakes.Science 302, 622 624(2003). doi: 10.1126/science.1088057

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