Fenómenos atmosféricos como o Idai: estarão a agravar-se?

Perante um panorama mundial do aumento da frequência de eventos meteorológicos extremos, é crescente o risco a que a Humanidade está cada vez mais exposta a fenómenos como o ciclone Idai.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 31 Mar. 2019 - 18:33 UTC
Em média, por ano, Moçambique é atingido por um a dois eventos meteorológicos extremos.

O Idai nasceu no dia 4 de março, nas extraordinariamente quentes águas do canal de Moçambique, um braço do oceano Índico com cerca de 250 milhas de extensão que separaram Moçambique da ilha de Madagáscar. Tocou a costa de Moçambique em 11 de março, sob forma de (fraca) tempestade tropical, mas inverteu a marcha de volta ao canal para se fortalecer, tendo posteriormente retomado a rota para terra e atingido a cidade da Beira no passado dia 15, estando os seus efeitos ainda “frescos” na memória planetária!

Em sequência deste ciclone que atravessou o continente Africano há 5 dias, as últimas actualizações da ONU estimam mais de mil óbitos e um assustador quantitativo superior a 400 mil desalojados em Moçambique, e mais de 900 mil afetados no vizinho Malawi. Tratam-se de meros números, em contínuo crescendo, mas redutores por ficarem muito aquém da transmissão de uma realidade que ultrapassa o conceito de calamidade.

Ciclicamente, entre outubro e maio, com pico de actividade entre janeiro e março, por efeito da elevada temperatura da superfície oceânica, elevado teor de humidade nos níveis baixos da troposfera e wind-shear ao nível da média e alta troposfera, eclodem no sudoeste do oceano Índico sistemas de baixas pressões, designados de ciclones tropicais.

Com o landfall no passado dia 15, o ciclone Idai atingiu Moçambique com ventos com velocidade superior a 100 km/h, acompanhados de intensa precipitação. Sob um cenário de condições atmosféricas de particular severidade, as inundações estenderam-se numa faixa de 100 km por toda a região centro de Moçambique (Beira), com inerentes cortes de vias de comunicação e desmoronamentos que resultaram na destruição de infraestruturas como pontes. Também o Parque da Gorongosa, a importante reserva da vida selvagem situada a cerca de 150 km da Beira está a ser afectada, mas apesar disso, são os serviços de saúde e segurança do Parque que estão pelas imediações, na frente do resgate e ajuda às centenas de pessoas isoladas pelas flash floods.

As inundações ocorrem com elevado grau de perigosidade, atentando ao número de pessoas afetadas e ao nível de destruição provocado.

O cenário de catástrofe é de uma assustadora realidade, quando se começam a interiorizar relatos de pessoas dentro de casas e escombros, munidas de catanas, na busca do quase nada que ainda possa existir. Crescentemente escasseiam a água potável e alimentos, e para eliminar o iminente risco de colapso face ao volume de água a montante, prevê-se a abertura das comportas das barragens do Zimbabué e Cahora Bassa, ficando as regiões a jusante, ainda mais suscetíveis ao agravamento dos efeitos desta catástrofe meteorológica.

Moçambique está na rota de ciclones?

Efectivamente, trata-se de uma zona geográfica particularmente afetada por desastres naturais, considerando que, além de se encontrar a jusante da maioria das bacias hidrográficas da África Austral, a sua caracterização meteorológica é definida pela influência conjugada dos anticiclones subtropicais do oceano Índico, da zona de convergência intertropical, de depressões térmicas da África Austral e da passagem das frentes frias do sul.

Ainda assim, os eventos meteorológicos ocorrem regularmente por uma inevitabilidade de reorganização do sistema atmosférico. Contudo, o que tem vindo a acontecer é que a atmosfera está a reter mais humidade e, quando a liberta, fá-lo com precipitações mais intensas e com maior pluviometria.

Perante a frequência da ocorrência de eventos meteorológicos extremos, é premente percecionar que a vulnerabilidade do ser humano face aos perigos naturais está correlacionada com a sua capacidade em se preparar, mitigar e recuperar dos impactos decorrentes das catástrofes. Educar e sensibilizar as populações para os perigos, acções e condições de vida adaptativas, é portanto cada vez mais imperativo!

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