Esta é a supervitamina que chegou à costa portuguesa com a alga invasora

Investigadores do Algarve conseguiram isolar da Rugulopteryx okamurae uma vitamina com múltiplos benefícios para a saúde, que até agora só podia ser sintetizada em laboratório.

A Rugulopteryx okamurae veio do Pacífico e está a provocar grandes danos ambientais e económicos na costa portuguesa. Foto: Universidade dos Açores
A Rugulopteryx okamurae veio do Pacífico e está a provocar grandes danos ambientais e económicos na costa portuguesa. Foto: Universidade dos Açores

A Rugulopteryx okamurae, espécie de origem asiática, é a alga invasora que chegou ao sul da Ilha de São Miguel em 2019 e, desde então, alastrou-se pela costa portuguesa, principalmente nos Açores, no Algarve e em Cascais.

Durante a época balneária, as praias só ficam acessíveis porque os municípios removem toneladas de biomassa diariamente. O seu impacto é verdadeiramente preocupante, afetando os setores do turismo e da pesca e reduzindo significativamente a biodiversidade marinha.

O fenómeno levou, inclusive, o Governo a lançar, no verão de 2025, uma estratégia nacional para combater a macroalga invasora que viajou do Pacífico, de onde é originária, até à Europa.

Coordenado pela Agência Portuguesa do Ambiente, um grupo de trabalho, com representantes de universidades, autarquias e entidades ligadas ao setor do mar, procura articular esforços e recursos com vista a monitorizar e controlar a espécie invasora na costa portuguesa.

A praia dos Três Irmãos, em Alvor, é uma das muitas do Algarve que viu a paisagem mudar dramaticamente desde a chegada da alga invasora. Foto: Universidade do Algarve
A praia dos Três Irmãos, em Alvor, é uma das muitas do Algarve que viu a paisagem mudar dramaticamente desde a chegada da alga invasora. Foto: Universidade do Algarve

Os especialistas, no entanto, reconhecem que o problema não desparecerá tão depressa. Enquanto não há uma solução eficaz para a sua eliminação, a alternativa é continuar a remover sistematicamente a alga dos areais e dos fundos marinhos rochosos, minimizando os impactos ambientais e económicos.

A utilidade de uma espécie invasora

O expectável, portanto, é continuar a remover a biomassa acumulada nas praias portuguesas todos os verões. Mas se até agora os resíduos tinham de ser descartados, os investigadores da Universidade do Algarve encontraram finalmente uma utilidade para a Rugulopteryx okamurae.

Nos laboratórios do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), os bioquímicos conseguiram isolar e purificar a vitamina K destas macroalgas.

A vitamina K surge sob várias formas: a vitamina K1 (filoquinona, fitonadiona) que se encontra principalmente nos vegetais; a vitamina K2 (menaquinona), sintetizada por bactérias no trato intestinal de humanos e de animais; e a vitamina K3 (menadiona), um composto sintético que pode ser convertido em K2 no trato intestinal.

A vitamina K1 é lipossolúvel e sintetizada por plantas e bactérias, mas não pode ser sintetizada por humanos e animais. Só através da síntese laboratorial é possível obter seus benefícios.

Múltiplos benefícios da K1

Embora pouco conhecida do público, em geral, a K1 é sobejamente reconhecida na comunidade científica como uma supervitamina. Agindo como um protetor do sistema cardiovascular e ósseo, é também um anti-inflamatório e um antioxidante, ajudando ainda a fixar o cálcio nos ossos.

Esta é, como tal, a primeira utilização possível da alga invasora. Várias outras investigações estão a decorrer, tentando-se retirar vantagens de uma praga que parece ter vindo para ficar.

A Câmara Municipal de Cascais está, por exemplo, a trabalhar com o Instituto Superior de Agronomia e parceiros empresariais para encontrar formas de reutilizar a biomassa recolhida nas estâncias balneares do concelho. Os investigadores estão particularmente focados na utilização da alga para compostagem destinada ao uso agrícola.

Minimizar os impactos da praga

A valorização comercial da alga é apenas uma parte da estratégia nacional para combater os seus efeitos nocivos. As universidades portuguesas procuram investigar o que está na origem da invasão e, ainda, formas eficazes de a controlar.

O Observatório Marinho do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve utiliza tecnologias via satélite para identificar os volumes de algas no mar aberto e antecipar o trajeto até chegar à costa.

Os investigadores do Algarve estão a trabalhar na construção de barreiras, tentando desviar a espécie para outros locais. Estão ainda a testar um sistema de semáforo (verde, amarelo e vermelho) que antecipa as medidas a tomar antes da chegada da alga às praias da região algarvia.

A invasão da Rugulopteryx okamurae no verão está ainda longe de ser controlada, restando por enquanto proceder à sua remoção. Foto: Município de Cascais
A invasão da Rugulopteryx okamurae no verão está ainda longe de ser controlada, restando por enquanto proceder à sua remoção. Foto: Município de Cascais

A presença de Rugulopteryx okamurae apresenta desafios significativos que exigem soluções adequadas para preservar a biodiversidade marinha, o turismo e a pesca. Mas a espécie invasora também pode oferecer oportunidades para indústrias, que mitigam os efeitos ambientais, reduzindo impactos económicos e sociais.

Referência da notícia

Maria Augusta Casaca. Uma vitamina natural retirada de uma alga invasora. TSF