Correr pela natureza sem a destruir: o equilíbrio necessário no Trail Running moderno
O impacto real das corridas de montanha, eis uma perspetiva económica, ambiental e sociocultural.

O trail running em Portugal cada vez tem mais adeptos, eu próprio já participei em algumas provas, preferindo até às corridas de estradas, como não é bom estar no monte junto às giestas e pelos caminhos dos animais?
O tema do trail running em Espanha revela uma dualidade entre o crescimento económico e os riscos de sustentabilidade, desde 2007, Espanha vive um crescimento exponencial na organização de corridas de montanha. Em 2015, registaram-se cerca de 1901 provas, sendo a Catalunha e a Comunidade Valenciana as regiões mais ativas. Este fenómeno concentra-se em municípios com menos de 5.000 habitantes, onde as corridas são utilizadas como ferramentas de dinamização do turismo rural e desenvolvimento económico local.

O caso de Carrícola, uma aldeia de 100 habitantes, exemplifica os benefícios: a prova MIMAMUCA gera uma rentabilidade económica direta (através de restauração e alojamento) e promove a imagem da localidade como destino sustentável e artístico. No entanto, este sucesso traz consigo o desafio de garantir que a atividade não destrua os recursos que a sustentam.
Riscos ambientais e saturação
Embora muitos organizadores promovam uma imagem de desporto ecológico, existem impactos físicos reais como por exemplo:
- Erosão e fauna: A passagem massiva de corredores pode degradar trilhos e perturbar a fauna, especialmente quando as provas coincidem com períodos de reprodução e nidificação (primavera e outono).
- Resíduos: A gestão de resíduos em pontos de abastecimento em zonas remotas é crítica, exigindo regras estritas como o uso de recipientes reutilizáveis pelos atletas.

- Saturação: O excesso de eventos em espaços protegidos, como o Parque Nacional da Serra de Guadarrama, que passou de uma para 40 provas em apenas dois anos, levanta dúvidas sobre a capacidade de carga destes ecossistemas.
Impacto nas comunidades locais
O risco para as comunidades não é apenas ambiental, mas também social. Se, por um lado, as provas geram orgulho e participação voluntária, por outro, a massificação pode alterar o ritmo de vida e sobrecarregar infraestruturas limitadas (estacionamento, acessos). Existe ainda o perigo de a atividade se tornar puramente comercial (77% das provas são organizadas por entidades não federativas), onde o lucro pode sobrepor-se à conservação.
Os estudos sugerem que o trail running só é sustentável se for gerido a pequena escala e com forte planeamento ambiental. O conhecimento profundo da situação (número de corredores e impacto real) é essencial para aplicar medidas corretivas que evitem que o desporto se torne uma "bolha" destrutiva. Para que as montanhas e as comunidades não sejam prejudicadas, o equilíbrio entre a promoção turística e a proteção do meio natural deve ser a prioridade máxima das administrações e organizadores.
Referências da notícia
- Urbaneja, J. S., & Inés Farias, E. (2018). El trail running (carreras de o por montaña) en España. Inicios, evolución y (actual) estado de la situación (Trail running in Spain. Origin, evolution and current situation; natural áreas). Retos, 33, 123-128. https://doi.org/10.47197/retos.v0i33.56462
- https://theconversation.com/el-reto-de-garantizar-que-las-carreras-de-montana-o-trail-running-no-danen-el-medio-ambiente-ni-a-las-comunidades-locales-275706