Efeitos do vulcanismo no clima, história e vida na Terra

Da colossal quantidade de energia armazenada no interior do planeta, ocasionalmente, por ação do vulcanismo ou da subducção refletida pelos sismos, parte dessa energia escapa. O efeito desta dinâmica traduz-se numa contínua mutação das esferas do sistema terrestre. Contamos-lhe mais aqui!

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 18 Dez. 2019 - 13:01 UTC
Vulcanismo personifica os processos através dos quais lava, gases e piroclastos chegam à superfície, provenientes do interior do planeta.

Os vulcões potenciaram a origem da vida, expeliram para a superfície do planeta, calor, água e um poderoso cocktail de compostos orgânicos como sulfeto de hidrogénio e arsénico, constituintes da vida. A ciência alvitra que os organismos primitivos, as bactérias estremófilas, alimentaram esta mistura nos lagos vulcânicos por cerca de 2 biliões de anos. De facto, os vulcões não só berçaram as primeiras possíveis formas de vida, como também numa longínqua altura em que o Sol aquecia muito menos o planeta do que atualmente, asseguraram a temperatura através de uma constante emissão de CO₂ que ajudou à criação de uma proto-atmosfera.

Entre 750 e 580 milhões de anos atrás, quase toda a face do planeta esteve coberta por gelo, naquilo a que os cientistas chamam de “Terra Bola de Neve”. Todavia, decorrente de um intenso e moroso cataclismo vulcânico, calotes geladas foram perfuradas pela força de expulsão de CO₂ e CH₄, num mecanismo de efeito de estufa que foi derretendo o gelo e redesenhando a cromacia do planeta. Foi um conturbado período que se estendeu por séculos com violentas tempestades, flutuações de temperaturas extremadas de -50 ºC a 50 ºC, alavancando um passo colossal na diversidade bioquímica, onde um resistente exército de microorganismos conseguiu sobreviver.

Seguiu-se, na inumana cronologia do tempo, ritmado por constantes nuances climáticas, um epopeico reinado evolutivo desses organismos unicelulares, até às complexas formas e tamanhos dos organismos multicelulares, que alicerçam toda a fauna e flora que constitui a vida na Terra.

Mudanças no sistema climático não se manifestam de forma repentina

Uma articulada combinação entre vulcanismo e seres vivos, particularmente o plâncton - microorganismos aquáticos que captam CO₂ e produzem O₂ (fitoplâncton), personificaram um mecanismo determinante no ajuste do equilíbrio atmosférico.

A evolução da história do planeta funde-se com a da humanidade, sendo o vulcanismo, um dos indomáveis perigos naturais que maior impacte socioeconómico pode causar. É um evento natural de escassa predictibilidade, que tem a sua perigosidade exponenciada com o tipo de manifestação, podendo ocorrer de modo efusivo com a emissão de escoadas lávicas, ou de modo explosivo com a projeção de gases e materiais piroclásticos a uma vertiginosa velocidade.

Na composição da crosta, os elementos mais abundantes são silício (Si) e alumínio (Al), no manto silício (Si) e magnésio (Ma), e no núcleo, níquel (Ni) e ferro (Fe).

No início da Idade Média, para além da cíclica instabilidade climática, no ano 535 d.C. começava um dos piores períodos para estar vivo. Um evento catastrófico com o vulcão Ilopango (El Salvador), protagonizou um instante geológico cuja magnitude explosiva fez flutuar em altitude 25 km de gases sulfúricos e partículas de cinza, bloqueando a luz do sol por inúmeros meses, naquilo que foi identificado como o inverno vulcânico, com muito frio (temperaturas desceram 1,5 a 2,5⁰C) e precipitação ácida, com consequências devastadoras na civilização.

Em 1257, o vulcão Samalas em Lombok (Indonésia), contribuiu para o início da Pequena Idade do Gelo, tendo sido uma erupção tão poderosa que a massa de partículas vulcânicas expelidas circulou na atmosfera desequilibrando o clima global. Em 1452, eclodiu o vulcão Kuwae, em Vanuatu (Pacífico), reconfigurando a ilha numa gigantesca cratera num acontecimento que ejetou para a atmosfera 35 kmᵌ de material vulcânico, formando uma enorme nuvem de poeira que filtrou a radiação solar, diminuindo as temperaturas durante cerca de dois anos.

Entre junho de 1783 e fevereiro de 1784, a fissura vulcânica de Laki (Islândia) esteve violentamente ativa e para além dos fluxos de lava, nuvens de compostos venosos foram expelidas, contaminando o solo, destruindo vastidões de plantações com inerente escassez de alimentos, dizimando mais de 50% da fauna e provocando a morte a mais de ¼ da população da ilha.

Em 1815, a erupção explosiva do Monte Tambora (Indonésia), ouvida a mais de 2 mil km de distância, libertou 180 kmᵌ de matéria a uma altura de 44 km, escurecendo o céu num raio de 500 km durante três dias, causando a morte a cerca de 100 mil pessoas e fazendo do ano de 1816, “o ano sem verão”.

A atividade vulcânica tem impactes no clima e na sobrevivência civilizacional

Estima-se que todas estas erupções tenham libertado cinzas, SO₃ (trióxido de enxofre) e CO₂ (dióxido de carbono) em proporção tal, que tem vindo a afetar determinantemente o clima do planeta por cerca de 500 anos. Analogamente, na cronologia histórica, notáveis eventos marcaram similarmente a existência humana. A queda do Império Romano (séc.V) foi também ela imbuída pelas consequências de eventos naturais, pela fácil disseminação de bactérias que fizeram sucumbir milhares às pestes e fome que assolaram a civilização à época.

Desregulando significativamente os padrões de circulação atmosférica, o vulcanismo inferiu inclusive na derrota de Napoleão, na Batalha de Waterloo, pelo “curto-circuito” que causou na ionosfera, com impulso anormal na formação de nuvens, e por inerência num aumento no volume e intensidade de precipitação fora de época.

Os vulcões são dos fenómenos naturais mais fatais, de beleza assombrosa, mas de severo impacte no clima, com consequências que se traduzem em devastação. Contudo, apesar da sua incrível capacidade de destruição, representam uma espécie de fénix, uma vez que depois de arrefecerem, as cinzas e lava atuam como adubo, tornando os solos extremamente férteis.

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